domingo, julho 11, 2004

Poesia de mercado



Os chineses são fabulosos. Além de produzirem tudo aquilo que se faz no Ocidente com a mesma qualidade por um décimo do preço, juntam-lhe um pouco da sua cultura em cada peça manufacturada, transformando-a numa obra de arte. Recentemente, comprei uns baratíssimos e modernos calções de praia da marca Winner, produzidos pela Mengtianma Co.,Ltd., uma pequena empresa, que dá emprego a 150 pessoas. Uma etiqueta em cartão colorido presa aos calções por um fiozinho de plástico trazia o seguinte poema xiaoling, traduzido para inglês (a transcrição meticulosa do ND é fiel à criatividade linguística e refinada beleza do original):

"This superfine gar ment for sucessful person.
The sucessful person's sports & casual garment,
The fashional style makes you feul your sey
being out of ordin ary.
The sucessful person comfirm the brard
with their firm faith
As a symbol of fast & quality,the
sucessful person's orts & casual garment
its new image.

The modern style designing, exquisite
fabric material, brand new imported
facilities,and delicate work manship
makes every suessful person feel comfortable
and much honourable in any places.
This is very popular among thoes
who have ar excellent taste.

Winner"

sábado, julho 10, 2004

Espanhol para descuidados



Pessoal. Falar espanhol não é apenas duplicar todos os eles das palavras. Há vocábulos na língua de Cervantes que só têm um ele. Os eles duplos em espanhol têm o som do "lh" português ou, muito instituído na língua falada, um som semelhante ao "j" luso. Mas em Espanha também há o som do ele sozinho e igualzinho ao nosso, que se grafa da mesma maneira. Escreve-se soledad e não solledad, calamares e não callamares, Segurola e não Segurolla...

sexta-feira, julho 09, 2004

Euro post-mortem 3 * o espírito de Péricles



Também gostei muito da Grécia. Ganharam:
#ao país organizador (duas vezes)
#ao campeão em título
#à melhor equipa (no prolongamento, e golo de prata é uma coisa gay que ainda bem que vai acabar, mas ganharam, pronto)

Nunca ninguém tinha feito coisa igual. Pode haver dúvidas de que mereciam ser campeões? Anda agora tudo a queixar-se de que eles não jogam nada, que aquilo é futebol parasita, que é mau para o espectáculo e etc.

Isso é paleio de chacha de teóricos da bola tipo Valdano (o Valdano é um antigo avançado argentino que vivia dos passes do Maradona, há dez anos que refila que o futebol está a ficar chato porque os "artistas" não têm liberdade de acção, é director técnico do Real Madrid, inventou os galácticos, está tudo dito).

A Grécia a jogar lembrava-me o FCP deste ano. Com a diferença que o FCP tinha quatro jogadores soberbos, e os gregos não tinham nenhum. O que dá ainda mais valor à vitória deles.

Eram unidos, ultradisciplinados, concentradíssimos. Jogavam muito. E nem precisavam de dar muita cacetada ou de fazer anti-jogo.

Quem me dera ter tido uma assistência de Hermes (deus do jogo) e metido uma aposta nos gregos. Já agora, por falar em FCP, tomem lá do Mourinho:

"Quando vejo pessoas a criticar o estilo de jogo dos gregos e a dizer que não é normal que uma equipa como a Grécia se torne campeã europeia, eu digo exactamente o contrário. Sem estrelas, sem jogadores vindos da Lua, só bons futebolistas, boa organização táctica, jogar para o resultado e para a alegria dos adeptos gregos".

Hellas! Hellas! Hellas!

quarta-feira, julho 07, 2004

Euro post-mortem 2 * A apologia de Sócrates



Sócrates o brasileiro, o que inventou os golos com toques de calcanhar. Tinha tanta barba como o grego e era um jogador bestial. Houve uma série de momentos à Sócrates neste Europeu, daqueles que um gajo se lembra para o resto da vida. Os meus favoritos:

*Paragem cerebral inglesa
Nunca vi um jogo tão mal perdido como o Inglaterra-França. Os ingleses dominam o jogo todo e depois cometem uma série de erros inacreditáveis.

É o Becas a falhar um penalti; o Heskey a fazer uma falta imbecil; o Calamity James a deixar uma bola de livre entrar pelo lado dele; o Gerrard a fazer um passe para o Henry. Porra, que só faltava pegarem na bola e metê-la na baliza pelos franceses.

*Cuspidela do Totti
Porque nenhum torneio a sério passa sem estas coisas. Em 2000 e 2002 tiveram de ser os portugueses a tratar da coisa - o Rui Jorge e o Chewbacca a oferecer porrada ao fiscal de linha, depois o João Pinto e o hematoma do árbitro.

Este ano foi o Totti, o que rendeu ainda o melhor cântico de adeptos no Euro, o dos suecos no Itália-Suécia: "Totti, Totti, pffuit, pffuit, pffuit!"

*Golo do Larsson contra a Bulgária
Golaço, o homem parecia que voava.

*República Checa-Holanda
Que ganda jogo, porra. E o golo do Baros? Todos juntos a cantar com os checos: Mi-lan Ba-ros! Mi-lan Ba-ros!

*Itália-Bulgária
Ora os dinamarqueses e os suecos fazem o arranjinho, mas os italianos em campo não sabem, e o Cassano marca no último minuto, e durante dez segundos anda a correr em êxtase, até que chega ao banco e lhe contam, olha, não serviu para nada. Maledettos!

*Trapattoni lixa-se
Confirmou-se como o pior treinador da Itália de sempre, tinha a melhor equipa do torneio mas foi eliminado por ter a mania de defender o 1-0, e agora vai ser treinador... Ha ha ha... treinador do... Ha ha ha ha ha ha...



*O Becas falha outro penalti.
E é que toda a gente já sabia que o gajo ia falhar, mas o mais engraçado foi vê-lo levantar três quilos de terra com o chuto.

*O Ricardo tira as luvas
Ah, valente!

*O penalti do Postiga
É preciso ter uns tomates do tamanho de melões para marcar um penalti daqueles num momento daqueles.

*Os maus treinadores são todos punidos
O Trapattoni foi logo. O Santini teve uma sorte do caraças, mas apanhou com os gregos e rua. O burro espanhol teve a humilhação de ser eliminado por um golo do Champô Linic. O Advokaat ainda se aguentou, mas a imprensa holandesa caiu-lhe em cima com tanta força que ele até andou de roda.

Tive pena do Voller, que não tem culpa de os alemães, em 80 e tal milhões de cidadãos, só conseguirem produzir três jogadores de futebol (o Khan, o Ballack e o curiosamente chamado Schweinsteiger).

*Os nomes dos gregos
Pois que Dellas é fácil e Charisteas também, mas deve ser lixado fazer t-shirts de gajos com nomes como Giannakopoulos ou Papadopoulos. Ainda por cima no alfabeto grego.

*O golo do Dellas
Os checos eram melhores, jogavam muito, mereciam ter ganho, mas toma lá, 115 minutos e meio, de canto, pumba somos gregos e vamos à final.

terça-feira, julho 06, 2004

Euro post-mortem 1 * as fossas nasais de Zeus

A comunicação social ignorou o assunto quase por completo, mas nas últimas semanas houve um Europeu de futebol em Portugal. O Núcleo, determinado a quebrar a cortina de silêncio, inicia aqui uma série de reflexões sobre o evento.

Primeiro: aquilo correu muito bem.

Os estádios estavam prontos a tempo, a organização era eficiente e cuidadosa, não houve sequer grandes pancadarias.

Os estrangeiros eram muitos e divertidos (prémio simpatia: os holandeses; prémio devoção: os checos; prémio gajas boas: as russas, dizem-me, embora eu vote nas dinamarquesas).

Até os ingleses decidiram dividir-se entre os bons (a maioria) e os maus (foram todos partir Albufeira - voltem quando quiserem). Até este gajo levou nos cornos.


A qualidade do futebol variou, mas o torneio não foi nada mau e teve grandes momentos. E embora andasse tudo obcecado com a selecção, mesmo com a nacional-bandeirite deu para ter um ambiente animado e alegre. Parecíamos um país europeu a sério.

Seguindo o espírito do ND, parece-me essencial no entanto notar o que correu mal, os três macacos nas fossas nasais do Zeus-Euro:

UM * As realizações televisivas. Parece que eram feitas por uma firma estrangeira contratada pela UEFA, mas podiam ser portuguesas. Em vez de mostrar o jogo, toca de mostrar repetições de faltas a meio campo ou de bolas que saem para canto.

À custa disso, ninguém viu em directo o melhor golo do torneio - o do Maniche contra a Holanda. Momentos como o Ricardo a tirar as luvas contra a Inglaterra ou o Totti a cuspir no dinamarquês - também não se viu, porque a realização estava à procura de gajas na bancada.

DOIS * O palhaço da final. O marmelo que entra em campo a correr e vai espetar a bandeira do Barça na cara do Figo. Chama-se Jimmy Jump, é profissional desta merda, tem um site e tudo, mas nem pensem que aqui se mete o link para o animal.

Foi uma das grandes falhas do Euro: tinha sido tão lindo que os jogadores portugueses aproveitassem o atrasado mental para descarregar as frustrações. Que oportunidade perdida, era tão bom ver o Ricardo Carvalho e o Nuno Gomes a arriar em grande no palerma, em vez de deixarem o correctivo para os ?stewards? e a PSP.

TRÊS * A falta de imaginação da imprensa para títulos. Quer dizer, a Grécia vai longe pela primeira vez na história, e é só uns trocadilhos meio frouxos sobre o Homero ou tragédias gregas ou o Monte Olimpo. (E não é só a imprensa. Até neste espaço augusto ainda não vi, digamos, o aproveitamento necessário).

Então e Eurípides, e Édipo, e Alexandre o Grande, e Aristófanes, e Demóstenes, e a Ágora, e o Partenon, e a guerra do Peloponeso, e Aristóteles, e Hera, e Aquiles?! Que potencial infindável para trocadilhos de mau gosto. Que oportunidade desperdiçada. O ND tentará corrigi-la neste espaço.
Ar puro

Respira-se melhor em Portugal, agora que o Euro acabou e a selecção perdeu.
Ar puro

Respira-se melhor em Portugal, agora que o Euro acabou e a selecção perdeu.

segunda-feira, julho 05, 2004

Euro 2004: O balanço necessário



Confesso que no início deste Europeu temia o pior. Os jogos de preparação faziam adivinhar que Portugal não iria muito longe. Já me dei por satisfeito por termos passado da primeira fase. Daí para a frente, tudo foi lucro. Só perdemos na final, com uma equipa tacticamente espectacular, que foi dando lições aos seus adversários do início ao fim do torneio. A Grécia é um justíssimo campeão e se Portugal não tivesse sido o outro finalista era por eles que tinha torcido. Hellas!!!

A parte má: a satisfação geral com a organização da prova e com a prestação da equipa vai cimentando o terreno para que se perpetue o reinado de D. Gilberto Madaíl, "o Idiota". Tá tudo aí contente e de parabéns, mas a "porcaria da Federação" de que falou Carlos Queirós aqui há uns anos continua aí a tresandar. E já fez merda: renovou com o seleccionador.

O Felipão é um tipo carismático, não há dúvida, e tem autoritarismo que baste e uma sorte do caraças. Tirando isso, é um péssimo treinador e as suas equipas jogam mal. As únicas vezes que vi uma equipa do Scolari jogar bem foi Portugal neste Euro, nos jogos em que o teimoso brasileiro decidiu finalmente colocar de início o contingente do FC Porto, que joga de olhos fechados. O Brasil com que o técnico venceu o Mundial era uma equipa horrível, que teve dificuldades inconcebíveis em se apurar para a prova e uma sorte inacreditável que a acompanhou até levantar o troféu.

Já toda a gente fala do Mundial da Alemanha, mas esquecem-se de que ainda é preciso passar pela fase de apuramento. O grupo A inclui Rússia, Eslováquia, Letónia, Estónia, Liechtenstein e Luxemburgo. É, parece fácil. Mas o problema é mesmo esse. Portugal é péssimo a assumir em campo a condição de favorito. Não sou um pessimista. Mas há algo no ar que me diz que se aproximam tempos difíceis para a selecção. Espero estar enganado. Aproveito para perguntar aos gregos se não querem trocar o Rehhagel pelo Felipão. Oferecemos o Rui Jorge e o Beto de bónus.

sábado, julho 03, 2004

Voucher não vale



Os portugueses adoram usar estrangeirismos, sobretudo quando não são necessários. É chique, sei lá... A última palavra obsoleta que apareceu aí em força é voucher.

Acabei de ver uma reportagem da RTP, a propósito de umas filas que as pessoas estavam a fazer aqui em Lisboa para trocar o seu voucher por um bilhete para o jogo da final do Euro 2004. O mais engraçado foi reparar como cada um dizia a nova palavrota à sua maneira: "vúcher", "váucher", "vócher" e até "vochere" foram algumas das formas constatadas.

Voucher é inglês e quer dizer tão somente vale. Isso que tu tens aí para trocar por um bilhete é um VALE, seu ignorante do caralho. Tugas!...
Os senegaleses da Ilha do Sal



O calçadão que separa a zona dos hotéis do areal é o território dos senegaleses, proibidos pela polícia de importunar os turistas na praia. Homens de pele muito escura, destinguem-se facilmente dos achocolatados cabo-verdianos. E são os piores vendedores e os seres mais chatos que alguma vez conheci.

O primeiro que vimos foi uma mulher gorda, com um vestido largo e berrante, que tentou fazer trancinhas à minha namorada, por 20 euros. Pareciamos então compreender os avisos do empregado do hotel: "Cuidado com os senegaleses! Não falem com eles." Mas a coisa ainda ia piorar. Com os seus sacos cheios de tartaruguinhas e máscaras de madeira, caem sobre os turistas como moscas sobre vacas. E não há rabo que as consiga sacudir. A táctica é sempre igual e parecem ter todos andado na mesma escola. "Ciao!", tentam primeiro, desejando que os destinatários sejam italianos. "Po'tuguez?", continuam a tactear.

Se não forem absolutamente ignorados, como se simplesmente não existissem, são capazes de acompanhar os turistas durante quilómetros, na tentativa sôfrega de vender uma bugiganga qualquer por 10 euros. Um simples "olá" e dificilmente o europeu se livrará de ouvir toda a história mentirosa do senegalês, que no seu crioulo com sotaque francês, contará com olhos de cãozinho abandonado que é um artesão, que veio da Praia ou do Mindelo, e que ainda não vendeu nada hoje. "Po' favô', tenho fome."

A dada altura desta visita à Ilha do Sal, após a vitória de Portugal sobre a Rússia (2-0) para o Euro 2004, que vimos em directo pela televisão com os comentários de um animado locutor cabo-verdiano, decidimos percorrer o calçadão até à vila de Santa Maria. Um batalhão de snipers das tartaruguinhas foram-nos bombardeando durante todo o passeio. Já na aldeia, o assédio não foi mais suave. Os próprios locais, pareciam seguir o exemplo dos senegaleses. Deparámos com um pequenito, aos saltos, que ainda se iniciava na arte da chateação:

- Olha, compra-me esta tartaruga. Ajudem que tenho fome. Anda. Não vendi nada hoje. Compra, compra, compra. Pa eu cume uma sande. Vá, compra. Eh, vocês não ajudam!...

E dizendo isto, afastou-se. Mais tarde, preparávamos o espírito para enfrentar novamente o calçadão ao voltar para o hotel, quando vimos o mesmo puto na areia, a brincar com um amiguinho. No mesmo instante, aborda-nos um adulto, já muito mais aperfeiçoado na lábia, embora visivelmente tocado por qualquer coisa etílica:

- Ora, muito boas noites. Então, a nossa selecção ganhou!? Hoje é tudo mais barato. Tenham a bondade. Permitam apenas que lhes mostre...

Dizia isto sem conseguir deter a nossa marcha, quando foi interrompido pelo nosso amiguinho:

- Eh, não vale a pena! Esses aí não gostam de ajudar!

A última coisa que ouvimos foi o som de um tabefe paternal que parecia entregar na nuca do pirralho a mensagem: "Seu burro! Acabaste de me estragar o negócio."

sexta-feira, julho 02, 2004

Um mau português

Um destes dias, atrevi-me a dizer, meio a sério meio a brincar, que não era grande adepto da selecção portuguesa e que não fazia especial questão que ganhasse à Holanda. Foi o suficiente para se desencadear um pequeno motim e fui logo arrumado como um «mau português». Assim mesmo, um «mau português».
O Meireles, que não paga impostos mas anda de bandeirinha no carro, é um bom português. O Silva, que conduz que nem um louco mas anda de lenço da selecção na cabeça, é um bom português. A D. Maria, que leva o cão a cagar nos passeios mas anda de cachecol de Portugal atado à carteira, é uma boa portuguesa. O Simões, que bate na mulher mas vai para a rua buzinar depois de cada vitória de Portugal, é um bom português. O Sousa, que não paga aos ucranianos que trabalham na empresa de construção mas foi ao Estádio da Luz apoiar a selecção, é um bom português. Etc, etc, etc.
Eu, que trabalho honestamente, pago os impostos todos, ajudo as velhinhas a atravessar as passadeiras, sou civilizado no trato com os outros (inclusive na estrada), não cometo crimes e não deito lixo para o chão, sou um mau português. Tá certo!
Hellas!



Custou, mas fiquei fã da Grécia. É verdade, jogam feio e não têm grandes jogadores, mas merecem estar onde estão. Venceram o país organizador, o campeão em título e a melhor equipa da competição, e tudo sem penalties roubados nem golos anulados.

Os jogos dos gregos são chatos, mas ninguém corre mais que eles, e se é verdade que eles jogam feio, também é verdade que não são violentos e não lhes dá para tácticas de país pequenino tipo, por exemplo, o guarda-redes fingir que lhe partiram as pernas com um taco de basebol dez vezes nos últimos minutos para gastar tempo.

Ainda por cima, os adeptos gregos são uns gajos simpáticos. Se a Grécia ganhar no domingo, não fico lá muito triste. Aliás, como se pode reparar pela decoração destas páginas, este blog também está com uma veia helénica.

quarta-feira, junho 30, 2004

Força Holanda

Para quem verdadeiramente gosta de futebol, todo este espalhafato histriónico em torno do Euro é já absolutamente insuportável. No início, encarava-se o folclore com resignação, mas à medida que o fenómeno alastrou tornou-se perfeitamente doentio, pelas proporções gigantesca que assumiu. O pior de tudo é a exaltação patrioteira que varreu o país, a começar pelas televisões. Quem realmente gosta de futebol já não suporta as bandeiras, o hino, a Nelly Furtado, as pessoas, o país... Por isso, Força Holanda!

terça-feira, junho 29, 2004

Ainda os espanhóis

O futebol é uma coisa maravilhosa, que move multidões. A paixão por esse desporto é algo que toca de igual forma o ser mais simples e o mais ilustre. Até os imperadores, pessoas escrupulosamente educadas para estar em público perdem a compostura no que toca a matérias do futebol. Poucos terão reparado no gesto que o Rei de Espanha, Juan Carlos, fez ao público português ao abandonar o Estádio Alvalade XXI, após Portugal ter corrido mais uma vez com os castelhanos, desta vez do Euro 2004. Mas os arquivos de media do Núcleo Duro conseguiram recuperar essas imagens. Bem feita, espanhóis. Levaram outra vez na mona. Aljubarrota!!!...

domingo, junho 27, 2004

Epifanias

«Wild is the wind», uma das grandes canções do repertório do David Bowie, logo uma das grandes canções de sempre.

sábado, junho 26, 2004

Maná pontapé no cará... Madonna chute na co...



O endereço de correio electrónico do Núcleo Duro tem sido bombardeado com emails contestando a vergonha que é cancelar um congresso da Madonna no Pavilhão Atlântico por causa de um concerto da Igreja Maná. Outros contestam justamente o contrário - questionam como é possível trocar um tributo a Deus por um espectáculo de uma cantora que mais parece uma meretriz. Este mail que agora reproduzimos defende essa última corrente e foi seleccionado de entre centenas (sem exagero!) de mails de protesto sobre a temática para o Prémio Núcleo Duro A Mente Mais Inútil à Face da Terra.


"Meus senhores

Chegou a hora de tirar os ídolos humanos, de pau e de pedra do pedestal e dar a Jesus o lugar que a Ele somente pertence. O povo português não precisa de Madonna precisa de Deus para abençoar uma nação que tem caminhado de costas para o criador e por consequência tem sido envergonhada em todo o mundo.

Nós pais não queremos que as nossas filhas sejam como a Madonna, por isso o seu exemplo deve ser censurado. Os nossos jovens já têm perversão suficiente para se perderem.

Queremos moralidade e decência para as gerações futuras não sejam como a actual: mentirosa corrupta e gananciosa. Desculpem mas Deus vai sempre estar em 1º lugar em Portugal.

A cabeça do Ricardo vai rolar"


Em jeito de nota final, convém esclarecer que o ND defende o seguinte:

- que a Madonna e seus fãs sejam crucificados dentro da Igreja Maná;
- que os fiéis e pastores desse e de outros franchises religiosos brasileiros sejam obrigados a ouvir todos os discos da cantora enquanto são molestados e mutilados por canibais sodomitas;
- o Pavilhão Atlântico não deve acolher nenhum desses eventos, mas sim um jogo amigável de futsal entre o Bidoeirense e o Freixieiro;
- mais: o Ricardo esteve muito bem contra a Inglaterra. A sua cabeça não deve rolar para já.

segunda-feira, junho 21, 2004

Notas sobre o Euro III

Eu proponho ainda mais:

- cantar o hino e rezar um pai nosso três vezes por dia
- peregrinações anuais obrigatórias ao estádio da Luz e ao estádio nacional
- proibir a entrada de estrangeiros em Portugal, a menos que adquiram a nacionalidade portuguesa, e expulsar todos os bárbaros que por cá andam
- acabar com todas as importações, porque afinal «o que é nacional é bom»
- instituir o vermelho, o verde e o amarelo como cores oficiais da nação
- abolir do vocabulário usado pelos portugueses todos os termos estrangeiros e todos os estrangeirismos
- decretar multas pesadas a quem não cumprir estas regras
- obrigar todos os novos pais a chamarem Marcelo, Duarte ou Paulo Barbosa aos filhos
- homenagear os 9,9 milhões de portugueses com as mais altas comenda da República, pelos bons serviços prestados à pátria
- fazer declaração de amor à pátria de três em três anos, em repartições públicas criadas para o efeito, com recurso a polígrafos
- taxar todos os portugueses com um dízimo para financiar candidaturas a todos os campeonatos da Europa, do mundo e Olímpicos até 2250
- fazer circular uma petição ou um abaixo-assinado para obrigar a UEFA, a FIFA e restantes instâncias a atribuir vitórias a todas as equipas e atletas portugueses participantes em competições internacionais
- Fazer de Lisboa a capital da União Europeia e o português a língua oficial

domingo, junho 20, 2004

Checos



Sem dúvida que o Ibrahimovic é um grande candidato a melhor jogador do Euro 2004. Mas prestaram bem atenção ao que fez ontem um rapaz checo contra os holandeses? Que cavalgada louca no lance do golo do Koller! Que tiraço fantástico o que deu o empate! Ponham aí o nome na lista: Milan Baros. Mas há outros candidatos dentro desta mesma selecção. Pavel Nedved, outro mago contra a Holanda, é talvez o maior.

Os checos são, de resto, grandes candidatos ao título. Neste momento, as equipas que já mostraram estofo de campeão - o vencedor deve sair deste grupo - foram: Itália, França, República Checa, Suécia e Dinamarca.

sábado, junho 19, 2004

Itália

A Itália que jogou ontem contra a Suécia está muito perto de ser a equipa perfeita. Só lhe falta uma coisa: um treinador competente. O guarda-redes é o melhor do mundo, a defesa é perfeita (a melhor dupla de centrais do mundo - igual em qualidade só o Ricardo Carvalho; dois laterais brilhantes, sobretudo o Zambrotta), Pirlo é o melhor trinco do mundo, dois criativos do melhor que há (del Piero e Cassano) e um grande avançado. Sobram dois jogadores (Perrotta e Gattuso) para o trabalho de sapa. A Itália só não ganhou porque porque Trapattoni se comportou como a maior parte dos treinadores portugueses: apanham-se a ganhar por 1-0 e toca de tirar os melhores jogadores de ataque para encher o campo de defesas e trincos. Os jogadores italianos mereciam ter ganho o jogo, mas o empate foi uma punição merecida para o treinador (criminoso ter deixado o Pirlo de fora contra a Dinamarca). Ainda assim, a Itália é talvez a equipa que mais parece preparada para ganhar o Euro, juntamente com a França.

sexta-feira, junho 04, 2004

Táxi drástico
Filosofia de praça - nova rubrica sobre as coisas que se aprende todos os dias com esses grandes pensadores, os taxistas



Esta manhã, ao ser conduzido de táxi até ao meu local de trabalho, ouvi esta pérola do motorista, ao ter de passar com o seu Mercedão creme por baixo de uma cancela hesitante, que estava levantada e baixou no momento em que íamos passar, para logo a seguir subir novamente:

- Isto é de certeza uma gaja que tá a controlar esta merda. É boa a levantar o pau e é boa a amandá-lo abaixo!

quinta-feira, junho 03, 2004

Viva o directo!



A televisão exagera nos directos. João dá um peido e horas depois, equipas de reportagem estão no local a contar em directo como foi que a coisa aconteceu, a entrevistar de surpresa amigos das pessoas que sentiram o cheiro. A crítica não é nova. O que se passa é que sempre achei isso uma coisa má. Mas só até ao último domingo, quando tive a sorte de assistir a um directo da SIC Radical. Um dos momentos mais deliciosos da televisão nos últimos anos.

A coisa passou-se durante a cobertura do Rock In Rio, pouco antes de entrarem em palco os Evanescence, um sucesso entre as adolescentes borbulhentas, com uma vocalista que é uma espécie de versão vamp da Britney Spears. Os comediantes Ricardo Araújo Pereira e José Diogo Quintela, do Gato Fedorento, estavam entretanto a fazer directos bem-humorados da Tenda VIP, gozando com a cara de uns e de outros.

Até que numa das vezes em que Quintela passou a emissão para Pereira, este deu de caras com uma jornalista da SIC, de seu nome Teresa Conceição, uma verdadeira loira do novo jornalismo televisivo, que aparentava estar a aproveitar bem a sua acreditação e a bica aberta da Tenda VIP. Foi mais ou menos assim:

- Ora então vamos tentar aqui falar com mais alguém, a Tenda VIP continua...
Teresa salta para a frente da câmara e para cima de Pereira, expelindo gritinhos histéricos e gargalhadas:
- Uhuuuuuu!!! Isto está uma animação, a tenda do Rock In Rio, tenda VIP hahahaha, aqui com muita festa na SIC. Cervejas é que já não há porque já as bebemos todas, Huhuhuhu...
- É, dá pra ver que já as bebemos todas...
- Ieeeeeeeeehehehe... Isto é (hic) uma graaaande anima(hic)ção...
- Bem, senhores telespectadores, pedimos imensa desculpa por este momento. São as contingências dos directos.
- Agora vejam lá se metem esta merda no ar...
Então, Pereira passa a emissão muito rapidamente para Quintela, afasta o microfone, mas percebe-se pelo movimento dos lábios o que sussurra para Teresa:
- Isto é em directo.
- Não é nada!

Felizmente, era!

sexta-feira, maio 28, 2004

Gil e o celular



Acabado de chegar de viagem, fui directo para o Hotel D. Pedro (Lisboa), onde Gilberto Gil, o agora ministro da Cultura brasileiro, iria dar uma conferência de imprensa a propósito do Rock in Rio. O protocolo decorria normalmente, quando tocou o telemóvel do cantor, que embaraçado recusa a chamada, apertando num botão que cala o aparelho.

Ninguém pareceu se incomodar e a conferência retomou o seu rumo normalmente, mas eis que escassos momentos depois "TILILILILILI...". O celular do politicantor não o deixava em paz. Desta vez, a risota foi geral com o ar atrapalhado do ministro que desafia a moda ministerial, confrontando o fato e gravata com o seu penteado rasta abaianado.

Para gáudio geral, o telefone voltou a tocar. O burburinho bem disposto dos jornalistas - muitos deles brasileiros - culminou com um pedido em coro:

- Atende aí!
- Será que é o Lula? - especulava um em voz alta, ajudando o ministro a decidir tomar uma atitude:
- Só vendo... - disse enquanto tocou noutro botão, desta vez para atender a chamada - Alô! Olha, agora não vou poder falar com você. Estou aqui no meio de uma conferência de imprensa. Me liga mais tarde...
Os olhares curiosos dos jornalistas pediam uma explicação, que não tardou em vir, sempre com o jeito simpático do músico, assim que desligou o telemóvel:
- Não era o Lula, não. Era um secretário do meu ministério...
Algo que nunca esquecerei



Julguei que aquela noite de 1987 em Viena nunca seria superada na minha memória de adepto como o mais glorioso momento do meu clube. Enganava-me. Se, por um lado, o Bayern de Munique que o calcanhar de Madjer derrotou talvez fosse um adversário relativamente mais forte que o Mónaco da última quarta-feira, a verdade é que todo o percurso que o FC Porto fez nesta edição da Liga dos Campeões em nada fica a dever ao da equipa de Frasco, Juary, Inácio, Futre e Madjer. Os comandados de Mourinho jogaram sempre como uma máquina bem oleada, tal como os pupilos de Artur Jorge - o segundo golo, de Deco, é uma jogada soberba de futebol objectivo. O 3-0 desta final parecia vir do fundo das entranhas, um bradar a toda a Europa: NÓS SOMOS OS CAMPEÕES!!!

Por pura coincidência, parti na manhã seguinte para Nice, a trabalho. À noite, tive a oportunidade de dar um saltinho até ao Mónaco. As pessoas com quem contactei e que me disseram ter torcido pelos monegascos não se incomodaram com o meu indisfarçável sorriso de campeão. Deram-me os parabéns pela forma indiscutível como o Porto conquistou o troféu.

segunda-feira, maio 24, 2004

A primeira anedota do alargamento



Um polaco vai ao oftalmologista.
- Ora, então veja lá se consegue ler esta linha - diz o médico enquanto aponta para um quadro onde se vêm as letras C Z W S C K M T S.
- Se eu consigo ler? Eu até conheço o gajo!

sexta-feira, maio 21, 2004

Portugal Negativo

Este artigo sobre o VPV e a campanha Portugal Positivo é impagável. O VPV tirou-me as palavras da boca. O título do texto até merece ir em letras grandes:

"Se Há Alguma Coisa de Que Nós Precisamos É de Menos Auto-estima"

Ora nem mais! Leiam o resto do texto que a coisa é gira. Eu pela minha parte lanço aqui a campanha PORTUGAL NEGATIVO. O objectivo da campanha é baixar a auto-estima nacional através do reconhecimento dos seguintes factos:

*A culpa (do atraso, da crise, da tristeza, etc.) não é dos políticos
*A culpa não é dos árbitros
*A culpa não é dos jornais
*A culpa não é dos espanhóis
*A culpa não é dos americanos
*A culpa não é do sistema
*A culpa não é do Salazar
*A culpa não é da SIC
*A culpa não é dos imigrantes

*A culpa... é nossa!