.
.

NÚCLEO DURO

 

Pub

A política é a arte de fazer alianças. É só derreter os fios de ouro roubados...







Pub







quinta-feira, setembro 16, 2004

Frases Usadas

O problema é este. Em Portugal ninguém é aquilo que aparenta ser. Melhor. Ninguém é aquilo que aparenta fazer. E defende-se se alguém disser que é. O homem que escreve nos jornais não é um jornalista. Não! É, sim um romancista que se viu obrigado a recorrer [Recorrer é uma actividade deliciosa. Correr ninguém corre. Ninguém se salva a si mesmo. Recorre-se ao crime, à Cruz Vermelha, ao Supremo, à prostituição e à heroína. Está-se aflito. Nunca se tem culpa. Quando não se consegue recorrer apela-se. Ao bom senso. À razão. À misericórdia] ao jornalismo para ganhar a vida. O electricista que trabalha em cinema não é um electricista. Tal como o luminoso técnico, o operador, o montador, o rapaz que traz os cafés é um realizador. Está à espera de uma oportunidade. Como diz a genial Graça Lobo: "Eu só quero que me dêem uma oportunidade." Eu também, se for sincero, não sou um colunista. Sou muito português - faço muitas coisas e não faço ideia do que seja. A não ser parvo. Porque a ideia de que faço é só do que não sou. Tenho é - como os outros Portugueses - ideia do que os outros são, mas falta-me a coragem para lhes dizer. O empregado de mesa parece-me um empregado de mesa mas aceito que seja um inventor incompreendido ou um toureiro precocemente aposentado. Peço-lhe desculpa pela presunção de me sentar a uma mesa com a intenção fascistóide de ser servido. Em Portugal, quando se pede alguma coisa - seja uma bica ou um impresso - tem de se pedir, ao mesmo tempo, desculpa.
No fundo pedimos desculpa pela existência e pela sua malvadez na distribuição dos papéis. Dizemos "Desculpe?" à pessoa que nos serve um whisky no Bairro Alto ou na Ribeira porque sabemos que estamos na presença de um estilista (Hoje em dia, quando é que não se está?) Dizemos "Desculpe" porque sentimo-nos como um bardamerdas que entra numa papelaria e pede uma folha de papel almaço ao Leonardo da Vinci.
Em Portugal as pessoas não "são" secretárias, recepcionistas, pedreiros, críticos de teatro. Até se arranjou maneira de dizer que não são. Diz-se que estão como. É a não sei quantos que esteve para ir para o IADE e que está como secretária numa empresa de rações. É o Marques Mateus que, até furar o cerco que lhe movem os galeristas de Lisboa no sentido de não o deixar expor as suas obras, está como professor de desenho num liceu dos arrabaldes. (...)

Miguel Esteves Cardoso; "As Minhas Aventuras na República Portuguesa"

0 Comments:

Enviar um comentário

Links to this post:

Criar uma hiperligação

<< Home



 

banner for http://www.eurobilltracker.com

Powered By Blogger TM