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NÚCLEO DURO

 

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A política é a arte de fazer alianças. É só derreter os fios de ouro roubados...







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segunda-feira, dezembro 29, 2003

Contos da quadra

Boas festas pelo corpo todo...


No outro dia, fui almoçar já tarde ao Casanova, o italiano na doca de Santa Apolónia, que serve das melhores pizzas de Lisboa, em cenário fluvial. Como de costume, o restaurante estava cheio de artistas, jornalistas e outros atrasados mentais que vestem “t-shirts” por cima de “sweat shirts”, falam muito alto de galerias, peças de teatro e merdas do género, e não sabem distinguir uma folha de rúcula de uma folha de manjericão.

Ia sozinho e encaixaram-me numa das mesas corridas, compridas, de frente para o rio. Do meu lado esquerdo estava um casal sossegado; e o lugar à minha direita permanecia vago. Nada mau, pensei: fico com a asa liberta para serrar a napolitana e espaço para abrir o livro.

(Há quem diga que a promiscuidade do Casanova, todos a comer uns em cima dos outros, é aborrecida. Eu acho que depende: já apanhei a Laurinda Alves a falar de doenças prolongadas, já apanhei um gajo de Tag de ouro a procurar arrebanhar o namorado para uma seita maluca, já apanhei pessoas normais, gajas boas... A verdade é que, desde que a pizza venha carregada de “mozzarela” e cozinhada no ponto, estou-me cagando.)

Mas eis que, de repente, enquanto espreitava a lista, surge alguém para ocupar o lugar livre. Ao início, fiquei fodido. Mas depois identifiquei o timbre da comensal: Ana B., a minha actriz portuguesa favorita, a geração dos 40 anos no seu melhor.

Apareceu mais velha do que nos ecrãs, mas a mesma voz, a mesma alucinação. Ao sentar-se, quase abalroou o homem à sua direita. E roçou a perna dela na minha; ainda que o toque tenha sido inadvertido, não pude deixar de pensar, enquanto voltava a enfiar os olhos na literatura: A Ana B. roçou-me a perna! Nada de mais, dirão. Sem dúvida, mas confesso que a ideia ocorreu-me durante uma fracção de segundo. A Ana B. roçou-me a perna!

Apercebi-me então que o lugar da direita fora-lhe reservado pelo homem sentado do outro lado da mesa, com quem acabaria por manter uma conversa animada: um tipo porreiro – gay, mas porreiro - cujo nome não vou revelar (questa merda não é o 24 Horas!). Ouvi tudo. De resto, Ana B. não tinha nada a esconder: à segunda garfada na salada de rúcula com parmesão já era o centro das atenções da mesa, metendo conversa com toda a gente.

Falou da passagem de ano, zombou da pizza do amigo, que parecia uma filhó, elogiou os progressos do filho Frederico na escrita criativa, criticou a falta de higiene da abertura das latas de Coca-Cola – “parece impossível como é que a União Europeia ainda não proibiu isto”. E discorreu sobre as mensagens SMS de Natal.
- A mais gira que me enviaram foi a do António Feio – disse, repetindo a frase baixinho, tão baixinho que até eu, que lhe sentia o cheiro do desodorizante, não consegui ouvir. – Vou mandá-la para toda a gente – acrescentou, perguntando-me de seguida, repentinamente.
- Não gosta do António Feio?
- Gosto, gosto – anui, de imediato, sem contudo saber o teor da mensagem de natal “genial” a que se referia.
E blá, blá, blá, mensagens práqui, mensagens práli, “o António Feio tem um humor muito especial”, pois tem, digo eu, blá, blá, blá... e agora que já somos amigos, e eu não tenho cigarros...
- Por acaso não tem um cigarro que me arranje?- inquiri.
- Concerteza, tem é que o enrolar.

Foda-se, pensei. Tinha que ser de enrolar! Nunca tive jeito para esta merda. Com os nervos, vou rasgar a mortalha toda. É certinho. Vai ser uma vergonha. Gaguejei: aaaaa..., aaaaa....., pois..., bem... Até que ela, apercebendo-se da minha hesitação, sugeriu enrolá-lo para mim; ou então que fumasse um dos do amigo, Português Suave Lights convencional. Aceitei a última alternativa.

Fez o cigarro dela em poucos segundos, perfeito, fino, a revelar apetência por outros fumos. E continuou o diálogo com o homem sentado à sua frente, que entretanto se esquecera de me dar o cigarro. Paguei a conta e fui-me embora pouco depois, despedindo-me educadamente.
- Então um bom ano – disse.
- Bom ano e... Boas festas pelo corpo todo.

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