sexta-feira, agosto 13, 2004

Audrey

Interrompemos a nossa programação habitual para um breve instante de contemplação. A grunhice segue dentro de momentos.



Se nunca a viram como Holly Golighty no Breakfast at Tiffany's ou como Eliza Doolittle no My Fair Lady - não sabem o que perdem.
Fahrenheit Carcaça II - Ora zumba no Carcaça

Apesar dos louváveis esforços do Vostra para censurar o Carcaça, o ND continua a ser um espaço de discussão livre, aberta e civilizada, em que todas as controvérsias são para debater até que cada orador esteja a arremessar insultos ou objectos afiados ao seu adversário.

Antes de tudo - os bolds caralho, ponham as merda dos bolds nos títulos que não custa nada!

Vamos então todos juntos desconstruir o último opus carcacio:

Na essência, não estamos em desacordo

Com este floreado aparentemente inócuo, o nosso DJ quer na verdade dizer "Ernesto e Tiberius, sois umas bestas". É um bom começo.

já contaminado pelo estilo americano

Aqui o nosso valente começa a abrir o jogo, seguindo uma corrente muito popular hoje em dia de empregar "americano" como insulto, como se dissesse "nazi" ou "pedófilo". Mas adiante.

É claro que não há objectividade! Mas há regras que permitem que o jornalismo seja o mais objectivo e imparcial possível

Gastei eu preciosos trinta segundos da minha vida lá em baixo a descrever as canecas do Ernesto e as colheitas de arroz dos chineses, e o homem insiste na mesma. Mas adiante outra vez.

Mantenho que disse: sou da "escola francesa" e não gosto muito de jornais que defendem causas políticas

Esta da Escola Francesa não pode passar.

Oh Carcaça, queres jornais mais politizados que o Le Monde? Ou o Figaro? Ou o Canard Enchainé? Haverá jornal que seja mais abertamente partisan e ideológico que o Libération? O que não implica que estes jornais não sigam a cartilha de...

ouvir o contraditório, o citar (em vez de mandar bitaites)e, muito importante, dar espaço a fontes com opiniões contrárias às que o jornalista pessoalmente defende

...e sejam jornais muito decentes e apreciáveis, como os jornais de que eu falava. Na minha lista já não entra o Le Monde Diplomatique, esse sim um pasquim panfletário, que...

se gostas de ler o "Jogo", estás à vontade

...eu não gosto particularmente de ler, mas desconfio que o nosso DJ gosta. Mas na mundivisão Carcaça, ou se é da Escola Francesa (trata-se da Escola Secundária número 62 de Rennes), ou se é leitor do Jogo.

A escolha do Jogo também é reveladora. Carcaça, contaminado pelo olissipocentrismo (fui eu que inventei, e acho bonito) do Bairro Alto, mete-se com o insignificante Jogo, cuja circulação é um mero pinguinho comparada com a da Bola ou do Record - esses sim, devem ser orgulhosos representantes da Escola Francesa (vertente Universidade Aberta de Caen).

Mas isto é a minha opinião. Como diz o outro, podem haver outras.

Carcaça volta aqui à sua melhor forma, com um remate pseudo-humilde que mata dois cajados dialécticos com uma coelhada verbal só.

Primeiro, é novamente uma versão codificada de "ide-vos todos foder"; depois, é uma paráfrase requintada para apelar às simpatias do eleitorado mais rotundo do Núcleo.

Em jeito de parting shot, Carcaça lança...

Bem hajam.

...o que, claramente, significa "vão para o Inferno ser enrabados pela verga de Mefistófeles". Mas Carcaça não se contém, e pontifica em PS:

- eu não tehno nada contra os bm´s, até gosto. Era só uma imagem alusiva a certos empresários que os conduzem e que estão sempre dispostos a sacrificar o jornalismo em prol do lucro fácil

Uma tirada anti-capitalista fica sempre bem, e o Carcaça ganha pontos por louvar a excelência da tecnologia alemã. Mas logo descarrila:

práticas despuduradas das multinacionais, tão bem descritas no livro "No Logto", de Naomi Klein

A Naomi Klein descreve tão bem essas práticas despudoradas como o DJ escreve o nome do livro dela.

Para quem tenha a felicidade de não conhecer a peça, a camarada Naomi é uma pseudo-feminista vinda do mundo ultra-politicamente correcto das universidades americanas, que escreveu um livrito sobre globalização com a mesma profundidade e clarividência que as letras dos Rage Against the Machine.

A favor da Naomi há o facto de que, na sua juventude, ela era muito agradável aos olhos - esta foto não lhe faz justiça:



Mas os melhores anos dela já passaram, e ultimamente ninguém lhe liga nenhuma, excepto há uns meses quando ela denunciou o Harold Bloom (um dos maiores críticos literários de língua inglesa, e aparentemente um tarado de primeira apanha) por lhe ter galado o rabo em 1982.

Ernest - eu não gosto por aí além do Michael Moore.

Ainda bem. Já se viu que por aqui ninguém é fã.

Mas acho importante que, nos dias que correm, haja uma figura como ele. O idiota tem que cair e ele ajuda.


O verdadeiro Carcaça revela-se aqui em toda a sua glória. O Moore pode não...

ouvir o contraditório, o citar (em vez de mandar bitaites)e, muito importante, dar espaço a fontes com opiniões contrárias

...mas como é um demagogo do mesmo lado da barricada que o Carcaça e a Naomi, não faz mal, até é bom que exista. Isso da objectividade e da honestidade e não sei quê é tudo muito bom, mas o Moore tem direito a um desconto porque é preciso educar o povo que, como é do conhecimento geral, é burro.

O idiota tem que cair e ele ajuda.

O pior é que o Moore não ajuda, antes pelo contrário: demagogia e sensacionalismo só servem para fomentar mais demagogia e sensacionalismo.

Para concluir o post numa nota positiva, e como não encontro na Internet fotos da Naomi Klein nua, tomem lá isto, que ajuda mais a tratar do Idiota: GeorgeWBush.org. É mais divertido e mais educativo que o Moore.

Carcaça, agora precisamos de uma resposta! Ou te sai daí uma descompustura verbal à maneira antiga (nada de citar Naomis nem Moores, tem de ser prosa autêntica, original e com verve), ou então temos de partir para a violência física: arcabuzes (ou canecas) a dez passos.

quarta-feira, agosto 11, 2004

Abaixo a censura!



Não concordo com a decisão da revista "Focus" em publicar as gravações roubadas a um jornalista do "Correio da Manhã", mas a forma como as autoridades resolveram impedir a publicação, parando as rotativas, abre um perigoso precedente...

Mas Atenção!!! Estes gajos conseguiram as famosas gravações e preparam-se para revelar tudo online. Vai ser uma bomba! Viva a democracia!!!

terça-feira, agosto 10, 2004

Atenção: Para saltar as baboseiras do DJ Carcaça e ir directamente ao que interessa, clique aqui.
Alô alô, marciano!



Finalmente uma causa nobre. Um grupo de brasileiros resolveu lançar um abaixo-assinado pedindo ao governo que pare de ocultar o seu conhecimento sobre as "observações cada vez mais constantes de discos voadores nas mais diversas regiões do país e do mundo."

O movimento UFOs, Liberdade de Informação Já afirma: "o Brasil tem riquíssima, profunda e diversificada casuística ufológica, reconhecida até mesmo no exterior. É em nosso Território que os casos mais importantes da Ufologia Mundial ocorreram e foram por nossos ufólogos civis, com muito esforço, investigados". O ND recorda o famoso caso ocorrido na cidade mineira de Varginha.

Em homenagem a esse ilustre grupo de curiosos defensores de tão nobre causa, aqui fica uma das fantásticas letras que Charles Thompson, o maior letrista que conheço, escreveu quando resolveu lançar a sua carreira a solo com o nome de Frank Black, depois de deixar os Pixies:

Parry The Wind High, Low

And if a ship meets your car
You know you can't go real far
Well they could treat you real nice
Or put a tracking device
Way down inside

I'm checking out inventions
at the UFO convention tonight
Planes above the Hilton make it sunny
Brought my money tonight
Blue blond ladies of abduction
strumming guitars of instruction tonight
A lot of wannabe truckers
Making eyes with starfuckers tonight

I've got my hands on some sights
Electric glasses with lights
They got me feeling deluxe
For just a couple of bucks
Way down inside

I'm getting patterns from a trekker
And it sounds like soul records to me
They're waving hi from some gazebo
Waving on to Arecibo to me
I'm getting patterns from a trekker
And it sounds like soul records to me
I'm getting patterns from a trekker
And it sounds like Desmond Dekker to me

Sleep machine
In your silo
Transmarine
Things you've never seen

Parry the wind high, low

sábado, agosto 07, 2004

Holocausto açoriano II



As autoridades têm conseguido abafar o ambiente de quase guerra civil em que se encontram os Açores, mas o silêncio que paira nos media sobre o assunto é agora quebrado de forma estrondosa pelo Núcleo Duro. A nossa fonte infiltrada no Comando de Ponta Delgada da PSP continua a enviar-nos informações espantosas sobre o estado de sítio em que se encontra o arquipélago. No último relatório secreto da polícia, figurava uma história bem exemplificativa da situação:

"Esquadra da Ribeira Grande

Foi elaborada uma participação por um menor de 14 anos de idade, do sexo masculino, ter furtado do interior de um veículo, por meio de arrombamento uma máquina fotográfica, um par de óculos 2 isqueiros e 2 navalhas tudo avaliado em 138,00 euros."

De notar que entre os objectos furtados encontravam-se duas armas brancas, ou seja, os criminosos até já se estão a atacar mutuamente. É A ANARQUIA TOTAL!!! O ND já apurou que, nos Estados Unidos, a administração Bush já está a ponderar uma acção militar de ocupação das ilhas portuguesas. Michael Moore já se encontra nos Açores para filmar imagens que pretende incluir no seu próximo documentário "Queijo Flamengheit 9/11".

sexta-feira, agosto 06, 2004

Pastéis de vento
pérolas da sabedoria zen



Quando o aluno está pronto
O professor aparece

... na TVI, a fazer comentários lapalicianos e graçolas desnecessárias.

quinta-feira, agosto 05, 2004

Ora no Ernesto zumba

Ora gasta um gajo dez minutos da sua vida a expor argumentos numa série de parágrafos todos cuidadosos, dá-se ao trabalho inédito de reler o que escreveu, e depois a resposta que tem a uma prosápia tão filosofada é o Ernesto a dizer:

-a caneca é azul, é azul, e pronto.

Com o Ernesto, as coisas são como são, uma caneca é uma caneca. Não há nuances, não há perspectivas, não há subtilezas. Se eu digo que aquilo é uma caneca, não há mais nada a dizer.

Na mundivisão do Ernesto, a verdade é só uma e é absoluta. Essa certeza messiânica lembra-me de vários gajos que nunca se enganam e raramente têm dúvidas. Aposto que as canecas do Cavaco e do Bush também são azuis.

PS: Oh Ernesto, estares numa fase fundamentalista é lá contigo, mas ao menos põe a tag do bold no título caramba, não custa nada e fica mais bonito.
A caneca do Ernesto é azul II



Uma caneca azul em cima de uma mesa não é sempre uma caneca azul em cima de uma mesa. Uma das primeiras lições que eu tive de jornalismo foi no ciclo, e valeu mais que as outras todas daí por diante.

O professor mostrou à turma um vaso com um manjerico - mas podia ser uma caneca, azul e tudo - e pediu aos putos para a descreverem. E nós descrevemos: é um vaso com um manjerico.

Depois o gajo virou o vaso. No lado que não estava virado para nós havia um autocolante, com uma mensagem qualquer lá escrita. Ou seja, quem estivesse a ver o vaso de frente descrevia uma coisa; quem visse o outro lado, descrevia uma coisa diferente.

A história da objectividade é como o vaso, e a caneca. Depende de onde está o observador. E como o observador não é um robot, a forma como ele vai descrever a caneca tem a ver com os conhecimentos, as inclinações, a ideologia dele.



Imaginem outra caneca azul. Imaginem que tinham uma estatística que dizia que há 100 milhões de pessoas com fome na China.

Descrevendo a caneca de uma maneira, pode-se escrever uma notícia assim: "Há 100 milhões de pessoas com fome na China."

Descrevendo a caneca de outra maneira, pode-se escrever a história assim: "Número de pessoas com fome na China reduziu-se 95 por cento em dez anos."

(Estou a inventar os números, não faço ideia de quantos chineses há com fome ou de quantos havia há dez anos, não interessa para o caso, os chineses estão aqui só a fazer de caneca ? caneca azul, atenção.)

Ambas as histórias seriam verdadeiras. Ambas as canecas seriam azuis. Ambos os observadores seriam honestos e estariam a contar a verdade. Mas, porque a perspectiva variava, uma caneca era mais azul que a outra.



A caneca do Ernesto é azul I

Isto estava a precisar de animação, e cá temos uma bela controvérsia. Infelizmente, o Ernesto bateu-lhe com a sua costela académica, e tentou logo elevar a coisa acima do nível de sarjeta, o que é mau. Vamos lá levar a conversa para o lugar dela.

Primeiro: diz o Ernesto...

Ao contrário do que o Tibas diz

...sem que eu tenha dito tal coisa. Não disse em lado nenhum que achava que a imprensa à maneira antiga é que era bom. Também acho muito bom que a imprensa tenha ultrapassado a fase em que todos os jornais eram militantes e alinhados.

Isso não significa que todos os jornais e todas as televisões tenham de ser uma espécie de castrati sem qualquer perspectiva política.

O Independente há muitos anos, quando começou, era um bom caso português. O jornalismo deles tinha muito que se lhe diga, e não serve de exemplo; mas o jornal, nessa altura, tinha uma inclinação clara - era de uma certa direita anglófila, tinha um conjunto de valores, uma perspectiva.

Nos seus dias bons, O Independente era um jornal com um ponto de vista, mas que batia na mesma nos seus presumíveis aliados políticos. Eu não acho mal que haja jornais com uma ideologia, como era O Independente nessa altura, desde que expliquem claramente ao que vêm e sejam honestos.

A melhor publicação que eu conheço é a Economist. A Economist tem um conjunto de princípios políticos muito claros. É pró-democracia, pró-mercados livres, pró-liberdade intelectual, pró-modernidade. Tem uma ideologia humanista, libertária e liberal (no sentido clássico da palavra).

Isso não impede que a Economist seja excelente, rigorosa e perfeitamente independente. Muitos dos artigos da Economist são editorializados - por exemplo, se eles estiverem a escrever sobre os antiglobalização (olá Carcaça), deixam bem claro que não são a favor dos antiglobalização. Se estiverem a escrever sobre o Robert Mugabe, deixam claro que acham o Mugabe um gangster doidivanas.

Mas isso não quer dizer que a Economist não explique seriamente aos leitores quais são os argumentos dos antiglobalização ou do Mugabe. Conta a história, dá todos os lados do assunto, e eventualmente acrescenta o seu ponto de vista. É honesta e respeita as regras de equidade. Ter uma ideologia explícita não a torna incompetente ou propagandística.

Nem todos os jornais nem todos as televisões devem ser como a Economist, não podem nem devem. Mas não há mal nenhum em que alguns jornais e algumas televisões sejam assim.

Da mesma forma, não tinha mal nenhum que a Fox News tivesse uma perspectiva; que fosse um canal de direita, com um certo número de princípios, com uma ideologia. Era isso que dizia o homenzinho que falava no artigo do pasquim citado pelo Carcaça.

O problema da Fox News é que a coisa não funciona bem: a ideologia contamina todos os aspectos do noticiário deles, a Fox não é isenta, nem honesta, nem responsável. Mas usar a Fox para teorizar sobre os media em geral também não é justo, porque a Fox News é um exemplo ímpar e desvairado de televisão tablóide.

E com isto nem cheguei à caneca do Ernesto, que sendo uma caneca das Caldas deve ser imprópria para menores, e sendo do Ernesto deve ser pequenina. Mas já lá vamos, já lá vamos.
Núcleo alerta!



A já amplamente reconhecida vertente de serviço público do Núcleo Duro é alvo de cada vez mais pedidos de ajuda de cidadãos em dificuldades. De todo o país, chegam-nos mensagens de correio electrónico de gajos que chagaram a pensar que estavam fodidos, quando descobrem em nós uma luz ao fundo do túnel, uma oportunidade de fazer ouvir a sua voz. A todos esses amigos, o ND orgulha-se de dizer: VOCÊS TÃO MESMO FODIDOS!!! É que nós aqui só vamos publicar os apelos mais caricatos e engraçados. Tão a pensar que esta merda é o quê? Noticiário da TVI? Aqui fica o primeiro:

"Idosa necessita de ajuda

Venho por esta via comunicar-vos e solicitar-vos ajuda na divulgação de uma situação de uma Senhora Viuva idosa e Obesa moradora na Trafaria que necessita urgentemente de auxilio dado que o seu estado de saude degrada diariamente e cada vez mais se aproxima a possibilidade de imputação dos seus membros inferiores. Para alem da obesidade que a impede de se movimentar, mora no 1ºandar numa casa em risco de ruir a qualquer momento com umas escadas de madeira ameaçadoras as quais esta idosa não se arrisca a tentar subir ou desce-las. A familia de poucas posses já tentou de tudo perto da junta de freguesia, Camara M. Almada, paroquia da vila mas sem qualquer resultado ou resposta. Mais uma vez os nossos representantes governamentais não dão ouvidos a quem realmente necessita de ajuda. Resta solicitar os vossos meios de informação afim de minimamente tentar colocar esta pessoa num local seguro e de facil acesso para a sua locomoção.

Nome da Idosa : Luisa Rodrigues

Morada : (não disponivél) Fica na rua que desce do largo da Igreija para a lota-pesca da Trafaria (casa degradada bastante visivel)"

Caro amigo, o ND aconselha-o a pedir ajuda é ao dicionário de português. "Igreija"? "Disponivél"? Francamente, deviam "imputar" era a mão de quem trata assim a língua portuguesa.

quarta-feira, agosto 04, 2004

Não comi e não gostei



O novo carocha

Estava o Carcaça a falar mal dos BMW, e eu lembrei-me de um outro carro alemão que merece censura: o novo VW carocha. Na Europa, não foi grande sucesso. Na América, pegou.

Mas qual é o mal do carro? Nenhum, mas irrita-me ver a bastardização do carocha. O original era, como diz no nome, o carro do povo. Um carro simples, honesto, resistente.

Era feio, mas não tinha pretensões. Era pequeno, e com orgulho. Não tinha luxos, mas também não era preciso. Uma parte significativa da população ocidental foi concebida nos bancos de trás desses VW. Era o Rolls Royce de uma bela geração de carros utilitários que nos deu outros respeitáveis ícones como os Citroen 2CV e Dyane, o Mini Cooper (e não me falem nos novos Minis - urgh), o Fiat 600 ou a Renault 4.

É o carro do jovem privilegiado por excelência. Nunca vi ninguém a guiar um novo carocha que tivesse mais de 30 anos. Quem tem o novo carocha é um gajo (ou gaja) que o comprou porque acha que ele é giro, que é bonito, que é muito design.

Na maior parte dos casos, quem o comprou na verdade foram os pais dos condutores. Os filhos vão ao volante para comícios anti-globalização. O VW carocha versão anos 90 é um carro de yuppies, e de yuppies geração rasca.

Nunca pus as unhas num dos novos carochas, mas também não quero. Dêem-me antes um BMW topo de gama. Não guiei e não gostei.
Fahrenheit Carcaça

Amigo Carcaça, temos de polemizar outra vez. Escreve vocelência que o mais estarrecedor é a reacção ao Outfoxed do comentador da Fox News:

"Dizer que esta estação promove a perspectiva republicana é como dizer que o Papa é católico, isso é evidente. A prática de fazer jornalismo com um ponto de vista é normal nos EUA (...) Esta é uma estação cujos espectadores na sua maioria esmagadora são republicanos. Por isso, a Fox News faz uma programação virada para esses espectadores, Que é que isso tem de especial?"

O homem não está de facto a dizer nada de especial. A ideia de fazer jornalismo com uma perspectiva não é nova, nem original.

A imprensa moderna nasceu nos séculos XVIII/XIX, e nessa altura os jornais tinham todos uma perspectiva política. Estavam ligados a um grupo ou a uma facção qualquer. Mesmo hoje, na América e na Europa, a maior parte dos jornais têm uma inclinação explícita.

O Times de Londres ou o Le Figaro são tradicionalmente conservadores. O Guardian ou o Le Monde estão mais de esquerda. Na tradição anglo-saxónica, os jornais têm páginas editoriais que, quando há eleições, declaram apoio a um candidato ou a outro.

Isso não quer dizer que estes jornais não tenham jornalismo isento e de qualidade. O exemplo ideal é o Wall Street Journal: as páginas editoriais e de comentário estão completamente à direita, de um bushismo selvático. Mas as páginas de noticiário são isentas e rigorosas.

O problema é diferenciar claramente entre o que é notícia e o que é opinião. Não é um problema tão fácil de resolver como parece; um jornalista não é um eunuco, e por muito boa vontade que ele tenha, é impossível fazer uma notícia puramente objectiva.

Por isso é que em Portugal, em que os jornais são teoricamente tão imparciais e objectivos como o Espírito Santo (o da Santa Trindade, não o dos bancos), se diz que tal jornal é mais à esquerda ou mais à direita.

Um exemplo disso é o sítio onde foste buscar a frase - ou eu muito me engano ou foste tirá-la a um artigo publicado num certo pasquim aí da terra, artigo que ainda por cima mete a citação fora do contexto.

Metade da programação da Fox é comentário - talk shows em que cabeças falantes (quase todas de direita) botam faladura. Até aí, tudo bem. O verdadeiro problema que o Outfoxed põe é que mesmo na parte de noticiário eles não são lá muito fair & balanced. Mas isso são outros quinhentos.

Agora, caro Carcaça, argumentares com frases tiradas do tal pasquim de má reputação, e ainda por cima rematares com uma citação do Archie Bunker, isso não fica bem.

E esse ódio MichaelMoorista aos gajos que guiam BMs de topo de gama, isso também não está nada bem. Qual é o mal dos BMs de topo de gama? Eu gosto. Se tiveres um, podes dar-mo que eu não me importo.

P.S: Respeito pelo Carrol O'Connor, que era um actor bestial e já morreu.

sábado, julho 31, 2004

Holocausto açoriano



Os serviços secretos do Núcleo Duro tiveram acesso a um relatório de ocorrências da Polícia de Segurança Pública - Comando de Ponta Delgada. Entre crimes bizarros contra crianças e bebedeiras ao volante, os Açores cada vez mais se afirmam como o Bronx de Portugal. (O ND é alheio aos erros de ortografia, gramática, etc...)

ASSUNTO: Actividade da PSP de 23 a 26 de Julho de 2004

Detenções e ocorrências

Esquadra de Investigação Criminal

Foi elaborado um auto de notícia, por no dia 23 de Julho de 2004, na companhia de elementos da EMAT (Equipa Multidisciplinar de Apoio ao Tribunal de Família e Menores), se terem deslocado a uma residência, onde verificaram que já se encontrava uma ajudante sócio-famíliar na companhia de quatro menores, de 5, 6, 9 e 11 anos de idade, e que o menor, de 9 anos de idade, se encontrava amarrado pelos tornozelos com uma corrente em ferro, trancado com 2 cadeados, respectivamente, em cada perna, impossibilitando este de se mover com normalidade. O menor, referiu que já se encontrava da forma referida, há dois dias e que era hábito o seu pai ter tal procedimento a fim de evitar que os mesmos fujam para a residência da avô. É de referir ainda, que os pais não se encontravam em casa e que muitas vezes são deixados ao abandono e inclusivamente passavam fome.

Esquadra do Trânsito

Foi detido um homem, de 50 anos, por condução de veículo sob influência de álcool, com uma tas de 1,81 g/l.

Foi detido um homem, de 22 anos, por condução de veículo sob influência de álcool, com uma tas de 1,61 g/l.

Foi detido um homem, de 41 anos, por condução de veículo sob influência de álcool, com uma tas de 1,67 g/l.

Foi detido um homem, de 44 anos, por condução ilegal de veículo.

Foi detido um homem, de 36 anos, por condução ilegal de veículo e sob influência de álcool, com uma tas de 1,44 g/l.

Foi detido um homem, de 26 anos, por condução ilegal de veículo e sob influência de álcool, com uma tas de 1,65 g/l.

Esquadra da Ribeira Grande

Foi detido um homem, de 19 anos, por ter cometido o crime de furto de um telemóvel no valor de 200,00 euros, furto este, feito no interior de uma residência.

Esquadra da Lagoa

Foi detido um homem, de 35 anos, por condução de veículo sob influência de álcool, com uma tas de 2,30 g/l.

Esquadra das Capelas

Foi detido um homem, de 45 anos, por condução de veículo sob influência de álcool, com uma tas de 2,48 g/l.

Esquadra de Rabo de Peixe

Foi denunciada uma mulher, de 38 anos, pelo furto de 600,00 euros em numerário.

Acidentes: (26 no total)

Esquadra de Trânsito - PDL

Cinco acidentes com dois feridos ligeiros.

Esquadra de Santa Maria

Um acidente sem feridos.

Esquadra de Ribeira Grande

Cinco acidentes com três feridos ligeiros.

Esquadra de Capelas

Um acidente sem feridos.

Esquadra de Rabo de Peixe

Cinco acidentes sem feridos.

Esquadra de Povoação

Um acidente sem feridos.

Esquadra de Vila Franca do Campo

Dois acidentes sem feridos.

Esquadra de Lagoa

Seis acidentes com um ferido ligeiro.

quarta-feira, julho 28, 2004

Ouvi e gostei

Absolutamente imperdível:
«Living road» e em especial a faixa 11, «Para el fin del mundo», de Lhasa de Sela.

Pastéis de vento
pérolas da sabedoria zen



Um homem muito rico pediu a Sengai que escrevesse algo pela continuidade da prosperidade da sua família, de modo que esta pudesse manter a sua fortuna de geração em geração.

Sengai pegou numa longa folha de papel de arroz e escreveu: "Pai morre, filho morre, neto morre."

O homem rico ficou indignado e ofendido. "Eu pedi-lhe que escrevesse algo pela felicidade da minha família! Porque fizeste uma brincadeira destas?!?""Não pretendi fazer brincadeiras", explicou Sengai tranquilamente. "Se antes da sua morte o seu filho morresse, isso iria magoá-lo imensamente. Se o seu neto se fosse antes do seu filho, tanto você quanto ele ficariam arrasados. Mas se a sua família, de geração a geração, morresse na ordem que eu escrevi, isso seria o mais natural curso da vida. Eu chamo a isso verdadeira riqueza."

Não totalmente convencido, o homem pediu então a Sengai: "Ai, sim? Então, agora escreva aí algo pela sua própria felicidade."

E Sengai escreveu apenas: "Santana Lopes morre."


terça-feira, julho 27, 2004

Escutas do Núcleo
O mistério da Casa Pia



Miúdo de sete anos, cachecol do Benfica ao pescoço, a pedir explicações ao pai, em pleno Metro de Lisboa

- Ó pai, Casa Pia é um clube?
- Hã? O quê(!!!)?
- Casa Pia é um clube?
- (...) Ah, hehe, sim! Só que anda lá pela terceira divisão.
- Terceira divisão!? Poça, o Sporting é mesmo fraco. Não conseguiu nem ganhar ao Casa Pia.
- É, mas isto são só jogos de preparação. Quando começar o campeonato é que se vê.
- O Benfica também tá em preparação e empatou com o Real Madrid!

sexta-feira, julho 23, 2004

Conta outra



Acabo de ouvir o Cunha Vaz, o novo Malheiro do Benfica, a explicar a detenção do Mantorras pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), ao regressar de um estágio na Suíça. Contou a história - muito credível - de que a mulher do angolano se enganou ao fazer a mala do marido e colocou-lhe o passaporte antigo.

Segundo Cunha Vaz, as "irregularidades" detectadas no passaporte do benfiquista resumiam-se, simplesmente, à data de validade expirada. Quer isto dizer que o Mantorras saiu de Portugal, entrou na Suíça e saiu da Suíça sem que ninguém se lembrasse de verificar a data de validade do seu passaporte. Hmmmm...

Aguardamos ansiosos por que alguém do SEF venha contar a verdade e explicar se o passaporte do Mantorras com a validade vencida é o verdadeiro ou aquele outro que permite ao jogador provar que tem bem menos de 30 anos.

quinta-feira, julho 22, 2004

Pastéis de vento
pérolas da sabedoria zen
 

 
Não há nada a procurar na mente.
Tal como as pegadas que os pássaros deixam no céu.
Tal como o rastro da serpente na água depois de atravessar o rio.
Tal como o Durão Barroso a passar pela presidência da Comissão Europeia.



quarta-feira, julho 21, 2004

Escutas do Núcleo
Camelo pornográfico



Um casal de jovens estudantes africanos, à saída do metro em S. Sebastião (Lisboa):

Ela (baixinha, gordinha, de óculos, e cabelo esticado): - Eu acho que vou mas é largar os estudos e tentar uma carreira de actriz, fazer uns filmes...
Ele (meigo, passando de leve o nariz pela testa dela): - Que tipo de filme, hã? Pornográfico? Se for pornográfico podes começar a fazer já...
Ela: - Olha o respeito! Eu não disse que tipo de filme era, seu camelo!


Não comi e não gostei

Há muito tempo que não há uma nova rubrica neste blog. Proponho Não comi e não gostei - que também pode assumir as formas Não vi e não gostei, Não fui e não gostei, etc.

O crucial da ideia é: a Internet já está cheia de gente a fazer de crítico literário, cinematográfico, etc. Mas esta gente normalmente faz a batota de ter visto, comido ou experimentado as coisas que estão a criticar.

Não comi e não gostei tem uma filosofia diferente: só falar de coisas que o autor não conhece, mantendo assim a sua independência e objectividade face ao objecto criticado. Para começar: o filme "The Punisher".


"The Punisher" é baseado na personagem de BD da Marvel cujo nome, nas revistas brasileiras, era traduzido por O Justiceiro.

O Justiceiro é um ex-soldado cuja família foi morta num tiroteio de gangs. Lixado com a injustiça do mundo, o Justiceiro decide matar gangsters - não só os que lhe mataram a família, mas os outros todos que existam no mundo.

Na América, o Justiceiro teve imenso sucesso porque a revista dele apareceu nos anos 80, quando o crime nas cidades atingia o máximo e havia um público para este tipo de fantasias de vigilantismo.

Entretanto, o crime urbano reduziu-se imenso na América, e já não há motivos que justifiquem o Justiceiro, com ou sem KITT. Mas ainda se fazem filmes, como o horrível "Man on Fire", com o Denzel Washington (que não tem direito a um Não comi e não gostei, porque esse vi), cheios de violência gratuita e fantasias de vingança.

Este "The Punisher" parece estar na mesma onda. Um gajo numa fatiota palerma a matar mauzões à dúzia com requintes de malvadez. Não vi e não gostei.

terça-feira, julho 20, 2004

Táxi drástico - Filosofia de praça
 

 
Taxista, dos seus 30 e poucos, da zona de Lisboa, sobre a forma como consome os jornais portugueses:
 
Eu, no dia-a-dia, prefiro o Correio da Manhã ou o 24 Horas. Porque estou parado numa praça de táxis e consigo ler umas duas ou três notícias. Se vou ler o Público, passados cinco minutos tou a dormir. Ao fim-de-semana, sim. Em casa, descansado, sento-me no sofá a ler o Público ou o Diário de Notícias. Do Expresso não gosto. É muito papel...

domingo, julho 18, 2004

Escutas do Núcleo
Quem precisa do professor Marcelo?
 


Um velhote na casa dos 70 e um empregado de balcão de um café do Chiado (Lisboa) traçam de forma simples e concisa um diagnóstico ao panorama político actual.
 
Velhote  - Agora o Santana Lopes vai pra lá. O presidente voltou a fazer asneira.
Empregado - Olhe que o Santana não é pior que o que lá estava.
- Pois, pois...
- E o Sampaio assim livrou-se do Ferro Rodrigues.
- Ao menos isso. O Ferro Rodrigues é um cancro do PS.
- O presidente tirou-o do caminho.
- O Sócrates é que é um bom homem.
- Eh, esse!?... Bom era o Vitorino.
- Aaaah, mas esse não vai pra lá.
- Eles bem queriam, mas ele não... Ôôôô, no que é que ele se ia meter.
- O PS é só indianos. O Ferro Rodrigues é indiano, o outro é indiano... É só indianos!
- He, he, he...
- Qualquer dia já não há brancos em Portugal.
- He, he... Tamos a ir pra lá, tamos.
- Ainda os pretos pelo menos fazem alguma coisa, agora os indianos é só deitarem-se em cima do que os outros fazem.

sexta-feira, julho 16, 2004

Ainda o patrioteirismo (dedicado ao Carcaça)

«Nestas coisas do amor à pátria tenho uma noção um bocado antiquada e simplista: acho que o amor à pátria consiste em estar disposto a servi-la em caso de necessidade sem perguntar primeiro "quanto?", em declarar tudo o que se ganha ao fisco, em votar nas eleições, nem que seja em branco, em defender, por palavras e actos concretos, o seu património histórico, natural e cultural. A onda de histeria patriótica que invadiu o país a propósito do Euro deixou-me meio perplexo, como no dia 26 de Abril de 1974, ao descobrir, igualmente nas ruas, que, afinal, todo o país era composto de resistentes à ditadura. O patriotismo das emoções e das multidões é certamente mais fácil do que o patriotismo dos deveres serenamente cumpridos. Até porque o primeiro dura o espaço de um acontecimento e o segundo a vida toda».

Miguel Sousa Tavares

terça-feira, julho 13, 2004

Euro post-mortem 4 * Pão & Circo

Achei muito perturbadora a tendência durante o Euro de dizer mal de Pão & Circo. Lá vinham os chatos do costume a resmungar que isto da mania da bola era embrutecer o povo, que era o Pão & Circo como no tempo dos romanos, que o futebol é o ópio do povo, etc.

E eu pergunto: qual é o mal de Pão & Circo? Eu gosto. Os intelectuais anti-bola querem que um gajo se alegre com o quê? Com as obras de Marx e Engels? Com a poesia encadernada da Natália Correia? Com música de câmara?

Fiquei muito surpreendido com a atitude da nação sobre o Euro. Estava à espera que se prolongasse o argumentário idiota do "tanto dinheiro para estádios que podia gastar-se doutra maneira". Mas quase toda a gente percebeu que o Euro foi bestial.

Eu por mim desde o início que achava que o Euro era uma ideia magnífica. Primeiro, porque felicidade não tem preço: se custou 600 milhões de euros ter um mês de animação e alegria genuína, o dinheiro foi bem gasto.

Depois, porque a ideia de que o dinheiro que custaram os estádios e o resto da festa podia ter sido usado para tirar o país do seu atraso crónico é falaciosa. Não é por construir mais escolas que se melhora a educação, não é por haver mais hospitais que a saúde fica mais saudável; nem tudo se resolve com obras de betão, com o Estado a atirar dinheiro para os problemas.

Sobretudo, nós temos obrigações para com o resto do mundo. Da mesma forma que mandamos os nossos marretas para as festas organizadas pelos outros (os Euros, os Mundiais, os Olímpicos), também nós já tínhamos obrigação de organizar a nossa festa para os estrangeiros; já não somos assim tão pobrezinhos.

A imagem do país no estrangeiro melhorou incomensuravelmente com o Euro. Organizar um torneio destes de uma forma impecável vale prestígio; imaginam um Euro na Roménia, ou na Albânia? Para quem se importe com a imagem da nação lá fora, o Euro é uma coisa inestimável.

E até para a nossa vida cívica o Euro foi bom. É o efeito Expo; quem tenha ido a um dos novos estádios já nunca mais se satisfaz com coisas feias e feitas em cima do joelho. O Euro aumentou o nível de exigência, e não só para o futebol; quem foi aos estádios já não aceita tão facilmente mamarrachos horríveis ou serviços incompetentes.

Mesmo assim houve os conselheiros Acácios habituais. Admito que também me irritaram as bandeirinhas e os locutores de televisão com cachecóis (esta irritação parece que está na moda). Achei que os portugueses passaram ao lado do que era realmente bom no Euro por causa da obsessão com a selecção.

Mas as pessoas ficaram genuinamente contentes com a selecção, e dava-lhes real felicidade pôr a bandeirinha. Eu, que me estou bem nas tintas para a selecção, não partilhei muito dessa alegria, mas também não olho de alto para os que ficaram alegres.

Para parte da nossa classe intelectual, que detesta o país que tem, isso causou comichão ? porque é que este povo burro fica tão contente com isto da bola, eles não percebem como nós iluminados que isto da bola é só Circo? Ora porra, Pão é bom e Circo também, deixem-nos estar contentes em paz.