terça-feira, agosto 10, 2004
Eras tu a Primavera que tanto esperava
A vida multiplicada e brilhante
onde é puro e perfeito cada instante
Sophia de Mello Breyner
Na essência, não estamos em desacordo. Opinião e factos devem surgir separados e devidamente assinalados. O imperador, já contaminado pelo estilo americano, condescende um bocado mais e acha correctos os "artigos editorializados". Eu prefiro que o jornalista não mande postas de pescada, embora seja lógico que não pode ser apenas "pé de microfone" e tem que interpretar (o que é diferente de opinar). O jornalista deve ser discreto e não pavão, como agora há muitos por aí.
Quanto à objectividade, já estou farto de ouvir gente a dizer que não há objectividade como se descobrisse que a terra é redonda. É claro que não há objectividade! Mas há regras que permitem que o jornalismo seja o mais objectivo e imparcial possível (e há géneros jornalísticos mais subjectivos, como a reportagem, mas mesmo aí há regras). O ouvir o contraditório, o citar (em vez de mandar bitaites)e, muito importante, dar espaço a fontes com opiniões contrárias às que o jornalista pessoalmente defende. Isso é um trabalho limpo, honesto, e todos nós sabemos isso.
Mantenho que disse: sou da "escola francesa" e não gosto muito de jornais que defendem causas políticas. Entre um jornal desses e um que não defenda partidas, prefiro o último. Lendo o primeiro, tenho tendência para me sentir manipulado. Mas, Tibas, se gostas de ler o "Jogo", estás à vontade.
Mas isto é a minha opinião. Como diz o outro, podem haver outras.
Bem hajam.
ps. tiberius - eu não tehno nada contra os bm´s, até gosto. Era só uma imagem alusiva a certos empresários que os conduzem e que estão sempre dispostos a sacrificar o jornalismo em prol do lucro fácil. Outra coisa: ao contrário do que dizes, eu não sou antiglobalização. Pelo contrário, eu sou um apologista da globalização. Não defendo é certas práticas despuduradas das multinacionais, tão bem descritas no livro "No Logto", de Naomi Klein.
Ernest - eu não gosto por aí além do Michael Moore. É um tipo que ficou milionário à custa do seu arqui-rival e é um manipulador. Mas acho importante que, nos dias que correm, haja uma figura como ele. O idiota tem que cair e ele ajuda.
Finalmente uma causa nobre. Um grupo de brasileiros resolveu lançar um abaixo-assinado pedindo ao governo que pare de ocultar o seu conhecimento sobre as "observações cada vez mais constantes de discos voadores nas mais diversas regiões do país e do mundo."
O movimento UFOs, Liberdade de Informação Já afirma: "o Brasil tem riquíssima, profunda e diversificada casuística ufológica, reconhecida até mesmo no exterior. É em nosso Território que os casos mais importantes da Ufologia Mundial ocorreram e foram por nossos ufólogos civis, com muito esforço, investigados". O ND recorda o famoso caso ocorrido na cidade mineira de Varginha.
Em homenagem a esse ilustre grupo de curiosos defensores de tão nobre causa, aqui fica uma das fantásticas letras que Charles Thompson, o maior letrista que conheço, escreveu quando resolveu lançar a sua carreira a solo com o nome de Frank Black, depois de deixar os Pixies:
Parry The Wind High, Low
And if a ship meets your car
You know you can't go real far
Well they could treat you real nice
Or put a tracking device
Way down inside
I'm checking out inventions
at the UFO convention tonight
Planes above the Hilton make it sunny
Brought my money tonight
Blue blond ladies of abduction
strumming guitars of instruction tonight
A lot of wannabe truckers
Making eyes with starfuckers tonight
I've got my hands on some sights
Electric glasses with lights
They got me feeling deluxe
For just a couple of bucks
Way down inside
I'm getting patterns from a trekker
And it sounds like soul records to me
They're waving hi from some gazebo
Waving on to Arecibo to me
I'm getting patterns from a trekker
And it sounds like soul records to me
I'm getting patterns from a trekker
And it sounds like Desmond Dekker to me
Sleep machine
In your silo
Transmarine
Things you've never seen
Parry the wind high, low
Estes nossos ídolos da bola, que aparecem na televisão a fazer campanhas para deficientes ou em defesa da saúde pública, são de uma hipocrisia repugnante. Veja-se este episódio que presenciei ontem.
Ia eu para casa, num final de dia sereno, quando paro num semáforo e vejo ao meu lado, num Mercedes AMG, a falar por telemóvel, Nuno Gomes, o aranhiço com cabelo que (não) joga no Benfica.
O sinal esverdeou e o rapaz avançou, abrindo o vidro eléctrico e olhando para mim. Ainda pensei que me quisesse cumprimentar ("Então Ernesto, como é que vai o blogue?"). Engano. Nuno Gomes abrira o vidro eléctrico para lançar um papel que estava a sujar o interior revestido a mogno do seu popó.
Nesse momento, ocorreu-me apitar ("Oh palhaço, essa merda é para atirar para o chão!"). Mas depois lembrei-me que as estrelas do futebol podem ser muito susceptíveis e violentas (o Sérgio Conceição, dias antes, partira a cara a um gajo que lhe pedira uma cerveja, numa estação de serviço das Antas).
De novo ao seu lado num semáforo mais à frente, optei pela minha temível expressão de repúdio, os olhos semicerrados, abanando ligeiramente a cabeça.
Duvido, no entanto, que o nosso herói nacional se tenha apercebido da reprimenda. Por esta altura, a nuvem de fumo de cigarro dentro do seu bólide era mais cerrada que a cacimba de Sintra.
Feitas as contas a este encontro fortuito na Avenida da República, Nuno Gomes, imagem nacional de correcção e civilidade, em apenas um minuto, cometera nada mais nada menos do que três contra-ordenações: 1-falar pelo telemóvel ao volante, 2-atirar lixo para a via pública, 3-fumar enquanto conduz (ainda não é ilegal mais vai ser).
domingo, agosto 08, 2004
Milhares de leitores do NÚCLEO DURO têm criticado a falta de conteúdo erótico deste blogue, de há algum tempo para cá. Esclarece-se que as razões para esta falha relevam de um aumento da fiscalização por parte das namoradas dos membros do NÚCLEO DURO. Agradecendo desde já a compreensão pelo incómodo, comprometemo-nos a corrigir o desvio editorial, o mais brevemente possível.
a Gerência
sábado, agosto 07, 2004
As autoridades têm conseguido abafar o ambiente de quase guerra civil em que se encontram os Açores, mas o silêncio que paira nos media sobre o assunto é agora quebrado de forma estrondosa pelo Núcleo Duro. A nossa fonte infiltrada no Comando de Ponta Delgada da PSP continua a enviar-nos informações espantosas sobre o estado de sítio em que se encontra o arquipélago. No último relatório secreto da polícia, figurava uma história bem exemplificativa da situação:
"Esquadra da Ribeira Grande
Foi elaborada uma participação por um menor de 14 anos de idade, do sexo masculino, ter furtado do interior de um veículo, por meio de arrombamento uma máquina fotográfica, um par de óculos 2 isqueiros e 2 navalhas tudo avaliado em 138,00 euros."
De notar que entre os objectos furtados encontravam-se duas armas brancas, ou seja, os criminosos até já se estão a atacar mutuamente. É A ANARQUIA TOTAL!!! O ND já apurou que, nos Estados Unidos, a administração Bush já está a ponderar uma acção militar de ocupação das ilhas portuguesas. Michael Moore já se encontra nos Açores para filmar imagens que pretende incluir no seu próximo documentário "Queijo Flamengheit 9/11".
sexta-feira, agosto 06, 2004
pérolas da sabedoria zen
Quando o aluno está pronto
O professor aparece
... na TVI, a fazer comentários lapalicianos e graçolas desnecessárias.
quinta-feira, agosto 05, 2004
Ora gasta um gajo dez minutos da sua vida a expor argumentos numa série de parágrafos todos cuidadosos, dá-se ao trabalho inédito de reler o que escreveu, e depois a resposta que tem a uma prosápia tão filosofada é o Ernesto a dizer:
-a caneca é azul, é azul, e pronto.
Com o Ernesto, as coisas são como são, uma caneca é uma caneca. Não há nuances, não há perspectivas, não há subtilezas. Se eu digo que aquilo é uma caneca, não há mais nada a dizer.
Na mundivisão do Ernesto, a verdade é só uma e é absoluta. Essa certeza messiânica lembra-me de vários gajos que nunca se enganam e raramente têm dúvidas. Aposto que as canecas do Cavaco e do Bush também são azuis.
PS: Oh Ernesto, estares numa fase fundamentalista é lá contigo, mas ao menos põe a tag do bold no título caramba, não custa nada e fica mais bonito.
Uma caneca azul em cima de uma mesa não é sempre uma caneca azul em cima de uma mesa. Uma das primeiras lições que eu tive de jornalismo foi no ciclo, e valeu mais que as outras todas daí por diante.
O professor mostrou à turma um vaso com um manjerico - mas podia ser uma caneca, azul e tudo - e pediu aos putos para a descreverem. E nós descrevemos: é um vaso com um manjerico.
Depois o gajo virou o vaso. No lado que não estava virado para nós havia um autocolante, com uma mensagem qualquer lá escrita. Ou seja, quem estivesse a ver o vaso de frente descrevia uma coisa; quem visse o outro lado, descrevia uma coisa diferente.
A história da objectividade é como o vaso, e a caneca. Depende de onde está o observador. E como o observador não é um robot, a forma como ele vai descrever a caneca tem a ver com os conhecimentos, as inclinações, a ideologia dele.
Imaginem outra caneca azul. Imaginem que tinham uma estatística que dizia que há 100 milhões de pessoas com fome na China.
Descrevendo a caneca de uma maneira, pode-se escrever uma notícia assim: "Há 100 milhões de pessoas com fome na China."
Descrevendo a caneca de outra maneira, pode-se escrever a história assim: "Número de pessoas com fome na China reduziu-se 95 por cento em dez anos."
(Estou a inventar os números, não faço ideia de quantos chineses há com fome ou de quantos havia há dez anos, não interessa para o caso, os chineses estão aqui só a fazer de caneca ? caneca azul, atenção.)
Ambas as histórias seriam verdadeiras. Ambas as canecas seriam azuis. Ambos os observadores seriam honestos e estariam a contar a verdade. Mas, porque a perspectiva variava, uma caneca era mais azul que a outra.
Isto estava a precisar de animação, e cá temos uma bela controvérsia. Infelizmente, o Ernesto bateu-lhe com a sua costela académica, e tentou logo elevar a coisa acima do nível de sarjeta, o que é mau. Vamos lá levar a conversa para o lugar dela.
Primeiro: diz o Ernesto...
Ao contrário do que o Tibas diz
...sem que eu tenha dito tal coisa. Não disse em lado nenhum que achava que a imprensa à maneira antiga é que era bom. Também acho muito bom que a imprensa tenha ultrapassado a fase em que todos os jornais eram militantes e alinhados.
Isso não significa que todos os jornais e todas as televisões tenham de ser uma espécie de castrati sem qualquer perspectiva política.
O Independente há muitos anos, quando começou, era um bom caso português. O jornalismo deles tinha muito que se lhe diga, e não serve de exemplo; mas o jornal, nessa altura, tinha uma inclinação clara - era de uma certa direita anglófila, tinha um conjunto de valores, uma perspectiva.
Nos seus dias bons, O Independente era um jornal com um ponto de vista, mas que batia na mesma nos seus presumíveis aliados políticos. Eu não acho mal que haja jornais com uma ideologia, como era O Independente nessa altura, desde que expliquem claramente ao que vêm e sejam honestos.
A melhor publicação que eu conheço é a Economist. A Economist tem um conjunto de princípios políticos muito claros. É pró-democracia, pró-mercados livres, pró-liberdade intelectual, pró-modernidade. Tem uma ideologia humanista, libertária e liberal (no sentido clássico da palavra).
Isso não impede que a Economist seja excelente, rigorosa e perfeitamente independente. Muitos dos artigos da Economist são editorializados - por exemplo, se eles estiverem a escrever sobre os antiglobalização (olá Carcaça), deixam bem claro que não são a favor dos antiglobalização. Se estiverem a escrever sobre o Robert Mugabe, deixam claro que acham o Mugabe um gangster doidivanas.
Mas isso não quer dizer que a Economist não explique seriamente aos leitores quais são os argumentos dos antiglobalização ou do Mugabe. Conta a história, dá todos os lados do assunto, e eventualmente acrescenta o seu ponto de vista. É honesta e respeita as regras de equidade. Ter uma ideologia explícita não a torna incompetente ou propagandística.
Nem todos os jornais nem todos as televisões devem ser como a Economist, não podem nem devem. Mas não há mal nenhum em que alguns jornais e algumas televisões sejam assim.
Da mesma forma, não tinha mal nenhum que a Fox News tivesse uma perspectiva; que fosse um canal de direita, com um certo número de princípios, com uma ideologia. Era isso que dizia o homenzinho que falava no artigo do pasquim citado pelo Carcaça.
O problema da Fox News é que a coisa não funciona bem: a ideologia contamina todos os aspectos do noticiário deles, a Fox não é isenta, nem honesta, nem responsável. Mas usar a Fox para teorizar sobre os media em geral também não é justo, porque a Fox News é um exemplo ímpar e desvairado de televisão tablóide.
E com isto nem cheguei à caneca do Ernesto, que sendo uma caneca das Caldas deve ser imprópria para menores, e sendo do Ernesto deve ser pequenina. Mas já lá vamos, já lá vamos.
A já amplamente reconhecida vertente de serviço público do Núcleo Duro é alvo de cada vez mais pedidos de ajuda de cidadãos em dificuldades. De todo o país, chegam-nos mensagens de correio electrónico de gajos que chagaram a pensar que estavam fodidos, quando descobrem em nós uma luz ao fundo do túnel, uma oportunidade de fazer ouvir a sua voz. A todos esses amigos, o ND orgulha-se de dizer: VOCÊS TÃO MESMO FODIDOS!!! É que nós aqui só vamos publicar os apelos mais caricatos e engraçados. Tão a pensar que esta merda é o quê? Noticiário da TVI? Aqui fica o primeiro:
"Idosa necessita de ajuda
Venho por esta via comunicar-vos e solicitar-vos ajuda na divulgação de uma situação de uma Senhora Viuva idosa e Obesa moradora na Trafaria que necessita urgentemente de auxilio dado que o seu estado de saude degrada diariamente e cada vez mais se aproxima a possibilidade de imputação dos seus membros inferiores. Para alem da obesidade que a impede de se movimentar, mora no 1ºandar numa casa em risco de ruir a qualquer momento com umas escadas de madeira ameaçadoras as quais esta idosa não se arrisca a tentar subir ou desce-las. A familia de poucas posses já tentou de tudo perto da junta de freguesia, Camara M. Almada, paroquia da vila mas sem qualquer resultado ou resposta. Mais uma vez os nossos representantes governamentais não dão ouvidos a quem realmente necessita de ajuda. Resta solicitar os vossos meios de informação afim de minimamente tentar colocar esta pessoa num local seguro e de facil acesso para a sua locomoção.
Nome da Idosa : Luisa Rodrigues
Morada : (não disponivél) Fica na rua que desce do largo da Igreija para a lota-pesca da Trafaria (casa degradada bastante visivel)"
Caro amigo, o ND aconselha-o a pedir ajuda é ao dicionário de português. "Igreija"? "Disponivél"? Francamente, deviam "imputar" era a mão de quem trata assim a língua portuguesa.
quarta-feira, agosto 04, 2004
Estavas mesmo a pedi-las, oh Carcaça!
Já sabes como o Tiberius é implacável quando começas com esses moorismos. E embora seja penoso dizer isto, o gajo tem razão em quase tudo.
Quase tudo. Porque há uma ou duas coisas com as quais discordo.
Ao contrário do que o Tibas diz, parece-me que uma das principais revoluções da imprensa dos últimos 100 anos foi precisamente ter conseguido libertar-se, em grande medida (não em toda a medida), através das receitas publicitárias, do enorme pendor político dos primeiros jornais. Essa evolução prova, precisamente, que é possível caminhar no sentido de um jornalismo isento, imparcial e apartidário.
Associada a esta ideia está a questão da objectividade, o maior chavão do jornalismo mundial, que tem aliás servido para justificar as maiores patifarias. "É impossível fazer uma notícia puramente objectiva." Ora, não é nada impossível. Ou, pelo menos, nem sempre é impossível: uma caneca azul em cima de uma mesa é uma caneca azul em cima de uma mesa (evitem a piada do daltónico, vá lá...); o Santana Lopes a gaguejar no discurso de tomada de posse é o Santana Lopes a gaguejar no discurso de tomada de posse. Aqui ou na China.
É verdade que as coisas, a maior parte das vezes, são mais complicadas do que isso. Mas também é verdade que o discurso da "subjectividade" tem sido usado de forma despudorada para desagravar a preguiça, a infâmia, a incompetência e a prostituição de boa parte da classe jornalística.
O novo carocha
Estava o Carcaça a falar mal dos BMW, e eu lembrei-me de um outro carro alemão que merece censura: o novo VW carocha. Na Europa, não foi grande sucesso. Na América, pegou.
Mas qual é o mal do carro? Nenhum, mas irrita-me ver a bastardização do carocha. O original era, como diz no nome, o carro do povo. Um carro simples, honesto, resistente.
Era feio, mas não tinha pretensões. Era pequeno, e com orgulho. Não tinha luxos, mas também não era preciso. Uma parte significativa da população ocidental foi concebida nos bancos de trás desses VW. Era o Rolls Royce de uma bela geração de carros utilitários que nos deu outros respeitáveis ícones como os Citroen 2CV e Dyane, o Mini Cooper (e não me falem nos novos Minis - urgh), o Fiat 600 ou a Renault 4.
É o carro do jovem privilegiado por excelência. Nunca vi ninguém a guiar um novo carocha que tivesse mais de 30 anos. Quem tem o novo carocha é um gajo (ou gaja) que o comprou porque acha que ele é giro, que é bonito, que é muito design.
Na maior parte dos casos, quem o comprou na verdade foram os pais dos condutores. Os filhos vão ao volante para comícios anti-globalização. O VW carocha versão anos 90 é um carro de yuppies, e de yuppies geração rasca.
Nunca pus as unhas num dos novos carochas, mas também não quero. Dêem-me antes um BMW topo de gama. Não guiei e não gostei.
Amigo Carcaça, temos de polemizar outra vez. Escreve vocelência que o mais estarrecedor é a reacção ao Outfoxed do comentador da Fox News:
"Dizer que esta estação promove a perspectiva republicana é como dizer que o Papa é católico, isso é evidente. A prática de fazer jornalismo com um ponto de vista é normal nos EUA (...) Esta é uma estação cujos espectadores na sua maioria esmagadora são republicanos. Por isso, a Fox News faz uma programação virada para esses espectadores, Que é que isso tem de especial?"
O homem não está de facto a dizer nada de especial. A ideia de fazer jornalismo com uma perspectiva não é nova, nem original.
A imprensa moderna nasceu nos séculos XVIII/XIX, e nessa altura os jornais tinham todos uma perspectiva política. Estavam ligados a um grupo ou a uma facção qualquer. Mesmo hoje, na América e na Europa, a maior parte dos jornais têm uma inclinação explícita.
O Times de Londres ou o Le Figaro são tradicionalmente conservadores. O Guardian ou o Le Monde estão mais de esquerda. Na tradição anglo-saxónica, os jornais têm páginas editoriais que, quando há eleições, declaram apoio a um candidato ou a outro.
Isso não quer dizer que estes jornais não tenham jornalismo isento e de qualidade. O exemplo ideal é o Wall Street Journal: as páginas editoriais e de comentário estão completamente à direita, de um bushismo selvático. Mas as páginas de noticiário são isentas e rigorosas.
O problema é diferenciar claramente entre o que é notícia e o que é opinião. Não é um problema tão fácil de resolver como parece; um jornalista não é um eunuco, e por muito boa vontade que ele tenha, é impossível fazer uma notícia puramente objectiva.
Por isso é que em Portugal, em que os jornais são teoricamente tão imparciais e objectivos como o Espírito Santo (o da Santa Trindade, não o dos bancos), se diz que tal jornal é mais à esquerda ou mais à direita.
Um exemplo disso é o sítio onde foste buscar a frase - ou eu muito me engano ou foste tirá-la a um artigo publicado num certo pasquim aí da terra, artigo que ainda por cima mete a citação fora do contexto.
Metade da programação da Fox é comentário - talk shows em que cabeças falantes (quase todas de direita) botam faladura. Até aí, tudo bem. O verdadeiro problema que o Outfoxed põe é que mesmo na parte de noticiário eles não são lá muito fair & balanced. Mas isso são outros quinhentos.
Agora, caro Carcaça, argumentares com frases tiradas do tal pasquim de má reputação, e ainda por cima rematares com uma citação do Archie Bunker, isso não fica bem.
E esse ódio MichaelMoorista aos gajos que guiam BMs de topo de gama, isso também não está nada bem. Qual é o mal dos BMs de topo de gama? Eu gosto. Se tiveres um, podes dar-mo que eu não me importo.
P.S: Respeito pelo Carrol O'Connor, que era um actor bestial e já morreu.
terça-feira, agosto 03, 2004
Cinco minutos de Tontônuscabeça
Tontô - Como é que passaste a semana, Nus Cabeça?
Nus Cabeça - Numa introdução adorável.
Tontô - E que pérola descobriste hoje para os nossos ouvintes?
Nus Cabeça - Trago um tema inédito dos Pão & Circo.
Tontô - A sério?
Nus Cabeça - É verdade. Afinal de contas são eles que nos pagam.
Tontô - Eles pagam-te? Olha, ainda ontem aquele tratante de Aveiro me disse que este mês só podia ser uma caixa de ovos moles...
Nus Cabeça - Não vás nessa, o outro queria-me pagar com louça das caldas, mas eu ameacei que não vinha.
Tontô - ....
Nus Cabeça - Não dizes nada?
Tontô - Enquanto não me pagarem sou um túmulo.
Nus Cabeça - Ok, então fiquem com a "Dolores". Faz parte do novo e aguardado álbum dos Pão & Circo, que está em fase de gravação e sucede a "Domingo no Colombo". Consta que eles terão tentado convidar o Peter Selers para cantar este tema, antes de serem informados de que ele já tinha morrido e que o nome se escrevia com dois lês. Teve mesmo que ser o Zizou, que a cantou com uma mola no nariz e vestido de mulher. A mola foi para ajudar a fazer uma voz fanhosa, a roupa de mulher foi, segundo ele, para 'entrar' na personagem. Ora, aqui vai então, dedicada às vossas mulheres:
Humping Dolores
Everybody likes to hump
DO LO RES
Everybody likes to hump
DO LO RES
Zé is in love with is
T V
Zé is in love with is
T V
All day long that?s what he likes to see
All day long that?s what he likes to see
But not even house wifes hooked on
He ro ine
But not even house wifes hooked on
He ro ine
Can understand the mess
He?s in
Not even house wifes hooked on
He ro ine
Can understand the mess
He´s in
Not even house wifes hooked on heroine
Can match Dolores appetite for sin
Foi lançado um documentário chamado Outfoxed, que critica a Fox News (o canal de notícias por cabo mais visto nos EUA) por fazer propaganda pró republicanos a Bush disfarçada de jornalismo.
O que é mais estarrecedor é esta reacção ao documentário, feita por um comentador ligado à estação de Rupert Murdoch:
"Dizer que esta estação promove a perspectiva republicana é como dizer que o Papa é católico, isso é evidente. A prática de fazer jornalismo com um ponto de vista é normal nos EUA (...) Esta é uma estação cujos espectadores na sua maioria esmagadora são republicanos. Por isso, a Fox News faz uma programação virada para esses espectadores, Que é que isso tem de especial?"
Ou seja, assume que o jornalismo não só não deve ser isento, como pode ser condicionado pela cor política das audiências do média. Pensem no que isto seria transposto para a nossa realidade. Qualquer dia teríamos sondagens para determinar em quem vota a maioria dos espectadores de um dado órgão de comunicação. Depois, a sua redacção seria condicionada a fazer uma cobertura mais pró- PSD ou PS, por exemplo... Tratar-se-ia de um jornalismo de interesses, que não teria pejo em censurar histórias inconvenientes.
Não sou ingénuo, mas espero que esta tendência não pegue por aqui. Mas por certo pegará, se eles (os sem escrúpulos, que lutam pela sobrevivência ao volante dos seus BMs topo de gama) acharem que assim dá mais dinheiro. A tendência é haver cada vez menos gente séria no jornalismo e cada vez mais delgados, pelo menos tenho essa impressão. A propósito, aqui fica um pensamento de Carroll O'connor (o Archie Bunker de Tudo em Família) que li ontem:
"Nos países civilizados a imprensa considera-se 'livre'. Pode ser livre de interferências dos governos (embora haja sempre alguma pressão), mas não é livre da vontade dos proprietários. As notícias e editoriais devem ser conservadores, para deixarem os proprietários bem dispostos. E devem ser ficcionados, para excitar os leitores. A grande massa dos leitores não exige exactidão, honestidade, ética ou bom gosto. Os proprietários podem assim dar-lhes aquilo que garante mais vendas e maiores receitas."
segunda-feira, agosto 02, 2004
Acabei de escrever um post tão giro, que andei cá a magicar durante as férias, e perdi tudo. Metia o Homem Aranha, o Cablongue e o Mao. Memo giro, memo inteligente, pá, do melhor que escrevi nos últimos anos.
Agora estou cansado, isto foi um grande golpe, parece que fritei o cérebro. Vou trabalhar.
PS: Meio neurónio chega para falar com um presidente de câmara, não chega?
sábado, julho 31, 2004
Os serviços secretos do Núcleo Duro tiveram acesso a um relatório de ocorrências da Polícia de Segurança Pública - Comando de Ponta Delgada. Entre crimes bizarros contra crianças e bebedeiras ao volante, os Açores cada vez mais se afirmam como o Bronx de Portugal. (O ND é alheio aos erros de ortografia, gramática, etc...)
ASSUNTO: Actividade da PSP de 23 a 26 de Julho de 2004
Detenções e ocorrências
Esquadra de Investigação Criminal
Foi elaborado um auto de notícia, por no dia 23 de Julho de 2004, na companhia de elementos da EMAT (Equipa Multidisciplinar de Apoio ao Tribunal de Família e Menores), se terem deslocado a uma residência, onde verificaram que já se encontrava uma ajudante sócio-famíliar na companhia de quatro menores, de 5, 6, 9 e 11 anos de idade, e que o menor, de 9 anos de idade, se encontrava amarrado pelos tornozelos com uma corrente em ferro, trancado com 2 cadeados, respectivamente, em cada perna, impossibilitando este de se mover com normalidade. O menor, referiu que já se encontrava da forma referida, há dois dias e que era hábito o seu pai ter tal procedimento a fim de evitar que os mesmos fujam para a residência da avô. É de referir ainda, que os pais não se encontravam em casa e que muitas vezes são deixados ao abandono e inclusivamente passavam fome.
Esquadra do Trânsito
Foi detido um homem, de 50 anos, por condução de veículo sob influência de álcool, com uma tas de 1,81 g/l.
Foi detido um homem, de 22 anos, por condução de veículo sob influência de álcool, com uma tas de 1,61 g/l.
Foi detido um homem, de 41 anos, por condução de veículo sob influência de álcool, com uma tas de 1,67 g/l.
Foi detido um homem, de 44 anos, por condução ilegal de veículo.
Foi detido um homem, de 36 anos, por condução ilegal de veículo e sob influência de álcool, com uma tas de 1,44 g/l.
Foi detido um homem, de 26 anos, por condução ilegal de veículo e sob influência de álcool, com uma tas de 1,65 g/l.
Esquadra da Ribeira Grande
Foi detido um homem, de 19 anos, por ter cometido o crime de furto de um telemóvel no valor de 200,00 euros, furto este, feito no interior de uma residência.
Esquadra da Lagoa
Foi detido um homem, de 35 anos, por condução de veículo sob influência de álcool, com uma tas de 2,30 g/l.
Esquadra das Capelas
Foi detido um homem, de 45 anos, por condução de veículo sob influência de álcool, com uma tas de 2,48 g/l.
Esquadra de Rabo de Peixe
Foi denunciada uma mulher, de 38 anos, pelo furto de 600,00 euros em numerário.
Acidentes: (26 no total)
Esquadra de Trânsito - PDL
Cinco acidentes com dois feridos ligeiros.
Esquadra de Santa Maria
Um acidente sem feridos.
Esquadra de Ribeira Grande
Cinco acidentes com três feridos ligeiros.
Esquadra de Capelas
Um acidente sem feridos.
Esquadra de Rabo de Peixe
Cinco acidentes sem feridos.
Esquadra de Povoação
Um acidente sem feridos.
Esquadra de Vila Franca do Campo
Dois acidentes sem feridos.
Esquadra de Lagoa
Seis acidentes com um ferido ligeiro.
quarta-feira, julho 28, 2004
Como seria de esperar, a cobertura televisiva dos incêndios tem sido pródiga em situações idiotas. Os repórteres abrem os telejornais o mais perto das chamas possível, colocando-se a si próprios em risco e depois proclamando, com orgulho encapotado, coisas como esta:
"A equipa da RTP esteve cercada pelo fogo e só com a ajuda de um extintor instalado no carro se evitou o pior"
Como também seria de esperar, a TVI vai ser um pouco mais longe. Aproximava-se o intervalo do Benfica-R Madrid e o comentador já avisava
"Vamos passar em directo para os fogos que assolam o país"
E lá estava o repórter ainda a correr na direcção das chamas da Arrábida, exaltado e a dizer para o operador de câmara filmar. Sentindo o calor das chamas nas suas costas, foi fazendo o directo avançando no sentido da câmara (contrário ao fogo). Pouco ou nada tinha para dizer. Alguém, provavelmente um bombeiro, lhe gritava para sair dali rapidamente. Será que este tipo de situações só acabarão quando algum jornalista se queimar? Muitos desconhecem o poder do fogo e a forma galopante como pode avançar. Não tomam precauções, talvez encorajados pelas suas chefias, ou pelo que a concorrência faz.
Depois temos as "histórias da vida desgraçada". As velhinhas que choram em pânico, a casa que arde, os ataques de histerismo e de choro. Os telejornais, principalmente os da TVI, chamam-lhe um figo e usam e abusam do expediente. As câmaras mostram a emoção à flor da pele, o som e a fúria. Os esclarecimentos e o rigor jornalístico estão, não é novidade, subjugados "ao que vende".
Frases Usadas
"O actual regime político é uma falsa democracia, é uma idiotice pegada, uma farsa onde os eleitos estão bloqueados pelas corporações do rectângulo continental. Essas corporações são, nomeadamente, a dos jornalistas, esses tipos a quem depois da Revolução os governos entregaram as chefias para manipularem a opinião pública e mentirem aos portugueses; a da classe política, que deixou que as outras corporações atingissem o poder; e a dos capitalistas patetas, que pagam aos comunistas e aos socialistas para não chatearem."
Alberto João Jardim, na festa anual do Chão da Lagoa
"O Estado português deve 26 milhões de contos à Madeira"
Alberto João Jardim, Idem
"O pensamento é um ser estranho ao sujeito, heterónimo e essencialmente latente. "
Wittgenstein
"It's amazing what playboy has done for me."
Gatinha
Pastéis de vento
pérolas da sabedoria zen
Um homem muito rico pediu a Sengai que escrevesse algo pela continuidade da prosperidade da sua família, de modo que esta pudesse manter a sua fortuna de geração em geração.
Sengai pegou numa longa folha de papel de arroz e escreveu: "Pai morre, filho morre, neto morre."
O homem rico ficou indignado e ofendido. "Eu pedi-lhe que escrevesse algo pela felicidade da minha família! Porque fizeste uma brincadeira destas?!?""Não pretendi fazer brincadeiras", explicou Sengai tranquilamente. "Se antes da sua morte o seu filho morresse, isso iria magoá-lo imensamente. Se o seu neto se fosse antes do seu filho, tanto você quanto ele ficariam arrasados. Mas se a sua família, de geração a geração, morresse na ordem que eu escrevi, isso seria o mais natural curso da vida. Eu chamo a isso verdadeira riqueza."
Não totalmente convencido, o homem pediu então a Sengai: "Ai, sim? Então, agora escreva aí algo pela sua própria felicidade."
E Sengai escreveu apenas: "Santana Lopes morre."
terça-feira, julho 27, 2004
O mistério da Casa Pia
Miúdo de sete anos, cachecol do Benfica ao pescoço, a pedir explicações ao pai, em pleno Metro de Lisboa
- Ó pai, Casa Pia é um clube?
- Hã? O quê(!!!)?
- Casa Pia é um clube?
- (...) Ah, hehe, sim! Só que anda lá pela terceira divisão.
- Terceira divisão!? Poça, o Sporting é mesmo fraco. Não conseguiu nem ganhar ao Casa Pia.
- É, mas isto são só jogos de preparação. Quando começar o campeonato é que se vê.
- O Benfica também tá em preparação e empatou com o Real Madrid!
domingo, julho 25, 2004
Cinco minutos de Tontônuscabeça
Tontô - Boa tarde, Nus Cabeça. Então o que é que trouxeste para ouvirmos hoje?
Nus Cabeça - Tom Waits.
Tontô - E porquê Tom Waits ?
Nus Cabeça - Porque não gosto de ti.
Tontô - Não sejas tonto, Nus Cabeça. Falemos a sério.
Nus Cabeça - Está bem, a sério. É para dedicar ao padre que foi mentor do primeiro ministro.
Tontô - Algum motivo para a dedicatória?
Nus Cabeça - Põe lá isso, que só temos cinco minutos
Tontô - Muito bem, fiquémos então com "God`s away on business". Até para a semana.
I'd sell your heart to the junkman baby
For a buck, for a buck
If you're looking for someone
to pull you out of that ditch
You're out of luck, you're out of luck
The ship is sinking
The ship is sinking
The ship is sinking
There's leak, there's leak,
in the boiler room
The poor, the lame, the blind
Who are the ones that we kept in charge?
Killers, thieves, and lawyers
God's away, God's away,
God's away on Business. Business.
God's away, God's away,
God's away on Business. Business.
Digging up the dead with
a shovel and a pick
It's a job, it's a job
Bloody moon rising with
a plague and a flood
Join the mob, join the mob
It's all over, it's all over, it's all over
There's a lick, there's a lick,
in the boiler room
The poor, the lame, the blind
Who are the ones that we kept in charge?
Killers, thieves, and lawyers
God's away, God's away, God's away
On Business. Business.
God's away, God's away,
On Business. Business. (Instrumental Break)
Goddamn ther's always such
a big temptation
To be good, To be good
There's always free cheddar
in a mousetrap, baby
It's a deal, it's a deal
God's away, God's away,
God's away On Business.
Business.
God's away, God's away, God's away
On Business. Business.
I narrow my eyes like a coin slot baby,
Let her ring, let her ring
God's away, God's away,
God's away on Business.
Business...........