terça-feira, julho 06, 2004

Ar puro

Respira-se melhor em Portugal, agora que o Euro acabou e a selecção perdeu.
Ar puro

Respira-se melhor em Portugal, agora que o Euro acabou e a selecção perdeu.
Euro2004: balanço necessário II (tás c'uns títulos à jornal de referência, oh Vostra, sim senhora!)

Concordo com quase tudo o que escreveste, Vostra. Mas é preciso também desmistificar essa ideia de que a equipa transformou-se completamente com a entrada do contingente do Porto. É que a exibição de Portugal contra a Grécia na final não foi melhor do que a que fez no primeiro jogo. Acontece mesmo que Costinha esteve muito mal (e não foi a primeira vez...), Maniche medíocre (quando tinha sido o melhor jogador português), Ricardo Carvalho mais frágil do que o habitual e Deco não se viu. Ou seja, hoje sabemos que jogámos mal no primeiro jogo, em grande medida, por mérito da Grécia e desmérito de Scolari, que não conseguiu arranjar uma táctica eficiente.

De resto, pareceu-me que a selecção portuguesa também beneficiou do facto de este ter sido um mau torneio tendo em conta a má forma da maioria das equipas.

Ainda assim, a rapaziada portou-se bem, o balanço é positivo, mostraram que sabem ganhar, que são uma equipa experiente e confiante. Devemos-lhes algumas das jogadas mais bonitas do campeonato.

segunda-feira, julho 05, 2004

Frases Usadas

"O PS parece um urso em hibernação. Na verdade, eles não querem eleições antecipadas. Estes silêncios de dias a fio não existem em política. Até eu fiz mais barulho do que o PS. O problema é que eles tem um medo terrível de enfrentar o Santana Lopes, que conseguiu criar uma imagem pública de que vence todas as eleições em que se mete. É muito mau as pessoas pensarem que não há alternativas possíveis."
Pacheco Pereira, perante um José Magalhães encavacado

"Escreve esta história. As coisas que passam ficam para sempre numa história escrita."
Sophia de Mello Breyner

"Se um estúdio me oferecesse o mesmo dinheiro para limpar o chão, eu limpava o chão."
Marlon Brando

"Eu já dei o que tinha a dar. Vou desistir."
Marlon Brando, 1956
Euro 2004: O balanço necessário



Confesso que no início deste Europeu temia o pior. Os jogos de preparação faziam adivinhar que Portugal não iria muito longe. Já me dei por satisfeito por termos passado da primeira fase. Daí para a frente, tudo foi lucro. Só perdemos na final, com uma equipa tacticamente espectacular, que foi dando lições aos seus adversários do início ao fim do torneio. A Grécia é um justíssimo campeão e se Portugal não tivesse sido o outro finalista era por eles que tinha torcido. Hellas!!!

A parte má: a satisfação geral com a organização da prova e com a prestação da equipa vai cimentando o terreno para que se perpetue o reinado de D. Gilberto Madaíl, "o Idiota". Tá tudo aí contente e de parabéns, mas a "porcaria da Federação" de que falou Carlos Queirós aqui há uns anos continua aí a tresandar. E já fez merda: renovou com o seleccionador.

O Felipão é um tipo carismático, não há dúvida, e tem autoritarismo que baste e uma sorte do caraças. Tirando isso, é um péssimo treinador e as suas equipas jogam mal. As únicas vezes que vi uma equipa do Scolari jogar bem foi Portugal neste Euro, nos jogos em que o teimoso brasileiro decidiu finalmente colocar de início o contingente do FC Porto, que joga de olhos fechados. O Brasil com que o técnico venceu o Mundial era uma equipa horrível, que teve dificuldades inconcebíveis em se apurar para a prova e uma sorte inacreditável que a acompanhou até levantar o troféu.

Já toda a gente fala do Mundial da Alemanha, mas esquecem-se de que ainda é preciso passar pela fase de apuramento. O grupo A inclui Rússia, Eslováquia, Letónia, Estónia, Liechtenstein e Luxemburgo. É, parece fácil. Mas o problema é mesmo esse. Portugal é péssimo a assumir em campo a condição de favorito. Não sou um pessimista. Mas há algo no ar que me diz que se aproximam tempos difíceis para a selecção. Espero estar enganado. Aproveito para perguntar aos gregos se não querem trocar o Rehhagel pelo Felipão. Oferecemos o Rui Jorge e o Beto de bónus.

sábado, julho 03, 2004

Voucher não vale



Os portugueses adoram usar estrangeirismos, sobretudo quando não são necessários. É chique, sei lá... A última palavra obsoleta que apareceu aí em força é voucher.

Acabei de ver uma reportagem da RTP, a propósito de umas filas que as pessoas estavam a fazer aqui em Lisboa para trocar o seu voucher por um bilhete para o jogo da final do Euro 2004. O mais engraçado foi reparar como cada um dizia a nova palavrota à sua maneira: "vúcher", "váucher", "vócher" e até "vochere" foram algumas das formas constatadas.

Voucher é inglês e quer dizer tão somente vale. Isso que tu tens aí para trocar por um bilhete é um VALE, seu ignorante do caralho. Tugas!...
Mau português

Epá, oh Zizou, desde quando é que ajudas velhinhas a atravessar a estrada?

E tu, oh Vostradeis, agora deu-te para a reportagem etnográfica? Mete lá mas é umas fotografias de gajas nuas.
Os senegaleses da Ilha do Sal



O calçadão que separa a zona dos hotéis do areal é o território dos senegaleses, proibidos pela polícia de importunar os turistas na praia. Homens de pele muito escura, destinguem-se facilmente dos achocolatados cabo-verdianos. E são os piores vendedores e os seres mais chatos que alguma vez conheci.

O primeiro que vimos foi uma mulher gorda, com um vestido largo e berrante, que tentou fazer trancinhas à minha namorada, por 20 euros. Pareciamos então compreender os avisos do empregado do hotel: "Cuidado com os senegaleses! Não falem com eles." Mas a coisa ainda ia piorar. Com os seus sacos cheios de tartaruguinhas e máscaras de madeira, caem sobre os turistas como moscas sobre vacas. E não há rabo que as consiga sacudir. A táctica é sempre igual e parecem ter todos andado na mesma escola. "Ciao!", tentam primeiro, desejando que os destinatários sejam italianos. "Po'tuguez?", continuam a tactear.

Se não forem absolutamente ignorados, como se simplesmente não existissem, são capazes de acompanhar os turistas durante quilómetros, na tentativa sôfrega de vender uma bugiganga qualquer por 10 euros. Um simples "olá" e dificilmente o europeu se livrará de ouvir toda a história mentirosa do senegalês, que no seu crioulo com sotaque francês, contará com olhos de cãozinho abandonado que é um artesão, que veio da Praia ou do Mindelo, e que ainda não vendeu nada hoje. "Po' favô', tenho fome."

A dada altura desta visita à Ilha do Sal, após a vitória de Portugal sobre a Rússia (2-0) para o Euro 2004, que vimos em directo pela televisão com os comentários de um animado locutor cabo-verdiano, decidimos percorrer o calçadão até à vila de Santa Maria. Um batalhão de snipers das tartaruguinhas foram-nos bombardeando durante todo o passeio. Já na aldeia, o assédio não foi mais suave. Os próprios locais, pareciam seguir o exemplo dos senegaleses. Deparámos com um pequenito, aos saltos, que ainda se iniciava na arte da chateação:

- Olha, compra-me esta tartaruga. Ajudem que tenho fome. Anda. Não vendi nada hoje. Compra, compra, compra. Pa eu cume uma sande. Vá, compra. Eh, vocês não ajudam!...

E dizendo isto, afastou-se. Mais tarde, preparávamos o espírito para enfrentar novamente o calçadão ao voltar para o hotel, quando vimos o mesmo puto na areia, a brincar com um amiguinho. No mesmo instante, aborda-nos um adulto, já muito mais aperfeiçoado na lábia, embora visivelmente tocado por qualquer coisa etílica:

- Ora, muito boas noites. Então, a nossa selecção ganhou!? Hoje é tudo mais barato. Tenham a bondade. Permitam apenas que lhes mostre...

Dizia isto sem conseguir deter a nossa marcha, quando foi interrompido pelo nosso amiguinho:

- Eh, não vale a pena! Esses aí não gostam de ajudar!

A última coisa que ouvimos foi o som de um tabefe paternal que parecia entregar na nuca do pirralho a mensagem: "Seu burro! Acabaste de me estragar o negócio."

sexta-feira, julho 02, 2004

Um mau português

Um destes dias, atrevi-me a dizer, meio a sério meio a brincar, que não era grande adepto da selecção portuguesa e que não fazia especial questão que ganhasse à Holanda. Foi o suficiente para se desencadear um pequeno motim e fui logo arrumado como um «mau português». Assim mesmo, um «mau português».
O Meireles, que não paga impostos mas anda de bandeirinha no carro, é um bom português. O Silva, que conduz que nem um louco mas anda de lenço da selecção na cabeça, é um bom português. A D. Maria, que leva o cão a cagar nos passeios mas anda de cachecol de Portugal atado à carteira, é uma boa portuguesa. O Simões, que bate na mulher mas vai para a rua buzinar depois de cada vitória de Portugal, é um bom português. O Sousa, que não paga aos ucranianos que trabalham na empresa de construção mas foi ao Estádio da Luz apoiar a selecção, é um bom português. Etc, etc, etc.
Eu, que trabalho honestamente, pago os impostos todos, ajudo as velhinhas a atravessar as passadeiras, sou civilizado no trato com os outros (inclusive na estrada), não cometo crimes e não deito lixo para o chão, sou um mau português. Tá certo!
Hellas!



Custou, mas fiquei fã da Grécia. É verdade, jogam feio e não têm grandes jogadores, mas merecem estar onde estão. Venceram o país organizador, o campeão em título e a melhor equipa da competição, e tudo sem penalties roubados nem golos anulados.

Os jogos dos gregos são chatos, mas ninguém corre mais que eles, e se é verdade que eles jogam feio, também é verdade que não são violentos e não lhes dá para tácticas de país pequenino tipo, por exemplo, o guarda-redes fingir que lhe partiram as pernas com um taco de basebol dez vezes nos últimos minutos para gastar tempo.

Ainda por cima, os adeptos gregos são uns gajos simpáticos. Se a Grécia ganhar no domingo, não fico lá muito triste. Aliás, como se pode reparar pela decoração destas páginas, este blog também está com uma veia helénica.
As grandes insubmissões

As grandes insubmissões sempre foram para mim as pequenas. Na minha vida, lembro duas.
Começava um ano lectivo. Andaria no segundo ano do liceu. Era a época da feira da piedade. Cheguei de férias na minha terra e vi o vítor a andar de carrocel. Esperava que a volta acabasse para o abraçar. Fui esperando, ele nunca mais descia. Uma volta, mais outra, outra ainda. Fui contando: vinte. O vítor tinha vinte escudos. Eu já o respeitava, porque era muito alto. Passei a respeitá-lo mais. O vítor era capaz de gastar vinte escudos no carrocel.
Outra grande insubmissão foi a do maurício, também nos primeiros anos do liceu.
Um dia o maurício faltou à aula das nove. Até aí, nada de particular. Saímos para o pátio e o maurício estava no campo de basket, perfeitamente equipado, sozinho, a lançar a bola ao cesto.
- Ò maurício, faltaste à aula das nove.
E o maurício, sem responder, imperturbável, continuava a lançar a bola ao cesto.
Tocou para a aula das dez.
- Ò maurício, não vens à aula?
E o maurício não respondia. Continuava, imperturbável, a lançar a bola ao cesto.
Faltou à aula das dez, faltou toda a manhã. Nos intervalos saíamos e logo ouvíamos a bola contra a tabela. O maurício, sozinho, continuava a lançar a bola ao cesto.
Só se foi vestir quando tocou para a saída da última aula dessa manhã. Esperámos todos por ele. Não lhe perguntámos nada. E seguimo-lo cheios de admiração. O maurício, apesar dos professores, apesar dos contínuos, apesar da campainha, faltara a todas as aulas.
Toda a manhã jogara basket. Sozinho. Contra professores, contra contínuos, contra a campainha.

Ruy Belo; Homem de Palavra[s]

quinta-feira, julho 01, 2004

Laranjas

Na efusiva imprensa diária de hoje aparecem nada mais nada menos do que 37 piadas e trocadilhos com a palavra "laranjas": "laranjas amargas", "laranjas doces", "laranjas podres", "laranjas esmagadas"... Malta com muita imaginação, portanto.

PS1: Sampaio disse no fim do jogo de ontem que a onda de loucura dos adeptos portugueses em volta do Euro devia ser estudada. Eu acho que era interná-los logo. Andamos há décadas a estudar o futebol, não há nada mais estudado neste país do que o futebol. O dr. Sampaio não se lembrará, assim de repente, de outras coisas que o país deva estudar?, matemática, Português, o alfabeto, sei lá...

PS2: Dito isto, a verdade é que vibrei a sério com o Portugal-Holanda. Bom jogo, grandes primeiros 45 minutos de Portugal, muito sacrifício a defender, técnica superior. Melhores em campo: Maniche, Figo, Miguel, Deco e Nuno Valente.

quarta-feira, junho 30, 2004

Adeus Rocco

A estrela porno Rocco Siffredi, um dos grandes durões do século, vai deixar a actividade. A declaração do guru, na hora da despedida:

"Os meus filhos estão crescendo e já não posso simplesmente dizer: o papá vai trabalhar, sustentar a família. Eles agora querem saber mais."

Força Holanda

Para quem verdadeiramente gosta de futebol, todo este espalhafato histriónico em torno do Euro é já absolutamente insuportável. No início, encarava-se o folclore com resignação, mas à medida que o fenómeno alastrou tornou-se perfeitamente doentio, pelas proporções gigantesca que assumiu. O pior de tudo é a exaltação patrioteira que varreu o país, a começar pelas televisões. Quem realmente gosta de futebol já não suporta as bandeiras, o hino, a Nelly Furtado, as pessoas, o país... Por isso, Força Holanda!
Frases Usadas

"Nâo há dinheiro, não há palhaço."
Escutas do Núcleo

[um jovem encornado]

Ela deixou-me, pura e simplesmente deixou-me. Fazia-lhe todas as vontades e mesmo assim a vaca de merda chegou lá numa noite e disse "acabou".

[namorados, ou coisa do género]

ELE - Então, como é que foi o dia?
ELA - Igual aos outros. Não sei porque vim. Quero estar em casa há meia-noite [são 23h25m]
ELE (hábil no diálogo)- Não sabes o que queres? Eu acho que tu não preferes ficar em casa fechada e sozinha. Se preferisses, nunca estarias aí toda produzida e bem vestida...
ELA (farta de ser fodida na mesma posição) - Não sei para quem...
ELE (ligeiramente irritado)- Para quem havia de ser? Para mim!

[um bêbado numa tasca em Alfarelos, a ver o jogo suécia-holanda]

"É pá, eu por mim preferia a suécia, esses holandeses são tramados, têm aquele tipo de óculos, o preto [refere-se a Davids]...ainda por cima ainda podemos apanhar os gregos, já fomos quilhados por eles uma vez, ainda somos duas. Ai é, é. Ò Almeida, o comboio já chegou? Vocês ainda hão-de mudar a placa na estação...Granja do Ulmeiro ainda vai aparecer a maiúsculas, como Alfarelos, nem que eu me quilhe todo."

terça-feira, junho 29, 2004

Ainda os espanhóis

O futebol é uma coisa maravilhosa, que move multidões. A paixão por esse desporto é algo que toca de igual forma o ser mais simples e o mais ilustre. Até os imperadores, pessoas escrupulosamente educadas para estar em público perdem a compostura no que toca a matérias do futebol. Poucos terão reparado no gesto que o Rei de Espanha, Juan Carlos, fez ao público português ao abandonar o Estádio Alvalade XXI, após Portugal ter corrido mais uma vez com os castelhanos, desta vez do Euro 2004. Mas os arquivos de media do Núcleo Duro conseguiram recuperar essas imagens. Bem feita, espanhóis. Levaram outra vez na mona. Aljubarrota!!!...

domingo, junho 27, 2004

Epifanias

«Wild is the wind», uma das grandes canções do repertório do David Bowie, logo uma das grandes canções de sempre.

sábado, junho 26, 2004

Maná pontapé no cará... Madonna chute na co...



O endereço de correio electrónico do Núcleo Duro tem sido bombardeado com emails contestando a vergonha que é cancelar um congresso da Madonna no Pavilhão Atlântico por causa de um concerto da Igreja Maná. Outros contestam justamente o contrário - questionam como é possível trocar um tributo a Deus por um espectáculo de uma cantora que mais parece uma meretriz. Este mail que agora reproduzimos defende essa última corrente e foi seleccionado de entre centenas (sem exagero!) de mails de protesto sobre a temática para o Prémio Núcleo Duro A Mente Mais Inútil à Face da Terra.


"Meus senhores

Chegou a hora de tirar os ídolos humanos, de pau e de pedra do pedestal e dar a Jesus o lugar que a Ele somente pertence. O povo português não precisa de Madonna precisa de Deus para abençoar uma nação que tem caminhado de costas para o criador e por consequência tem sido envergonhada em todo o mundo.

Nós pais não queremos que as nossas filhas sejam como a Madonna, por isso o seu exemplo deve ser censurado. Os nossos jovens já têm perversão suficiente para se perderem.

Queremos moralidade e decência para as gerações futuras não sejam como a actual: mentirosa corrupta e gananciosa. Desculpem mas Deus vai sempre estar em 1º lugar em Portugal.

A cabeça do Ricardo vai rolar"


Em jeito de nota final, convém esclarecer que o ND defende o seguinte:

- que a Madonna e seus fãs sejam crucificados dentro da Igreja Maná;
- que os fiéis e pastores desse e de outros franchises religiosos brasileiros sejam obrigados a ouvir todos os discos da cantora enquanto são molestados e mutilados por canibais sodomitas;
- o Pavilhão Atlântico não deve acolher nenhum desses eventos, mas sim um jogo amigável de futsal entre o Bidoeirense e o Freixieiro;
- mais: o Ricardo esteve muito bem contra a Inglaterra. A sua cabeça não deve rolar para já.

quarta-feira, junho 23, 2004

Frases Usadas

Que as opiniões de Kusturica, nas suas entrevistas, sejam ou não aceitáveis, isso não me interessa. O que conta, num grande criador como ele, são os seus filmes, tal como o que interessa num grande romancista como Dostoiewski são os seus romances, mesmo quando descobrimos que ele era um velho russo nacionalista, fanático, anti-semita
André Glucksmann (filósofo)


Não é seguro, não é mesmo seguro, que este país vença o campeonato. Mas é óbvio que o futebol venceu, há muito, este país. (...) O imperador César teria gostado deste povo, no seu Coliseu: prescinde até do pão, desde que lhe dêem circo.
Pedro Rosa Mendes, Visão
[aqui, o Núcleo faz uma ressalva. Citando os nossos estatutos, Pão & Circo são indivisíveis]
Escutas do Núcleo

[um transeunte ao ver passar um táxi com a bandeira nacional. NOTA INTERNA PARA ERNESTO E ZIZOU: VÃO ARREAR O CALHAU]

"Olha, tão patriotas que eles estão. Andam aí o ano todo a tentarem aldrabar os estrangeiros, a levarem-nos pelos percursos mais longos e a cobrarem tarifas ilegais e agora andam todos contentes com a bandeirinha. Farsantes!"

segunda-feira, junho 21, 2004

Notas sobre o Euro III

Eu proponho ainda mais:

- cantar o hino e rezar um pai nosso três vezes por dia
- peregrinações anuais obrigatórias ao estádio da Luz e ao estádio nacional
- proibir a entrada de estrangeiros em Portugal, a menos que adquiram a nacionalidade portuguesa, e expulsar todos os bárbaros que por cá andam
- acabar com todas as importações, porque afinal «o que é nacional é bom»
- instituir o vermelho, o verde e o amarelo como cores oficiais da nação
- abolir do vocabulário usado pelos portugueses todos os termos estrangeiros e todos os estrangeirismos
- decretar multas pesadas a quem não cumprir estas regras
- obrigar todos os novos pais a chamarem Marcelo, Duarte ou Paulo Barbosa aos filhos
- homenagear os 9,9 milhões de portugueses com as mais altas comenda da República, pelos bons serviços prestados à pátria
- fazer declaração de amor à pátria de três em três anos, em repartições públicas criadas para o efeito, com recurso a polígrafos
- taxar todos os portugueses com um dízimo para financiar candidaturas a todos os campeonatos da Europa, do mundo e Olímpicos até 2250
- fazer circular uma petição ou um abaixo-assinado para obrigar a UEFA, a FIFA e restantes instâncias a atribuir vitórias a todas as equipas e atletas portugueses participantes em competições internacionais
- Fazer de Lisboa a capital da União Europeia e o português a língua oficial
Notas sobre o Euro II

O nosso DJ Carcaça, dissidente de grupelhos comunistas internacionalistas, está com verve patrioteira, graças a Deus:

"Defendo que as bandeiras só deveriam ser arreadas no fim da prova."

Que bonito, Carcaça. Eu junto-me a ti e proponho mais. Defendo que as bandeiras nunca mais deveriam ser arreadas e que criemos um novo slogan, devidamente divulgado pelo Professor Marcelo e por D. Duarte.

BANDEIRAS NUNCA MAIS ARREADAS!

Defendo que as preguemos nos beirais, que pintemos as nossas paredes alvas, das nossas alegres casinhas nos nossos esverdeantes campos.

Porque a Pátria não tem tempo nem modo, vamos andar sempre com a camisola das quinas! Para o trabalho, para baptizados e casamentos, para sempre! Vamos carimbar nossos corações de vermelho e verde e cantar o hino ao pequeno almoço. Vamos pintar o CCB de vermelho e a Ponte Vasco da Gama de verde, vamos substituir o Marquês de Pombal pelo Figo e o Terreiro do Paço pelo estádio "Nuno Gomes".

VIVA PORTUGAL! BANDEIRAS NUNCA MAIS ARREADAS! DJ CARCAÇA NUNCA MAIS ARREADO!
Notas sobre o Euro

1-Segundo um jornal inglês, a Académica de Coimbra é o Oxbridge inglês e a sua equipa não é muito melhor que as de Oxford e de Cambridge. Já alguém ouviu falar do Oxbridge?

2-O Guardian refere que para se dizer correctamente o nome da cidade se deve dizer Cwimbra. O reputado jornal diz ainda que a cidade é conhecida como a Oxford de Portugal. Eu, que sou de lá, nunca tal tinha ouvido. Aqui está um bom exemplo de anglo-centrismo.

3-Mas o jornalista do Guardian é bem realista. Depois de visitar Coimbra, ele referiu que é difícil imaginar como é que a pequena cidade poderia lidar com 30 mil fãs ingleses: ?This university city may be accustomed to the behaviour of students, but I wondered if its citizens realised what they have let themselves in for.? Felizmente, conclui ele, o jogo foi contra a ?estóica? Suíça, uma equipa de diminuído risco..

4-Basta fazer uma pesquisa na net pelos jornais de países envolvidos no Euro 2004 (e até outros) para constatar que esta competição trouxe uma previsível vantagem. Mal ou bem, nunca se falou tanto de Portugal como durante estes dias.

5-Os espanhóis costumam tratar-nos com o desdém que se dispensa aos menores.Por isso, há uma rivalidade e a vitória de ontem foi deliciosa. Claro, é apenas um jogo de futebol e eles ganharam jogos bem mais importantes, como os da qualidade de vida e da urbanidade. Não me atreveria a falar em Aljubarrota, como mentes mais alteradas ontem fizeram (Ò professor Marcelo Rebelo de Sousa).

6 - A moda das bandeiras tem gerado críticas. Sousa Tavares relacionou-as mesmo com uma emanação do fascismo. Não accho. Interpreto as bandeiras como uma manifestação do orgulho nacional pela organização de um evento que está a levar o nome de Portugal aos quatro cantos do mundo. Está mal é se as bandeiras estão estritamente ligadas ao resultado desportivo da selecção. Se ontem não tivéssemos ganho (o que poderia muito bem ter acontecido), queria ver se não começavam já a guardar as bandeiras na gavetinha. Defendo que as bandeiras só deveriam ser arreadas no fim da prova.
Francis Black

Os Pixies são um grupo fascinante. Conseguiram criar um estilo próprio, posteriormente emulado por muitas bandas (os Nirvana, por exemplo) e é isso que faz os grandes. Confesso que a maior parte das suas letras (particularmente aquelas abstrusas que falam de ovnis e de mutações) não me dizem nada. O que eu gosto nos Pixies é da música e da forma como Franck Black utiliza a voz (excelentemente coadjuvado por Kim Deal). Comparo-o a um cantor de ópera, capaz de suscitar uma ampla tonalidade de sentimentos. Franck é a estrela de rock mais improvável de todas. Sempre foi gordo e feio (agora parece o Marlon Brando na meia idade), sempre me pareceu uma espécie de anti-herói. É o contrário de pavões como o Lenny Kravitz, que vivem do estilo, e dessas bandas que passam na MTV. Os Pixies reagruparam-se e continuam a encher salas em todo o mundo. Porquê? Ok, Ernesto, podem não ser uns instrumentistas virtuosos. Ok, Isabel, o concerto da semana passada pode ter soado exactamente igual aos discos que ouviste há cerca de 15 anos (também acho que podiam arriscar um pouco mais em concerto). Mas, de qualquer das formas, os discos são muito bons!