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NÚCLEO DURO

 

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A política é a arte de fazer alianças. É só derreter os fios de ouro roubados...







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sábado, setembro 11, 2004

A Ratinha Presumida

Conhecem o eterno retorno do Nietzsche? Pois é, eu agora retornei aos livros de infância depois de me ter feito acompanhar pelas mentes mais "adultas" possíveis. Chafurdei pela devassidão do Marquês de Sade, estive com o Henry Miller a flanar nas ruas de Paris, os dois às putas no entre-guerras, quando não havia amanhã. Antes tinha compreendido com o Sartre porque sentimos vergonha e fui traficar escravos e armas com o Rimbaud para a Abissínia, depois de abandonar as belas letras e a moral. Privei com a energia diabólica das imprecações de Artaud e fui á fonte ler o Santo Evangelho segundo São Lucas e lavei daí as minhas mãos, como Pilatos. Fui o estudante Raskolnikoff, inventado por Dostoievski, cuja miséria levou ao crime e ao castigo: "A miséria em que vivia tê-lo-ia torturado noutros tempos; ultimamente, porém, até a própria pobreza deixara de lhe causar qualquer sofrimento. Abandonara por completo as suas ocupações quotidianas, todo o trabalho..." Conheci o totalitarismo com o "1984", de Orwell, o holocausto com o "Se Isto é Um Homem", de Primo Levi, o assassínio com Lautréamont, a viagem com "Na Patagónia", de Chatwin, o budismo com Herman Hesse, a angústia existencial com Camus e Kafka. Nos EUA, contradisse-me tal como Walt Whitman, andei à boleia com Kerouack e apanhámos uma bebedeira zen em São Francisco enquanto o paneleiro Ginsberg declamava o seu teatral "Uivo" e queria que todos ouvissem: "I saw the best minds of my generation destroyed by madness, starving hysterical naked". Meti-me no LSD com Morrison, na heroína com Burroughs, na nicotina com Waits, o que foi dar às portas da percepção do Huxley. Voltei a Portugal e ao que é mais profundamente meu, ao país emproado por Camões, enfezado por Alexandre O´neill, esquizofrénico de Pessoa, melancólico de Ruy Belo. Voltei à Coimbra perfeitamente descrita por Assis Pacheco nos "Trabalhos e Paixões de Benito Prada", à Lisboa desolada de Lobo Antunes, que me ensinou a perder a pontuação alguresnumparágrafodedonaspalmirasquechoramsemsaberemporquê
enquantodãocomidaaosperiquitoseacendematelevisãodamarquise
Pois é, já andei por aí, por essa literatura "adulta" e desesperada e agora regressei à infância. Deu-me na nostalgia: quis recuperar o meu dossier de trabalhos da primária, pus-me a ver os livros que me liam quando era pequeno. E eis que me deparo com este, intitulado "A Ratinha Presumida" e editado pelo centro de caridade Nossa Senhora do Socorro, uma insittuição do Porto. A autora e desenhadora chama-se Magda e dá-nos aqui uma lição de vida inolvidável que ainda não tinha entendido dos livros referidos anteriormente. Passo a transcrever, mantendo a pontuação e a ortografia. Que a história vos sirva de lição, seus embusteiros.

"A Ratinha Presumida"

Um certo dia uma ratinha muito presumida encontrou um dinheirito quando barria o seu jardim e pensou:
- Em que vou gastá-lo? Comprarei um vestido novo... um laço para o meu rabito...?

E, depois de muito pensar comprou um chapéu lindíssimo. Olhando-se ao espelho disse:
-Da maneira como estou vestida certamente encontrarei um elengantíssimo marido!

Muito presumida a ratita sai à procura de um bom partido
-Olá, linda ratinha!, queres ser minha esposa? perguntou-lhe o galo galante
-Não!, tens as penas demasiadamente vistosas e ofuscarias a minha beleza.

Apresentou-se depois um lindo cão que lhe perguntou:
- Ratinha querida, gostarias de passear comigo?
-Não!, tens a vos pouco delicada.

Passou um pato pelo jardim e perguntou-lhe:
- Formosa ratita, queres ser minha esposa?
- Não!, tens o bico demasiado grande.

Passaram assim todos os pretendentes, até que chegou a vez de Dom Gato:
-Olá ratinha!, queres ser minha esposa?
-Tu sim, tens uma voz deliciosa e um olhar cativante, o meu coração já te pertence!

Casaram-se e a ratinha não cabia em si de contente. Mas, quando chegaram a casa o gato lançou-se sobre ela para a comer. A ratinha gritou com toda a força e acudiram os seus antigos pretendentes, salvando-a da morte.

Isso ensinou a ratinha presumida a ter em conta as boas qualidades e não só o aspecto exterior.
FIM

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