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NÚCLEO DURO

 

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A política é a arte de fazer alianças. É só derreter os fios de ouro roubados...







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terça-feira, fevereiro 03, 2004

Elogio a Gonçalo Ribeiro Telles

Fui recentemente entrevistar Gonçalo Ribeiro Telles. O arquitecto paisagista tem 80 anos, mas continua a ser um homem com uma força impressionante. É uma grande personalidade e tem um discurso clarividente, fruto de muita sabedoria acumulada. Já deteve cargos políticos importantes, conhece o poder por dentro, mas é desprendido em relação a isso. Continua a lutar pelas suas causas: os corredores verdes, os parques periféricos, um desenvolvimento humanizado. Luta por causas, não por cargos. Disse-me, com um aceno de mão, que não tinha ficado incomodado com o tratamento que lhe foi dispensado pela autarquia de Santana Lopes. O que o incomoda é passear por Lisboa e ver Telheiras a crescer por todos os lados. Em exclusivo mundial para o Núcleo, algumas declarações do velho visionário:

"Ainda agora dei a volta pelas novas zonas de Telheiras e de Carnide e acho que estamos perante um problema muito grande, Aquilo é muito mau e não tem vivência. Ainda por cima, está tudo à venda. Toda aquela gente que vive na primeira periferia de Lisboa (Cacém, Olival Basto, Odivelas) tem as casas podres. Os sítios são repelentes. É essa gente que está a alimentar a construção na outra banda. E sabe quem está a ir para essa primeira periferia? São os imigrantes que vieram recentemente para o país e que vivem em casas alugadas à cama, sem as mínimas condições. Aquilo é de fugir, é 3º mundo do pior. Ora, isto não é fazer cidade."

"O programa Polis foi um desastre, porque é um programa por zonas, não cria estruturas contínuas, nem flexíveis, nem economicamente viáveis. Outro problema que cá não vêem é que tudo quanto não é construído tem que ter viabilidade de manutenção. E a viabilidade de manutenção não pode querer dizer que tudo quanto não é construído - ou seja, o sistema natural do espaço - tenha que ser cuidado como um jardim do séc XIX, com água proveniente de Castelo de Bode e com jardineiros a cortar tudo à tesoura. Isso não é economicamente possível, nem é hoje o interesse da população. A população deseja percursos contínuos, grandes, em que possa correr."

"Os portugueses não têm espaços verdes de referência. Como é que podem frequentar espaços verdes se eles não existem? O que lhes dão é o Jardim do Príncipe Real. Não têm noção do que é hoje um sistema natural. Hoje há corredores em Paris que até têm cultura de trigo. Por que há-de haver um relvado à escocesa num país mediterrânico, se pode haver uma paisagem urbana que não é estática, nem cenário para bilhete postal. 47,5% da produção agrícola dos EUA, em dólares, é feita nas áreas urbanas, por intermédio do sistema natural das cidades, Há corredores enormes, por ex. entre Boston e Nova Iorque e na Califórnia."

"Hoje, todas as cidades de província são repulsivas e têm um caminhozinho arranjado no centro histórico envolvido por autênticas aberrações habitacionais. Agora [os promotores e as câmaras] começam a estar apavorados, mas é porque não vendem essas casas."

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