Compulsivamente
No fim de semana estive a lavar o carro. É um acto religioso para muitos. Para mim, é apenas uma tarefa mecânica e estúpida. Apetrecho-me de de sprays e sparayzinhos como nomes alemães, retiro o lixo acumulado de quatro semanas de dentro do carro e coloco-me na fila da auto-lavagem. Ali, naqueles longos minutos de espera, leio o Record e oiço o Carlos Magno enquanto, um a um, os companheiros de jornada lavam, polem e limpam os seus veículos. Depois, quando chega a minha vez, gasto dois euros em água limpadora, abrilhantadora e enxaguadora e tento limitar os danos causados por moscas e lama agarrada à fibra de vidro. Numa ou noutra ocasião, percebo que existe um risco e grito por dentro como uma criança enquanto tento disfarçar a cicatriz do golpe.
Após este acto cerimonial, retiro os tapetes e lavo-os numa maquineta velha enquanto aguardo pelo sacrossanto aspirador das impurezas. Então, armado com spray contra nódoas e uma escova dos dentes velha luto contra manchas, restos de iogurte e de chocolate espalhados pelos estofos. Nesses lentos e pesados minutos, desespero por um grão de lama agarrado ao rebordo da borracha e vocifero contra o resto de sumo que manchou o tapete.
No final, satisfeito como Hércules perante um dos trabalhos que teve de sofrer, vou beber um café e uma água com um sorriso nos lábios de triunfo. Sigo para casa, recolho a mulher e o miúdo para ir comer fora com o ar e o peito satisfeito do trabalho cumprido. Com o carro estacionado à beira da entrada da casa, ajudo o miúdo a subir. Cai-lhe a bolacha com manteiga que levava sobre o banco enquanto tenta empoleirar-se na cadeira. Antes que eu me aperceba, pisa-a no momento de saltar para o banco e fico siderado de terror.
Em choque, encosto-me à porta do carro enquanto a mulher arruma as coisas na bagageira. Antes de conseguir balbuciar palavra, passa um carro por uma poça de água e asperge com lama os vidros que eu lavei com tanto custo.
Não me ocorre mais nada que não chorar.
Compulsivamente.
terça-feira, junho 10, 2003
segunda-feira, junho 09, 2003
Dúvida retórica
Alguém sabe explicar porque é que o engenheiro Sócrates fala sobre trivialidades como se estivesse na Câmara dos Comuns? Parece os jogadores da bola quando querem falar bem e fazem aquela entoação enlutada para dizer que "o grupo está unido e a trabalhar todos os dias". Que parvoíce...
Alguém sabe explicar porque é que o engenheiro Sócrates fala sobre trivialidades como se estivesse na Câmara dos Comuns? Parece os jogadores da bola quando querem falar bem e fazem aquela entoação enlutada para dizer que "o grupo está unido e a trabalhar todos os dias". Que parvoíce...
Os Donos do Garfo
Nome: Pirilampo
Designação: restaurantezinho familiar
Localização: Lisboa, transversal à Av. da Igreja, Alvalade
Página na Internet: não
Preço médio: 10 euros
Classificação: 7 (de 0 a 10)
É cada vez mais difícil comer fora em Lisboa sem gastar muito dinheiro. A restauração percebeu que não vale a pena apostar num preçário barato porque o consumidor acredita que o preço é indício de estatuto e qualidade. Acontece que nem sempre podemos comer o bacalhau do Pap'Açorda, as massas do Mezzaluna, nem queremos a companhia do engenheiro Sócrates ao lado. Naqueles dias de trabalho tardio, basta um sítio com mesa livre, limpo, de cozinha correcta, ambiente educado, onde apertamos o bacalhau ao proprietário. O Pirilampo é um desses sítios raros que, não sendo caros, não são uma merda, e onde até podemos ser surpreendidos com petiscos de época, como o savel com açorda de ovas que há dias lá devorei.
A mulher do Sr. Costa é quem trata da poda, pratos portugueses, honestos: a cabidela leva o sangue do galináceo e não tinto carrascão; o arroz de peixe tem garoupa fresca e camarão digno do nome (o caldo revela - controversa - consistência à base de composto farináceo apesar do dono negar revelar o segredo) ; o porco preto é mesmo porco preto (a sete euros e meio a dose!); as iscas não são estragadas pela batata cozida farinhenta e semi-desfeita que, infelizmente, se tornou habitual mesmo nas melhores casas, e têm vinho branco e louro em quantidade sensata. A garrafeira é limitada mas oferece o que interessa para a ocasião: garrafas em conta que não façam doer a cabeça, do tipo Casa de Santar ou Muralhas. A visitar. Mas um de cada vez!
Nome: Pirilampo
Designação: restaurantezinho familiar
Localização: Lisboa, transversal à Av. da Igreja, Alvalade
Página na Internet: não
Preço médio: 10 euros
Classificação: 7 (de 0 a 10)
É cada vez mais difícil comer fora em Lisboa sem gastar muito dinheiro. A restauração percebeu que não vale a pena apostar num preçário barato porque o consumidor acredita que o preço é indício de estatuto e qualidade. Acontece que nem sempre podemos comer o bacalhau do Pap'Açorda, as massas do Mezzaluna, nem queremos a companhia do engenheiro Sócrates ao lado. Naqueles dias de trabalho tardio, basta um sítio com mesa livre, limpo, de cozinha correcta, ambiente educado, onde apertamos o bacalhau ao proprietário. O Pirilampo é um desses sítios raros que, não sendo caros, não são uma merda, e onde até podemos ser surpreendidos com petiscos de época, como o savel com açorda de ovas que há dias lá devorei.
A mulher do Sr. Costa é quem trata da poda, pratos portugueses, honestos: a cabidela leva o sangue do galináceo e não tinto carrascão; o arroz de peixe tem garoupa fresca e camarão digno do nome (o caldo revela - controversa - consistência à base de composto farináceo apesar do dono negar revelar o segredo) ; o porco preto é mesmo porco preto (a sete euros e meio a dose!); as iscas não são estragadas pela batata cozida farinhenta e semi-desfeita que, infelizmente, se tornou habitual mesmo nas melhores casas, e têm vinho branco e louro em quantidade sensata. A garrafeira é limitada mas oferece o que interessa para a ocasião: garrafas em conta que não façam doer a cabeça, do tipo Casa de Santar ou Muralhas. A visitar. Mas um de cada vez!
Porque é que não o atropelei???
Aqui há uns tempos, atravessou-se-me no caminho, no Bairro Alto, um indivíduo grunhindo e saltando, qual macacóide. O rapaz estava aparentemente alcoolizado, fazendo figura de liceal besano, e pôs-se à frente do meu carro, parado, armado em pateta.
Infelizmente, quando o meu co-piloto me chamou a atenção para o facto de se tratar de um daqueles pseudo-pós-modernos que enchem programas do tipo Curto-Circuito, já o jovem se encontrava em segurança.
- Era o Rui Pedro Tendinha, aquele gajo que aparece na Sic Radical de barba rala armado em jogador de futebol italiano -, disse o César .
- Qual? Aquele que mexe muito as mãos, que diz muitas vezes "fabuloso"?
- Esse.
- Foda-se!
Rui Pedro Tendinha pode dar graças a Deus por o Largo do Camões estar mal iluminado. Há muito que anseio por esbofetear um dos elementos desta espécie, onde cabem, entre outros, o Alvim (adolescente fora de tempo, armado em charrado), ou o outro careca que pões música de merda no programa da tarde do canal irreverente. Reconheço que parte deste ódio é irracional, entra no domínio da chamada embirração. Mas há também razões objectivas para os odiar: todos querem ser como o Miguel Esteves Cardoso, versão Noites da Má Língua, mas não são, todos pensam que falam num código inteligente e não falam. Todos são vazios para além da pose.
Aqui há uns tempos, atravessou-se-me no caminho, no Bairro Alto, um indivíduo grunhindo e saltando, qual macacóide. O rapaz estava aparentemente alcoolizado, fazendo figura de liceal besano, e pôs-se à frente do meu carro, parado, armado em pateta.
Infelizmente, quando o meu co-piloto me chamou a atenção para o facto de se tratar de um daqueles pseudo-pós-modernos que enchem programas do tipo Curto-Circuito, já o jovem se encontrava em segurança.
- Era o Rui Pedro Tendinha, aquele gajo que aparece na Sic Radical de barba rala armado em jogador de futebol italiano -, disse o César .
- Qual? Aquele que mexe muito as mãos, que diz muitas vezes "fabuloso"?
- Esse.
- Foda-se!
Rui Pedro Tendinha pode dar graças a Deus por o Largo do Camões estar mal iluminado. Há muito que anseio por esbofetear um dos elementos desta espécie, onde cabem, entre outros, o Alvim (adolescente fora de tempo, armado em charrado), ou o outro careca que pões música de merda no programa da tarde do canal irreverente. Reconheço que parte deste ódio é irracional, entra no domínio da chamada embirração. Mas há também razões objectivas para os odiar: todos querem ser como o Miguel Esteves Cardoso, versão Noites da Má Língua, mas não são, todos pensam que falam num código inteligente e não falam. Todos são vazios para além da pose.
sábado, junho 07, 2003
O infame aborrecimento
A direita freak e a esquerda freak andam à chapada que nem miúdos a brincar à política, a ver quem é mais freak. Os Donos da Bloga esperam que a coisa se materialize numas bengaladas no Chiado e aguarda pela convocatória.
A direita freak e a esquerda freak andam à chapada que nem miúdos a brincar à política, a ver quem é mais freak. Os Donos da Bloga esperam que a coisa se materialize numas bengaladas no Chiado e aguarda pela convocatória.
Crónicas daquilo que não gosto
Pseudos
Claramente não suporto os pseudos. Portugal é um país de pseudos, se calhar é até um pseudo-país. Uma corja de convencidos e de anafados sentados num baloiço à espera que o mundo lhe preste vassalagem, agradecendo-lhes por terem descoberto mei-mundo (não existe esta palavra mas é gira) para depois serem errabados alegremente, com pimenta e açafrão no cu que é para sentirem melhor. Quando penso nisso, sorrio com prazer e recordo-me do João da Ega (atenção, esta citação sucede apenas porque diz respeito aos Maias, um livro que fui obrigado a ler no secundário. Não pretendo com isto arrogar-me de um pretenciosismo bacoco semelhante aos blogues tugas). Esta choldra não mudou e todos lutam por cinco minutos de sucesso na voragem dos dias. Como se ser um cromo conhecido em Portugal fosse difícil, num país tão pequeno como um T0 sem kitchnette. Na América, na China, no Brasil (vejam o caso do Deco que teve de sair de lá para ter sucesso) ou na Índia. Aí sim, ter sucesso é ter realmente sucesso. Aqui é apenas dar um espirro mais forte e o ranho colar-se à sola dos sapatos de alguém que vai queixar-se ao Vidas Reais.
Até o emplastro teve os seus cinco minutos de fama (justos, diga-se) e foi um case study como havia sido, no passado, o Tino de Rans. Se abóboras loiras como a Teresinha ou cogumelos saltitantes como o Baião são estrelas tudo é permitido.
E os pseudos pululam como adenovírus em toda a parte. Parecem larvas a descobrir que algumas borboletas já foram como elas. E assaltam a pirâmide do poder antes de saberem se têm asas para voar.
São as Pinto Correia, os La Ferias, as Motas Ribeiro, Claudisabeis, Tois, Sarmentos, Mouras Guedes, os PM, MEC, MST, PSL, PP (acho piada aos gajos que se identificam por siglas. É o minimalismo levado ao extremo em contraposição ao ego ferido de tanto ser coçado). Tudo gente que parece mais do que realmente é. Como se fosse esse o desporto-rei português.
Fazendo bem as contas, Portugal terá meia-dúzia de gajos bons em meia-dúzia de áreas. Se fôssemos tão bons como nos julgamos, o JPP era o líder do PPE, o Carlos Lisboa tinha jogado na NBA e o Damásio (o António não o Manuel) já havia ganho o Nobel da Medicina. O Saramago só ganhou o da Literatura porque escreve frases graaaaaaaaaandes como os franceses, com pontuação cirílica e está a viver em Espanha. Caso contrário, não passaria de um miúdo de chupa-chupa na boca na fila de espera para sentar-se ao colo de alguns dos verdadeiros bons escritores e pedir um autógrafo.
Na realidade, não passamos de uns parolos a lambermos o cu de uns na esperança de também sermos lambidos em retribuição.
Porque raio é que o Miguel de Vasconcelos caiu da varanda em 1640? Éramos todos mais felizes e com uma selecção de futebol para fazer inveja.
Pseudos
Claramente não suporto os pseudos. Portugal é um país de pseudos, se calhar é até um pseudo-país. Uma corja de convencidos e de anafados sentados num baloiço à espera que o mundo lhe preste vassalagem, agradecendo-lhes por terem descoberto mei-mundo (não existe esta palavra mas é gira) para depois serem errabados alegremente, com pimenta e açafrão no cu que é para sentirem melhor. Quando penso nisso, sorrio com prazer e recordo-me do João da Ega (atenção, esta citação sucede apenas porque diz respeito aos Maias, um livro que fui obrigado a ler no secundário. Não pretendo com isto arrogar-me de um pretenciosismo bacoco semelhante aos blogues tugas). Esta choldra não mudou e todos lutam por cinco minutos de sucesso na voragem dos dias. Como se ser um cromo conhecido em Portugal fosse difícil, num país tão pequeno como um T0 sem kitchnette. Na América, na China, no Brasil (vejam o caso do Deco que teve de sair de lá para ter sucesso) ou na Índia. Aí sim, ter sucesso é ter realmente sucesso. Aqui é apenas dar um espirro mais forte e o ranho colar-se à sola dos sapatos de alguém que vai queixar-se ao Vidas Reais.
Até o emplastro teve os seus cinco minutos de fama (justos, diga-se) e foi um case study como havia sido, no passado, o Tino de Rans. Se abóboras loiras como a Teresinha ou cogumelos saltitantes como o Baião são estrelas tudo é permitido.
E os pseudos pululam como adenovírus em toda a parte. Parecem larvas a descobrir que algumas borboletas já foram como elas. E assaltam a pirâmide do poder antes de saberem se têm asas para voar.
São as Pinto Correia, os La Ferias, as Motas Ribeiro, Claudisabeis, Tois, Sarmentos, Mouras Guedes, os PM, MEC, MST, PSL, PP (acho piada aos gajos que se identificam por siglas. É o minimalismo levado ao extremo em contraposição ao ego ferido de tanto ser coçado). Tudo gente que parece mais do que realmente é. Como se fosse esse o desporto-rei português.
Fazendo bem as contas, Portugal terá meia-dúzia de gajos bons em meia-dúzia de áreas. Se fôssemos tão bons como nos julgamos, o JPP era o líder do PPE, o Carlos Lisboa tinha jogado na NBA e o Damásio (o António não o Manuel) já havia ganho o Nobel da Medicina. O Saramago só ganhou o da Literatura porque escreve frases graaaaaaaaaandes como os franceses, com pontuação cirílica e está a viver em Espanha. Caso contrário, não passaria de um miúdo de chupa-chupa na boca na fila de espera para sentar-se ao colo de alguns dos verdadeiros bons escritores e pedir um autógrafo.
Na realidade, não passamos de uns parolos a lambermos o cu de uns na esperança de também sermos lambidos em retribuição.
Porque raio é que o Miguel de Vasconcelos caiu da varanda em 1640? Éramos todos mais felizes e com uma selecção de futebol para fazer inveja.
sexta-feira, junho 06, 2003
Da Direita Freak
Não gosto da direita freak porque a direita freak fala demais da direita freak. Não gosto da direita freak porque não gosto da esquerda freak (BE). Não gosto da direita freak porque se julga bonita e rara. Não gosto da direita freak porque proíbe as drogas mas consome-as, porque critica o casamento homossexual mas é homossexual, porque renega a pedofilia, mas pedofila. Não gosto da direita freak porque se julga aurata do rigor cultural, da poesia certinha, da prosa antiga. Não gosto da direita freak porque se envergonha das raízes políticas. Não gosto da direita freak porque se julga politicamente incorrecta. Não gosto da direita freak porque acha que gostar-se de cinema americano é ser-se politicamente incorrecto. Não gosto da direita freak porque gosta de mau cinema americano. Não gosto da direita freak porque se arma em gourmet mas não sabe comer. Não gosto da direita freak porque a direita freak é oportunista. Não gosto da direita freak porque a direita freak deslumbra-se consigo própria. Não gosto da direita freak porque pensa que sabe escrever com estilo. Não gosto da direita freak porque leva a política demasiado a sério. Não gosto da direita freak porque se leva demasiado a sério. Não gosto da direita freak porque a direita freak não age nem leva nada até ao fim. Não gosto da direita freak porque entende que a esquerda é superficial. Não gosto da direita freak porque a direita freak entende que a direita freak é substancial. Não gosto da direita freak porque julga que ser-se pro-americano é "cool". Não gosto da direita freak porque a direita freak não é "cool". Não gosto da direita freak porque é maneirista nos gestos. Não gosto da direita freak porque a direita freak se julga engraçada. Não gosto da direita freak porque se julga pós-moderna. Não gosto da direita freak porque se julga urbana. Não gosto do direita freak porque acha a ecologia provinciana e esquerdalha. Não gosto da direita freak porque a direita freak é uma ressurreição fora de tempo do Independente.
Não gosto da direita freak porque a direita freak fala demais da direita freak. Não gosto da direita freak porque não gosto da esquerda freak (BE). Não gosto da direita freak porque se julga bonita e rara. Não gosto da direita freak porque proíbe as drogas mas consome-as, porque critica o casamento homossexual mas é homossexual, porque renega a pedofilia, mas pedofila. Não gosto da direita freak porque se julga aurata do rigor cultural, da poesia certinha, da prosa antiga. Não gosto da direita freak porque se envergonha das raízes políticas. Não gosto da direita freak porque se julga politicamente incorrecta. Não gosto da direita freak porque acha que gostar-se de cinema americano é ser-se politicamente incorrecto. Não gosto da direita freak porque gosta de mau cinema americano. Não gosto da direita freak porque se arma em gourmet mas não sabe comer. Não gosto da direita freak porque a direita freak é oportunista. Não gosto da direita freak porque a direita freak deslumbra-se consigo própria. Não gosto da direita freak porque pensa que sabe escrever com estilo. Não gosto da direita freak porque leva a política demasiado a sério. Não gosto da direita freak porque se leva demasiado a sério. Não gosto da direita freak porque a direita freak não age nem leva nada até ao fim. Não gosto da direita freak porque entende que a esquerda é superficial. Não gosto da direita freak porque a direita freak entende que a direita freak é substancial. Não gosto da direita freak porque julga que ser-se pro-americano é "cool". Não gosto da direita freak porque a direita freak não é "cool". Não gosto da direita freak porque é maneirista nos gestos. Não gosto da direita freak porque a direita freak se julga engraçada. Não gosto da direita freak porque se julga pós-moderna. Não gosto da direita freak porque se julga urbana. Não gosto do direita freak porque acha a ecologia provinciana e esquerdalha. Não gosto da direita freak porque a direita freak é uma ressurreição fora de tempo do Independente.
Crónicas daquilo que eu não gosto
Lisboa
Estou farto de Lisboa, dos lisboetas, dos lisboinhas e de tudo quanto reuna na mesma palavra Lis e Boa. Cansa-me o som desses fonemas e irrita-me solenemente a arrogância a que estão associados. Tudo gira em torno de Lisboa e do Cais do Sodré. Se o espermatozóide Marquês não tivesse furado o óvulo da mãe talvez ninguém tivesse tido a ideia de reconstruir a Baixa e Portugal seria um país mais feliz. Com uma capital em Santarém ou na Guarda.
Não tenho paciência para a sobranceria com que todos os lisboinhas olham para o resto do país como se não passasse de uma bainha mal alinhavada que têm de suportar. Para eles, Portugal deveria resumir-se à capital e à Quarteira, com um grande viaduto (um pouco maior que o Duarte Pacheco) sobre Tróia e o Alentejo.
E, depois, a intelligentzia da nação segue à justa este pacóvio modelo de desenvolvimento, ignorando o resto do mundo. Os políticos (aqueles que são bem vistos) são de Lisboa e vão à província para serem eleitos cabeças-de-lista dos seus partidos, os intelectualóides são paridos entre conversas cheias de maconha e de whiskey (tem que ser o irlandês porque é mais fino, só os parolos – os pobres – bebem o escocês), os apresentadores são eleitos entre o Liceu Francês e o Colégio Alemão. Enfim, é tudo escolhido nos quarteirões que vão de Alvalade a Monsanto, permitindo, de quando em vez, a entrada de algum saloio nortenho.
A comunicação social, essa nem vale a pena falar. Uma notícia do Santana vale mais do que todas as Câmaras do país juntas e um peido de um paneleiro no Parque é mais importante que um colóquio de uma povoação em A-do-Freixo (excepto se tiver algum lisboinha a falar).
Por outro lado, irrita-me as consequências desta visão deturpada. O resto do país só aparece quando há mortos, facadas ou violações. O interesse de 80 por cento dos portugueses só é levado em linha de conta quando algum crime horrendo impõe-se na agenda e pode, quem sabe, entrara como sexta notícia no alinhamento de algum jornal televisivo, ou uma chamada no canto da primeira página.
Mas pior que os lisboinhas originais são os lisboinhas importados, que se deslumbram por verem um prédio com mais de cinco andares e têm orgasmos (múltiplos) ao verem uma estrela (da K7 ou da rádio pirata) a beber um café na esplanada que frequentam. E fazem manifestações por tudo e por nada como se as únicas causas sociais estivessem à sombra do castelo de São Jorge.
Repito o que disse anteriormente: Quero emigrar.
Lisboa
Estou farto de Lisboa, dos lisboetas, dos lisboinhas e de tudo quanto reuna na mesma palavra Lis e Boa. Cansa-me o som desses fonemas e irrita-me solenemente a arrogância a que estão associados. Tudo gira em torno de Lisboa e do Cais do Sodré. Se o espermatozóide Marquês não tivesse furado o óvulo da mãe talvez ninguém tivesse tido a ideia de reconstruir a Baixa e Portugal seria um país mais feliz. Com uma capital em Santarém ou na Guarda.
Não tenho paciência para a sobranceria com que todos os lisboinhas olham para o resto do país como se não passasse de uma bainha mal alinhavada que têm de suportar. Para eles, Portugal deveria resumir-se à capital e à Quarteira, com um grande viaduto (um pouco maior que o Duarte Pacheco) sobre Tróia e o Alentejo.
E, depois, a intelligentzia da nação segue à justa este pacóvio modelo de desenvolvimento, ignorando o resto do mundo. Os políticos (aqueles que são bem vistos) são de Lisboa e vão à província para serem eleitos cabeças-de-lista dos seus partidos, os intelectualóides são paridos entre conversas cheias de maconha e de whiskey (tem que ser o irlandês porque é mais fino, só os parolos – os pobres – bebem o escocês), os apresentadores são eleitos entre o Liceu Francês e o Colégio Alemão. Enfim, é tudo escolhido nos quarteirões que vão de Alvalade a Monsanto, permitindo, de quando em vez, a entrada de algum saloio nortenho.
A comunicação social, essa nem vale a pena falar. Uma notícia do Santana vale mais do que todas as Câmaras do país juntas e um peido de um paneleiro no Parque é mais importante que um colóquio de uma povoação em A-do-Freixo (excepto se tiver algum lisboinha a falar).
Por outro lado, irrita-me as consequências desta visão deturpada. O resto do país só aparece quando há mortos, facadas ou violações. O interesse de 80 por cento dos portugueses só é levado em linha de conta quando algum crime horrendo impõe-se na agenda e pode, quem sabe, entrara como sexta notícia no alinhamento de algum jornal televisivo, ou uma chamada no canto da primeira página.
Mas pior que os lisboinhas originais são os lisboinhas importados, que se deslumbram por verem um prédio com mais de cinco andares e têm orgasmos (múltiplos) ao verem uma estrela (da K7 ou da rádio pirata) a beber um café na esplanada que frequentam. E fazem manifestações por tudo e por nada como se as únicas causas sociais estivessem à sombra do castelo de São Jorge.
Repito o que disse anteriormente: Quero emigrar.
Descobri que sou burro...
Depois de alguns dias remetido ao silêncio pelo muito trabalho que me invadiu como o ataque dos japoneses a Pearl Harbour, regresso a estas lides cibernáuticas, revelando que tive uma visão. Não daquelas que os místicos e os Pastorinhos têm, mas uma mais simples: sou burro.
Leio os textos dos nossos colegas bloguistas e fico siderado. Desde o Maltez ao JPP, passando pelos Mexia e Lomba, Marretas, Esquerdas, Gato é tudo um fartar de citações e de termos inusados. Nem nas aulas de algumas figuras distintas da nossa literatura tive tantos autores reunidos numa única frase como se citando os outros mostrasse que sabemos ler melhor. E todos com ideias bonitas e bem construídas. Todos a bater umas punhetas uns aos outros sem sequer lavarem as mãos. Parece que os blogues tornaram-se numa feirazinha de vaidadezinhas. É que isto em Portugal é tudo muito medido com inhos para não ferir susceptibilidades.
FODA-SE, quero emigrar. Salva-se o Pipi e o Scolari
Depois de alguns dias remetido ao silêncio pelo muito trabalho que me invadiu como o ataque dos japoneses a Pearl Harbour, regresso a estas lides cibernáuticas, revelando que tive uma visão. Não daquelas que os místicos e os Pastorinhos têm, mas uma mais simples: sou burro.
Leio os textos dos nossos colegas bloguistas e fico siderado. Desde o Maltez ao JPP, passando pelos Mexia e Lomba, Marretas, Esquerdas, Gato é tudo um fartar de citações e de termos inusados. Nem nas aulas de algumas figuras distintas da nossa literatura tive tantos autores reunidos numa única frase como se citando os outros mostrasse que sabemos ler melhor. E todos com ideias bonitas e bem construídas. Todos a bater umas punhetas uns aos outros sem sequer lavarem as mãos. Parece que os blogues tornaram-se numa feirazinha de vaidadezinhas. É que isto em Portugal é tudo muito medido com inhos para não ferir susceptibilidades.
FODA-SE, quero emigrar. Salva-se o Pipi e o Scolari
Os Donos do Garfo
Nome: Os Carcavelos
Designação: tasca à velha antiga portuguesa
Localização: Aveiro
Página na Internet: não queriam mais nada!
Classificação: 7,5 (de 0 a 10)
Não é um primor de asseio e limpeza, nem tem quadrinhos nas paredes, as toalhas são de papel, o proprietário e o empregado têm unhas compridas com sarro por baixo e vertem metade da sopa ao trazerem-nos os pratos para a mesa... É tudo menos um sítio asséptico, asseado, sofisticado. Lá não se come fillet-mignon, nem ór-dâvrre (não sei como se escreve em francês, por isso aportuguesei). O vinho não é de castas ou colheitas especiais, os talheres e os pratos são lavados com um simples chuveiro de água. As cadeiras estão semi-destruídas e as mesas cheias de lascas.
É assim Os Carcavelos, uma tasca em Aveiro, junto ao Canal de São Roque. Hoje comi uma bela alheira (com a pele ligeiramente queimada, é verdade, mas nada é perfeito nesta casa), com batatas fritas acabadas de fritar, arroz de nabiças e um ovo a cavalo. No início, uma sopa de nabiças (sim, o arroz também era de nabiças: esta gente deve ter frequentado as cantinas de Coimbra), broa da melhor e azeitonas. Para acompanhar, uma 7up com muito gelo (quem quiser tem vinho à discrição, branco ou tinto). O preço é sempre 4,5 euros, com direito a tv sempre ligada no Praça da Alegria.
No final de tudo, uma violentíssima jogatana de matrecos, com os pelos do sovacame a nadar em suor. A mesa é das antigas – daquelas que podem levar com marteladas em cima que não se desconjuntam –, a 20 cêntimos cada nove bolas.
Nome: Os Carcavelos
Designação: tasca à velha antiga portuguesa
Localização: Aveiro
Página na Internet: não queriam mais nada!
Classificação: 7,5 (de 0 a 10)
Não é um primor de asseio e limpeza, nem tem quadrinhos nas paredes, as toalhas são de papel, o proprietário e o empregado têm unhas compridas com sarro por baixo e vertem metade da sopa ao trazerem-nos os pratos para a mesa... É tudo menos um sítio asséptico, asseado, sofisticado. Lá não se come fillet-mignon, nem ór-dâvrre (não sei como se escreve em francês, por isso aportuguesei). O vinho não é de castas ou colheitas especiais, os talheres e os pratos são lavados com um simples chuveiro de água. As cadeiras estão semi-destruídas e as mesas cheias de lascas.
É assim Os Carcavelos, uma tasca em Aveiro, junto ao Canal de São Roque. Hoje comi uma bela alheira (com a pele ligeiramente queimada, é verdade, mas nada é perfeito nesta casa), com batatas fritas acabadas de fritar, arroz de nabiças e um ovo a cavalo. No início, uma sopa de nabiças (sim, o arroz também era de nabiças: esta gente deve ter frequentado as cantinas de Coimbra), broa da melhor e azeitonas. Para acompanhar, uma 7up com muito gelo (quem quiser tem vinho à discrição, branco ou tinto). O preço é sempre 4,5 euros, com direito a tv sempre ligada no Praça da Alegria.
No final de tudo, uma violentíssima jogatana de matrecos, com os pelos do sovacame a nadar em suor. A mesa é das antigas – daquelas que podem levar com marteladas em cima que não se desconjuntam –, a 20 cêntimos cada nove bolas.
Pastéis de vento
pérolas da sabedoria zen
Uma pessoa pode parecer tola e, apesar disso, não o ser. Pode apenas estar a guardar a sua sabedoria com muito cuidado. Quando os cristais da última geada forem atravessados pelos raios da alvorada primaveril, quando chegar a altura certa, e só então, Scolari convocará o Baía.
pérolas da sabedoria zen
Uma pessoa pode parecer tola e, apesar disso, não o ser. Pode apenas estar a guardar a sua sabedoria com muito cuidado. Quando os cristais da última geada forem atravessados pelos raios da alvorada primaveril, quando chegar a altura certa, e só então, Scolari convocará o Baía.
quinta-feira, junho 05, 2003
A frase de DJ Carcaça
"É como bater uma punha a pensar na vizinha de baixo. Até parece que a fodemos..."
merece-me a seguinte contra-argumentação:
Mais vale a vizinha de baixo na mão do que o vizinho do segundo andar
e ainda
Mais vale a vizinha de baixo na mão do que o vizinho no corrimão
e ainda
Mais vale a vizinha de baixo na mão do que três a voar
e ainda
Mais vale a vizinha de baixo na mão do que o filho de empurrão
e ainda
Mais vale a vizinha de baixo na mão do que o vizinho de cima no cu
"É como bater uma punha a pensar na vizinha de baixo. Até parece que a fodemos..."
merece-me a seguinte contra-argumentação:
Mais vale a vizinha de baixo na mão do que o vizinho do segundo andar
e ainda
Mais vale a vizinha de baixo na mão do que o vizinho no corrimão
e ainda
Mais vale a vizinha de baixo na mão do que três a voar
e ainda
Mais vale a vizinha de baixo na mão do que o filho de empurrão
e ainda
Mais vale a vizinha de baixo na mão do que o vizinho de cima no cu
quarta-feira, junho 04, 2003
Pode um texto ser traduzido de várias maneiras? Pode. Eis um exemplo:
“As poucas estrelas acima de nós lançavam uma luz fraca apenas sobre o navio, sem qualquer cintilação na água, como um poço de luz separado que perfurasse uma atmosfera transformada em fuligem. Era qualquer coisa que nunca tinha visto antes; não havia qualquer sinal da direcção onde se alcançaria uma possível mudança: uma ameaça que nos comprimia de todos os lados”.
“As poucas estrelas, ao alto de nós, difundiam uma vaga claridade que se limitava ao navio, sem o menor reflexo no mar, como emanações de luz isoladas repassando uma atmosfera mudada em fuligem. Era uma coisa como eu nunca vira outras, que não apresentava o menor sinal de poder vir a evoluir, como a aproximação de uma ameaça que irrompia por todos os lados”.
O bizarro é que estas duas traduções do mesmo excerto da obra A Linha de Sombra, de Joseph Conrad, aparecem ambas no livro que o Público lançou na colecção Mil Folhas: a primeira versão surge na parte de trás da sobrecapa e a segunda nas páginas 132 e 133. Como é que isto pode ser explicado?
De qualquer maneira, parece óbvio que um dos tradutores, ou ambos, usaram de certa liberdade criativa no processo de traduzir o texto para português, uma vez que as versões são bastante diferentes entre si. Por exemplo: um usa “poço de luz” e o outro “emanações de luz”; um usa os dois pontos no final do parágrafo, o outro não. Até que ponto é que a emancipação do tradutor em relação ao texto original é legítima?
“As poucas estrelas acima de nós lançavam uma luz fraca apenas sobre o navio, sem qualquer cintilação na água, como um poço de luz separado que perfurasse uma atmosfera transformada em fuligem. Era qualquer coisa que nunca tinha visto antes; não havia qualquer sinal da direcção onde se alcançaria uma possível mudança: uma ameaça que nos comprimia de todos os lados”.
“As poucas estrelas, ao alto de nós, difundiam uma vaga claridade que se limitava ao navio, sem o menor reflexo no mar, como emanações de luz isoladas repassando uma atmosfera mudada em fuligem. Era uma coisa como eu nunca vira outras, que não apresentava o menor sinal de poder vir a evoluir, como a aproximação de uma ameaça que irrompia por todos os lados”.
O bizarro é que estas duas traduções do mesmo excerto da obra A Linha de Sombra, de Joseph Conrad, aparecem ambas no livro que o Público lançou na colecção Mil Folhas: a primeira versão surge na parte de trás da sobrecapa e a segunda nas páginas 132 e 133. Como é que isto pode ser explicado?
De qualquer maneira, parece óbvio que um dos tradutores, ou ambos, usaram de certa liberdade criativa no processo de traduzir o texto para português, uma vez que as versões são bastante diferentes entre si. Por exemplo: um usa “poço de luz” e o outro “emanações de luz”; um usa os dois pontos no final do parágrafo, o outro não. Até que ponto é que a emancipação do tradutor em relação ao texto original é legítima?
A cultura do emplastro
Em Portugal, aparecer na televisão é mais do que motivo de orgulho. Pode, por vezes, tornar-se um objectivo de vida. Desde o jovem que sonha com a fama e acha justo que ela venha a troco de viver meses confinado numa casa cheia de semelhantes dispostos a mostrar a bunda em directo para todo o país, até os grunhos que se amontoam em torno dos repórteres em dia de jogo, ou à multidão em frente do tribunal para ver o Herman. O homenzinho desdentado com um sinal na cara não é mais que uma caricatura de 80 por cento (números do INE – Instituto Nacional de Especulação) das pessoas que vemos na televisão todos os dias. É fácil relacionar esse fenómeno com a carência de literacia do povo – gente mais educada tem mais facilidade em perceber a futilidade de alguns comportamentos. A verdade é que o fenómeno também acontece noutros países, alguns até mais evoluídos do que o nosso. Como explicar então o que leva alguém a saltar para a frente das câmaras, telemóvel em acção, a anunciar para a família e os amigos “Ponham na SIC! Estou na SIC!...”? Não sei. Não interessa. O que interessa é que é foleiro. Não o façam.
terça-feira, junho 03, 2003
Ao ver na internet uma fotografia do Herman José a sair do DIAP, há uns dias, lembrei-me que nas imagens em directo que as tv’s transmitiram na altura se podiam observar dezenas de pessoas de plantão à porta das instalações. Os portugueses – muitos portugueses, pelo menos – têm comportamentos inacreditáveis: ficar horas à espera da saída do Herman José, ou ir aos calabouços da PJ para ver os familiares dos detidos, é um sinal da decadência do país. Esta gente vadia não tem nada melhor para fazer? Para mim, é a prova do carácter pervertido e estragado da maioria dos portugueses. É o mesmo traço de personalidade que leva os condutores a abrandar os carros ao menor sinal de acidente na estrada, para ver o sangue e os ossos partidos mais de perto.
Ontem fui à Feira do Livro e comprei o novo album do Quino, “Quanta Bondade”. Quino continua subversivo, devido ao desapontamento pela crueldade que ele adivinha no mundo em que vive e ao desconforto que sente pela suposta profusão de sinais de injustiça e desigualdade. E nota-se até uma grande incomodidade pelo domínio do tecnológico, não pelos utensílios em si mas pela barreira que segundo ele constituem à comunicação directa e à proximidade entre as pessoas – um exemplo são as muitas tiras do livro em que são diminuídas as personagens com telemóveis. Mas a piada já não é a mesma, o que se sente sobretudo por quem leu a Mafalda. A qualidade do desenhos é a mesma, algumas ideias são excelentes, mas parece que o humor se esgotou.
segunda-feira, junho 02, 2003
Jornalismo e corporativismo
Caro Zizou, é claro que concordo com a maior parte das críticas que se fazem aos jornalistas, nomeadamente com as de JPP. O que eu quis dizer é que seria também pedagógico explicar por que é que o jornalismo desempenha um papel insubstituível nas democracias. Eu sei muito bem da perversidade das relações entre jornalistas e fontes, sei dos acordos que se fazem à mesa, dos sapos que se engolem para criar um canal de comunicação com A ou B. E sei que quem não está disposto a isso, de um modo geral, é desvalorizado pelas chefias. Reconheço também que, nestes debates, os jornalistas invocam automaticamente os constrangimentos clássicos da profissão para explicar falhas e deturpações com finalidades obscuras.
Mas, posto isto, é preciso também dizer - e JPP sabe-o bem - que muitos dos problemas do jornalismo relevam do própria sociedade e dos seus responsáveis, nomeadamente ligados ao poder político e económico. Não é fácil lidar com pessoas interessadas directamente nas notícias, nem com a opacidade da administração pública portuguesa, nem com a sofisticação dos gabinetes de comunicação. Os jornalistas vivem na cacofonia, e o problema é que têm que escrever sobre ela, atribuir nomes aos seus actores.
Agir no meio do turbilhão, no tempo da actualidade, não é o mesmo que comentar subjectivamente a realidade escolhida, no tempo da reflexão. Não estou a dizer que é mais difícil, estou a dizer que é diferente.
Caro Zizou, é claro que concordo com a maior parte das críticas que se fazem aos jornalistas, nomeadamente com as de JPP. O que eu quis dizer é que seria também pedagógico explicar por que é que o jornalismo desempenha um papel insubstituível nas democracias. Eu sei muito bem da perversidade das relações entre jornalistas e fontes, sei dos acordos que se fazem à mesa, dos sapos que se engolem para criar um canal de comunicação com A ou B. E sei que quem não está disposto a isso, de um modo geral, é desvalorizado pelas chefias. Reconheço também que, nestes debates, os jornalistas invocam automaticamente os constrangimentos clássicos da profissão para explicar falhas e deturpações com finalidades obscuras.
Mas, posto isto, é preciso também dizer - e JPP sabe-o bem - que muitos dos problemas do jornalismo relevam do própria sociedade e dos seus responsáveis, nomeadamente ligados ao poder político e económico. Não é fácil lidar com pessoas interessadas directamente nas notícias, nem com a opacidade da administração pública portuguesa, nem com a sofisticação dos gabinetes de comunicação. Os jornalistas vivem na cacofonia, e o problema é que têm que escrever sobre ela, atribuir nomes aos seus actores.
Agir no meio do turbilhão, no tempo da actualidade, não é o mesmo que comentar subjectivamente a realidade escolhida, no tempo da reflexão. Não estou a dizer que é mais difícil, estou a dizer que é diferente.