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NÚCLEO DURO

 

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A política é a arte de fazer alianças. É só derreter os fios de ouro roubados...







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domingo, junho 29, 2003

O poeta do DN Jovem armado-ó-jornalista

Pronto, tornou-se incontrolável. A parvoíce é tanta, o rapaz anda a exorbitar de tal maneira, que sou obrigado a desabafar.

Pedro Mexia, conhecido sobretudo pela obra publicada no extinto DN Jovem e por ser crítico literário do DNa, tornou-se, recentemente, uma espécie de guru da blogosfera e dos jovens intelectuais pós-modernos portugueses. Diz-se que escreve bem (e é verdade) e que ousou, com mais meia dúzia de corajosos guerreiros da praça, enfrentar os intelectuais de esquerda (o que é um exagero uma vez que, como já aqui se escreveu, não existe qualquer originalidade nisso: trata-se apenas de plágio requentado de Nelson Rodrigues e Miguel Esteves Cardoso).

Eu quero afirmar a minha discordância com a veneração reinante. E juro que não tem nada a ver com política. O PM irrita-me e cansa-me por outras coisas, mais prosaicas. A saber: aborrecem-me as suas descrições de jantares com amigos; a citação de pessoas (o Pedro, o João, o amigo Miguel) que toda a gente que é pós-moderna deve conhecer mas que eu ignoro; os relatos boçais das suas experiências nocturnas; a colagem à personalidade woodiniana (artista que é artista vive e assume o seu conflito, a sua inépcia amorosa, mesmo que seja de direita).

O registo deriva confessadamente do Independente. Há uns dez anos atrás, PM era um adolescente e devia ler o semanário em êxtase, sonhando com o seu nome (sem fotografia que ele é tímido e gosta de preservar a discrição) no topo da coluna, com sorte ao lado dessoutro grande jornalista que foi e é (porque o jornalismo em Portugal é vitalício, como se sabe) Paulo Portas. Um sentimento normal.

A única coisa criticável é que hoje em dia Mexia mantenha a devoção. Porque aquele snobismo, aquele materialismo exacerbado e novo rico, aquele jornalismo manhoso, que de início tinha piada, tornou-se mal intencionado, repetitivo, mera pose, estilo sem estilo, uma cópia mal feita de algumas publicações anglo-saxónicas (à excepção de Miguel Esteves Cardoso, a maioria escrevia mal, basta lembrar Margarida Rebelo Pinto. Vasco Pulido Valente não entra aqui, porque VPV não é da escolinha do Independente, é um senhor).

Outras irritações. Pedro Mexia dá a entender que toda a gente que já escreveu para um jornal (acrescentaria, para a blogosfera), ou tem uma actividade vagamente ligada às letras ou à comunicação, é jornalista e sê-lo-á eternamente (nisto não difere de Catarina Furtado, Carlos Cruz, António Macedo, Fialho Gouveia, e de um rol interminável de personalidades que nunca produziram uma notícia na vida mas que se apresentam sempre como repórteres).

Defende o poeta, no seu blog, que um bom jornalista deve ser "incisivo, culto e divertido". Ora aí está um tridente pós-moderno! Eu acrescento: não escrever notícias sobre economia, saúde, justiça, crime, imigração, desporto. Não escrever notícias de todo.

Porque o verdadeiro jornalista, para os Mexias, é aquele que bitaita sobre tudo, que faz umas críticas de cinema, de livros, de televisão, que se arrisca na política: é o dilentante-genial-engraçadinho. A actualidade, a seriedade, a honestidade, o rigor, a isenção, o controlo dos poderes, são tudo coisas secundárias para estes prosadores livres e criativos, capazes de, com a mesma destreza, escreverem uma crónica, fazerem uma entrevista a alguém na moda, ou serem actores. Os bons jornalistas, para os Mexias, são os Tendinhas e os JMTavares cá do burgo.

O discurso de Pedro Mexia não teria, no entanto, importância se fosse só ele a pensar assim. O problema é que há muita gente que não percebe nada de jornalismo, nem sabe como se produz um jornal, ou uma notícia. É por isso que nasceu aquela pseudo-rivalidade ridícula entre a imprensa e a blogosfera. É por isso é que há quem brinque ao blog e julgue que dirige um jornal, com "crises" editoriais e tudo, como no NYT, e jornalistas a sério a meterem-se ao barulho. A profissão vai mal, vai sim senhora!

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