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NÚCLEO DURO

 

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A política é a arte de fazer alianças. É só derreter os fios de ouro roubados...







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quinta-feira, maio 20, 2004

Glória Fácil vs Pide vs Pacheco Pereira vs LS

Surgiu recentemente uma polémica entre Pacheco Pereira e alguns jornalistas do Público que tem como pano de fundo as torturas infligidas por soldados americanos no Iraque. Em linhas gerais, Pacheco Pereira acha que o acontecimento está a ser aproveitado politicamente para desacreditar a "coligação" e invocou um relatório produzido em 1976 onde são denunciadas torturas praticadas após o 25 de Abril por forças militares aliadas à extrema esquerda. O que pensa a esquerda actual sobre essas torturas que se desenrolaram quando em Portugal já não havia ditadura, perguntou o político. A certa altura, o nome da Pide surgiu na polémica. Pacheco Pereira apelidou os jornalistas de ignorantes por imputarem à Pide torturas que aquela polícia não praticava, de acordo com os documentos conhecidos e o "quadro mental dos agentes". Não contesto o rigor do autor do Abrupto, que é um estudioso da matéria. Mas atrevo-me a opinar: talvez a Pide não fosse assim tão branda. Alguns dos seus agentes eram particularmente brutais. Tenho um conhecido cujo pai (já falecido) foi agente da Pide. Essa pessoa está a escrever uma espécie de romance autobiográfico (disponível na net), onde relata algumas das suas memórias da infância passada em Angola. E há excertos como estes:

"Por vezes fazia deslocações num jipe com um grupo da Pide. Costumavam ir até umas sanzalas nas redondezas onde obtinham todo o tipo de alimentos gratuitamente. Mal os negros os avistavam prontificavam-se de forma azafamada a apresentar o que de melhor tinham: cabritos, galinhas, frutas, hortaliças. Ofereciam tudo como se estivessem na presença de deuses, tal era o receio das represálias. Todos aqueles negros mantinham um sorriso entre os lábios, sabe deus com que dificuldade, enquanto eram saqueados civilizadamente.
No regresso a casa quando avistavam uma negra à beira da estrada paravam o jipe e um ou outro elemento prestava-se ao amor que a negra tinha para lhe dar. Por mais do que uma vez o pai de Alex pediu que os colegas levassem a mulher para uma distância considerável, pois estava ali o filho.
Estes actos não eram apenas perpetrados pelos pides - com frequência militares e pides juntavam-se na paródia.

As formas de agressões e humilhações a que os negros estavam sujeitos eram imensuráveis. Alex lembra-se, como se hoje fosse, de um espancamento em pleno prédio residencial. Tinha ido visitar uma amiga com a mãe. Ao subir as escadas do prédio começou a ouvir gritos de profundo desespero. A certa altura sentiu na mãe o impasse, como se não soubesse qual a direcção que tomar. Os gritos continuavam a soar estridentemente. Num dos pátios de um apartamento pôde ver dois militares a fustigar com os cintos um negro todo nu. Todo ele escorria sangue, tal era a violência dos golpes feitos pelas fivelas do cinto. A mãe de Alex gritou para que parassem, alegando que aquilo era um acto de covardia e desumanidade. Os militares mandaram-na calar e que seguisse o seu caminho pois aquilo não tinha nada a ver com ela. O negro implorou: "Ajude patroa, me ajude por favor patroa!"; Para pouco depois desfalecer pelo chão tingido de vermelho. Alex vê os seus olhos perderam a capacidade de ver devido às mãos da mãe no seu rosto. O seu coração batia descompassadamente. Batia o descompasso da incompreensão e do terror. "

(...)

"A casa para onde vão habitar possui as características de um forte. Paredes com a espessura de um metro e portas blindadas com uns quinze centímetros de espessura, por três metros de altura e um metro e meio de largura. As janelas eram gradeadas com barras de ferro. Era algo colossal. Um posto estratégico da Pide, no qual se instruíam soldados denominados "flechas". Sua função era prevenir actos terroristas e fazer reconhecimentos de zonas em conflito. Num vasto descoberto realizavam as operações que consistiam em tiros ao alvo, manuseamento de granadas, técnicas de lançamento, desminagem - as minas eram as peças de artilharia mais temidas, todo o cuidado era pouco. Numa das operações um dos chefes dos flechas ficou sem as pernas. Tudo porque teve a ingenuidade/distracção de apanhar uma caneta do chão.
À noite, após os treinos intensivos, o pai de Alex reunia-se com um capitão e mais alguns superiores dos flechas, para conversarem sobre os desempenhos dos "soldados" e aperfeiçoar os esquemas de estratégia. Durante essas conversas, que iam pela noite adentro, pôde ouvir algumas histórias. Nunca conseguiu saber toda a sua essência, todo o seu teor, porque o pai ia deitá-lo por volta das dez da noite, mas ouviu-o relatar situações sobre comportamentos de colegas em relação a alguns reclusos. Três ficaram-lhe na ideia. Numa dessas descrições o protagonista era um tal de Guimarães.
Guimarães era um dos indivíduos mais temidos pelos presos, um homem sem escrúpulos e de uma frieza ímpar, a qual, adicionada à violência que o caracterizava, tornava-o abominável. Tinha o hábito de requisitar presos detidos pela organização e transportá-los em botes de borracha para lugares remotos ao longo da costa angolana. Lá chegando mandava os detidos correr, dizendo-lhes que se chegassem à floresta obteriam a liberdade. Da praia à vegetação seriam precisos transpor cerca de trezentos metros, para estarem a salvo. Guimarães prometia que não dispararia, só o fazendo quando estes entrassem nas imediações da floresta. Pedia-lhes que reparassem bem na proposta que lhes fazia, pois esta continha muitas probabilidades de fuga.
Os reclusos começavam, então, o que seria o caminho da absolvição. Porém, não estariam a mais de setenta metros e eram simplesmente fuzilados sem dó nem piedade com rajadas de G3. Pareciam tordos a cair. Outra característica cruel daquele homem impiedoso era fazer com que a vítima escavasse um buraco, cujas dimensões ele saberia ver quando estivessem, no que ele dizia de ideais. O "desgraçado" começava a cavar o que viria a ser a sua sepultura. Assim que a cova alcançava a dimensão adequada, que consistia na altura do preso, ordenava que este se metesse lá dentro, depois de lhe ter voltado a algemar as mãos atrás das costas. Enchia-o de areia até ao pescoço e abandonava-o à sua sorte.
Outro dos indivíduos temidos era um tal de Fernandes, alentejano de gema, que tinha um método algo frustrante. Seu "tratamento" para fazer falar os detidos - e é de salientar, por se tornar relevante, que só estava autorizado a exercer o tratamento a reclusos com mais de cinquenta anos -, consistia em pô-los com alguns familiares à frente, jovens de catorze anos e menos, e mantendo-os algemados e agarrados por três ou quatro guardas, socava-os a nível do estômago até que cuspissem sangue, tivessem ou não já dito a verdade.
De todos o mais cínico era o método utilizado por um tal de Santos. Era quase impensável o que este indivíduo era capaz de fazer. Quando um preso se apresentava à sua guarda, depois de ter preenchido um formulário e ser devidamente fotografado, Santos conduzia-o ao que iria ser o seu novo lar. O que os infelizes não adivinhavam era o que lhes estava prestes a suceder. Santos tinha uma maneira simpática de abordar os reclusos. Perguntava-lhes o nome, o que é que haviam feito, como se não soubesse, num tom de voz de compaixão ? deixava transparecer ao preso que estava perante um amigo que velava pela sua integridade. Ao chegar à cela abria-a e mostrava o que viria a ser os novos aposentos do recluso. Porém, o que Santos mais parecia estar interessado em mostrar ao novo inquilino era o quarto de banho/latrina. Havia algo na sua expressão que se adulterava com o convite e a proximidade do recinto. Como os reclusos nada podiam fazer, seguiam-no. Lá chegando mostrava-lhes alguns escritos nas paredes ? recordações de outros que por lá transitaram. Depois, sem querer, deixava cair um porta-chaves no buraco da cagadeira e, mostrando-se admirado com a distracção, pedia-lhes amavelmente que fizessem o favor de o apanhar. Assim que os infelizes colocavam a mão, e parte do braço, dentro do buraco, na tentativa de reaver o chaveiro, dava-lhes um tremendo pontapé ? podia ouvir-se o som dos ossos a fracturar. Não se ficava por aqui! Desferia-lhes dois, três, quatro pontapés quebrando-lhes o braço em várias partes. O que não é menos de salientar, é que só teriam direito a "assistência médica" na manhã seguinte? muitos desmaiavam durante a noite."


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