quarta-feira, fevereiro 09, 2005

Sideburns que fizeram História

Número 8



Selecção da Alemanha Ocidental, campeã do Mundo em 1974

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

É balato e tá a clescel



O comércio chinês em pequenos bazares que vendem de tudo - de panelas e ferramentas a budas e chocolates - está a alastrar nitidamente, mas isso não é novidade. Só há um tipo de negócio actualmente capaz de rivalizar com as pequenas lojas de chinesices em termos de crescimento: os restaurantes chineses, mas isso também não é novidade.

O curioso, e que muita gente pode não ter reparado, é que as novas lojinhas orientais, que vão substituindo outros estabelecimentos menos bem sucedidos, estão carregadas de uma boa dose de humor chauvinista amarelo. Os seus novos proprietários fazem questão de não trocar os letreiros do negócio que funcionou ali anteriormente, como que a mostrar como é que se faz - "Tão a vel? Não ela pol causa do letleilo que não faziam dinheilo!".

Perto do local onde finjo que trabalho, há pelo menos duas lojas de chineses. Uma chama-se "ENGLISH SCHOOL", e a outra, "LIVRARIA CLEPSIDRA".

terça-feira, fevereiro 01, 2005

Sideburns que fizeram História

Número 7



Carlos Menem
Em tempos de aperto, todos os militantes ajudam e, como seria de esperar, o VOSTRADEIS já está a fazer campanha pelo Pêéssedê. E, numa atitude prepotente, utiliza os seus privilégios de administrador do ND para alterar as mensagens dos seus confrades e atirar as culpas para um qualquer vereador brasileiro...muda lá outra vez, ò engraçadinho.

segunda-feira, janeiro 31, 2005

Campanha eleitoral
A arma 'socreta'

As sondagens pré-eleitorais dão todas mais ou menos o mesmo resultado: o PS a ganhar com muitos mais votos que o PSD, mas sem uma percentagem que garanta maioria absoluta. Depois, os partidecos coxos mais atrás, com o Bloco de Esquerda na lanterna-vermelha (onde estão os malucos deste país?). A luta uma vez mais deverá ser entre os grandes, com os socialistas para já em vantagem.

Mas há uma manga escondida na carta que a "laranja santânica" deve estar a guardar para o último momento, que tem a ver com a vida privada do candidato "rosa" e que explica que a tendência política de José Sócrates é mais cromática do que ideológica. Veja-se um artigo publicado recentemente na sempre atenta imprensa do Brasil:



Resta saber se é o PSD que está a aguardar o momento certo para soltar a bomba e conseguir uma reviravolta nas urnas, ou se é o próprio PS que irá usar essa arma secreta para, aproveitando o "efeito Castelo Branco", alcançar a maioria absoluta.

domingo, janeiro 30, 2005

Frases Usadas

"O Jazz é, para mim, uma expressão de ideais elevados. A fraternidade está lá. E eu acredito que havendo fraternidade não haverá mais pobreza. Com fraternidade não haverá guerra."
John Coltrane, numa entrevista em 1966

sábado, janeiro 29, 2005

Abertas candidaturas ao Concurso Mundial das Mentiras

Iniciamos hoje um processo de selecção das melhores mentiras de Portugal. A mentira vencedora irá candidatar-se ao Campeonato do Mundo das Mentiras, nos EUA (isto é verdade), representando a blogosfera portuguesa.

A frase que ganhou a última edição era a seguinte: "Choveu tanto este Verão que o lago em frente a minha casa ficou cheio de poças" (isto também é verdade).

A minha primeira proposta é a seguinte:

"Ontem de madrugada fui tirar o BI, só que pus tanto creme hidratante nas mãos antes de sair de casa, que as minhas impressões digitais não ficaram marcadas."

AHAHAAHAHAHAHAH

sexta-feira, janeiro 28, 2005

Pronunciamento do Núcleo sobre o momento político, económico e social da Nação

Bla bla bla Santana Lopes bla bla bla Sócrates yada yada yada desemprego ti ri ri ti ri ri progresso bla bla bla os portugueses ta ta ta ta paz mundial bla bla bla rigor e serenidade yada yada yada novos mundos ao mundo. Tenho dito.
Escutas do Núcleo
Esquizofrenia laboral



Duas quarentonas loiras oxigenadas num restaurante chinês em São Sebastião (Lisboa):
- Não tem sido nada fácil. Há ali muitos ódios dentro naquela empresa.
- Ai sim?
- Sim. Mas claro, apenas ódios profissionais, nada de pessoal...

Comentário do ND: Ora aí está um novo fenómeno da vida urbana moderna - a completa dissociação entre a vida pessoal e a profissional. Uma espécie de esquizofrenia funcional consciente, em que os indivíduos se tornam personagens completamente distintas consoante estão a trabalhar ou não. Será relativamente comum nos dias que correm ouvir frases do género: "Fulano usou de jogo sujo para impedir a minha promoção, mas somos grandes amigos, desde a infância" ou "Aquele filho da puta andou a manchar o meu nome dentro da empresa, mas até é um gajo porreiro. Fazemos grandes jantaradas lá em casa".

quinta-feira, janeiro 27, 2005

Marxismo

Li há pouco tempo a correspondência do António José Saraiva e do Óscar Lopes. Brutal. Para além das dezenas de cartas fastidiosas em que os dois marretas discutem correcções à História da Literatura, de que são autores, desenrola-se um debate interminável sobre o marxismo, com Lopes mostrando-se um estalinista irredutível e Saraiva revelando uma evolução que, caso fosse vivo, o enquadraria no PS ou no PSD (passe a redundância).

A reflexão tem em torno do comunismo tem a virtude de demonstrar que o marxismo acabou porque era uma teoria parva e, mais importante do que tudo, porque nunca ninguém percebeu bem o que significava. A experiência epistolar de Lopes e Saraiva deixa assim claro que a minha confusão liceal em torno do conceito de "super-estrutura" representou, afinal, um grande sinal de lucidez e perspicácia. Viveu um gajo anos nesta angústia...

DJ Carcaça

Caro DJ, as pessoas que que te acusam de vagabundagem e indigência não percebem que nasceste para nos entreter. Hilariante.
Sideburns que fizeram História

Número 6



Vítor Baía
Comunicado: O estado da Briosa

A académica perdeu ontem com o Marítimo para a Taça de Portugal, numa altura em que os seus mais indefectíveis adeptos começavam a sonhar com uma repetição da gloriosa primeira edição do troféu. Foi em 1939, quando calámos os miseráveis da Arregaça e vencemos arrebatadoramente a taça. Agora os tempos são outros, tempos de lanterna vermelha. O repórter dizia ontem que "o problema da académica é o excesso de criatividade do meio campo, que não é compensado pelos outros sectores. A meu ver, é uma explicação plausível. De qualquer das formas, venho por este meio esclarecer que nunca fiz promessas infundadas. No início da época eu disse para os meus camaradas de bancada (mais propriamente, de sofá), como digo todos os anos, que desta vez iríamos à Europa. Ora, nós já estamos na Europa. Todos os dias quando saio de casa eu estou a ir à Europa. É ou não verdade? Seguindo este raciocínio, mesmo que, como é provável, desçamos de divisão, vamos à Europa. E cumprimos os nossos objectivos mínimos. Quanto a ganhar o campeonato, isso já é outra história. Eu nunca disse que ganharíamos o campeonato. Eu disse: "Meus amigos, este ano vamos à Europa." O que é uma coisa totalmente diversa. Para mais, infligimos um glorioso empate ao FCP e sabe-se lá que mais... ainda há muita bola por rolar. SEMPRE DURO! SEMPRE NÚCLEO! BRIOSA OLÉ OLÉ! SEMPRE SEMPRE!

segunda-feira, janeiro 24, 2005

Sideburns que fizeram História

Número 5



Manuel João Vieira
MCO TV



No Metro de Lisboa, começaram há uns meses a aparecer uns ecrãs de televisão em que eram transmitidas notícias e publicidade, num canal exclusivo, chamado MCO TV. Sem que ninguém ficasse muito admirado, passado pouco tempo, os aparelhos ficaram esquecidos, desligados e obsoletos.

Agora voltaram em grande, com informação rigorosa e bem editada. Esta manhã, tive a oportunidade de assistir a um flash noticioso que tinha o original nome de NOTICÍAS - é bem sacado o título, com o acento no i errado para dar a ideia de grande rapidez na cobertura dos acontecimentos.

Infelizmente, o mesmo já não se pode dizer do próprio Metro. Os comboios às vezes passam com intervalos de 10 minutos! Tinha mais sentido passarem a transmitir ali os noticiários da RTP. Esta manhã, na RTP2, vi um noticiário desportivo em que deram a antevisão do Leiria-FC Porto e do Gil Vicente-Sporting, jogos que aconteceram ontem à noite!

domingo, janeiro 23, 2005

Sideburns que fizeram História

Número 4



George Best

sábado, janeiro 22, 2005

Faz com que chova, porra!

E que tal este blues delicioso do último álbum do Tom Waits? O homem está a pedir que chova, coisa de que bem precisamos em Portugal.

Make It Rain

She took all my money
and my best friend
You know the story
Here it comes again

I have no pride
I have no shame
You gotta make it rain
Make it rain!

Since you're gone
deep inside it hurts
I'm just another sad guest
on this dark earth

I want to believe
in the mercy of the world again
Make it rain, make it rain!

The nite's too quiet
Stretched out alone
I need the whip of thunder
and the wind's dark moan

I'm not Able, I'm just Cain
Open up the heavens
Make it rain!

I'm close to heaven
Crushed at the gate
They sharpen their knives
on my mistakes


What she done, you can't give it a name
You gotta make it rain
Make it rain, yeah!

Without her love
Withour your kiss
Hell can't burn me
more than this
I'm burning up all this pain
Put out the fire
Make it rain!

I'm born to trouble
I'm born to fate
Inside a promise
I can't escape
It's the same old world
But nothing looks the same

Make it rain!
Make it rain!

Got to make it rain
Make it rain
You got to make it rain
Got to make it rain
You got to...

I stand alone here!
I stand alone here!
Sing it:
Make it rain!
Make it rain!

sexta-feira, janeiro 21, 2005

Sideburns que fizeram História

Número 3



Martin Van Buren

quinta-feira, janeiro 20, 2005

Crítica de campanha



Não sei se já repararam, mas o país começou a encher-se de cartazes de publicidade para as próximas eleições antecipadas e nunca a qualidade dos lemas de campanha foi tão baixa, para não falar na composição artística. Não sei qual deles o pior.

O do CDS/PP tem a palavra VOTO, a cabeça do Paulo Portas e a palavra ÚTIL, por esta ordem. Reparem bem se não dá a ideia que a cabeça do ministro da Defesa está a tapar alguma coisa. Provavelmente, um I e um N...

O do PSD também está lindo, com aquela chipala de enjoado do Santana, e as frases: "Contra ventos e marés." e "A favor de Portugal." Até acredito que os génios do marketing que tiveram essa ideia tenham tido a leve impressão de que quem passasse de carro pelo outdoor poderia reter a mensagem de forma distorcida - "Contra ventos e marés a favor de Portugal" - mas em vez de pensarem numa ideia melhor, acharam que bastava meter um ponto final no final de cada frase para as distinguir bem. Mas não resulta. Do pior!

No do PS, tirando a cara de bobo alegre do Sócrates - parece estar ansioso por assumir alguma coisa, como o seu relacionamento com o actor Diogo Infante, ou algo assim -, nada a apontar. Nada, excepto que a frase "Agora Portugal vai ter um rumo" é demagogia pura. Portugal já tem um rumo há muito tempo. Está a ir para o abismo.

Nos dos outros partidóides ainda não reparei, mas assim que os vir, acrescentarei.

quarta-feira, janeiro 19, 2005

Sideburns que fizeram História

Número 2



Elvis Presley
Veia poética

Já que estamos com veia poética, regressemos à poesia de parede. Tal como Vostra notou com o seu olhar clínico (no seu mítico espaço "as paredes têm bocas", que entretanto parece ter abandonado para apostar nas patilhas), Coimbra é mesmo capaz de ser a capital portuguesa da poesia de parede. Não admira: é também a capital dos intelectualóides e a capital da saúde e a capital da cultura 2003 e a capital do baixo Mondego e a capital da edução e a capital dos doutores por metro quadrado e a capital das terceiras cidades da europa. No aspecto da poesia de parede, a rua Padre António Vieira está muito bem municiada. Logo junto à sede da AAC, pintadas a letras verdes este três mensagens de grande análise política (Tiberius, não fui eu que as inscrevi, a minha caligrafia é muito má? mas subscrevo):

Quanto mais ignorantes
Melhor é para os governantes

É urgente destruir a ignorância

Os ricos que paguem a crise


Mais à frente, a letras escarlates e garrafais, esta informação de interesse geral

AMO-TE TÂNIA

um pouco mais acima no sentido da universidade, um apelo assinado pelo PCTP-MRPP. Aposto que não saiu da cabeça do grande líder Garcia Pereira, mas não deixa de ser sofisticada adaptação do comunismo à sociedade do consumo de Jean Braudillard

Adere ao comunismo!

Já junto à Faculdade de Medicina, alguém ? provavelmente um frequentador dos meandros universitários - decidiu colocar esta questão à população estudantil

Há vida inteligente na universidade?

terça-feira, janeiro 18, 2005

Sideburns que fizeram História

Número 1



Emerson Fittipaldi
Tabacaria

Preocupas-me Tiberius... Estás bem? Queres um cigarrinho? Queres desabafar com o Núcleo sobre as tuas "filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu" ou os teus sonhos maiores do que os do Napoleão? Estás à vontade. Os amigos são para isso mesmo.

Entretanto, não te aproximes de pistolas, nem de facas ou comprimidos, nem da Ponte 25 de Abril.

segunda-feira, janeiro 17, 2005

A metafísica é uma consequência de estar mal disposto

Eu que não gosto de poesia, que não consigo ler nem compreendo poesia, que me aborreço de morte só de pensar em ler um livro de poesia, gosto do Álvaro de Campos. Não só gosto do Álvaro de Campos, como acho a Tabacaria (de que fiz copy paste doutro site porque sim) algo de transcendental.

Presumindo (presumam lá comigo, vá lá) que esta é a coisa mais genial que alguma vez se escreveu em português, desconfio que isso diz algo de muito triste sobre a alma da raça.




Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantámo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu.
Respeitinho pela emigração!


Oh Ernesto, se não fosse o emigrante da mercearia manhosa a enviar as suas remessas, não havia dinheiro que chegasse para alimentar os teus vícios pequeno-burgueses de nativista serôdio. Respeitinho pela emigração, que o emigrante é o repositório das virtudes da nação!

PS 1: Oh Vostra, olha que essas sideburns ficavam bem ao Damon Hill, mas era há dez anos. Agora já não é aceitável.

PS 2: Carcaça, no actual clima social, meter um poema sobre crianças por cima de um louvor à pornografia deve ser meio caminho andado para ires parar à Judiciária.