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NÚCLEO DURO

 

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A política é a arte de fazer alianças. É só derreter os fios de ouro roubados...







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quarta-feira, dezembro 10, 2003

De onde é que eu sou



A interrogação mais difícil que alguém que acaba de me conhecer pode fazer: "és de onde?" E como me fazem essa pergunta! Basta ouvirem um minutinho da miscelânea que é o meu sotaque. "És de onde?" É certinho.

Como responder a isto? Para a maior parte das pessoas é fácil. Mas eu, bem... a verdade é que não minto se disser que sou de Angola. Foi lá que nasci e, embora fosse ainda um bebé quando em 1975 a minha família foi forçada a deixar o país - por razões sobre as quais não reza esta crónica - meus pais fizeram questão de me incutir uma forma de estar na vida definitivamente africana. Tenho gindungo no sangue, diria.

Passei toda a minha infância e parte da adolescência no Brasil, até aos 15 anos. Foi ali que me formei como pessoa, onde aprendi aquilo que era importante na vida, onde tive os meus primeiros amigos, os meus primeiros amores. Impossível negá-lo: sou brasileiro. "Onde é que viveste no Brasil?" é a segunda pergunta mais difícil que me podem fazer. É que meu pai, por motivos profissionais, estava sempre a mudar de cidade, e nós com ele. Passámos pelo Rio de Janeiro, São Paulo (onde nasceu a minha primeira irmã), Belo Horizonte, Mococa, Ribeirão Preto (onde nasceu a minha segunda irmã), e até estivemos cinco anos na Amazónia - ainda hoje ecoam na minha memória as grasnadas dos bandos de tucanos e araras que pairavam sobre a selva cheirosa ao fim da tarde.

Desde muito cedo, habituei-me à ideia de que, por onde quer que passasse, não era dali, embora isso, para mim, tivesse pouco significado. A verdade é que os termos aprendidos em casa com os meus pais valeram-me, entre os meus amiguinhos, a alcunha de "português", que eu aceitava com muito orgulho. O que me arrancou às terras de Veracruz foi algo de muito forte. Grande parte da família estava em Portugal. Mais do que aquilo que busca a maior parte dos emigrantes, pois nunca passámos por dificuldades no Brasil, o que nos trouxe, em 1990, para solo lusitano foi o apelo das nossas raízes, profundamente cravadas no Algarve: meus avós são todos de Portimão. Quatro anos nessa cidade chegaram para assimilar algo da maneira de falar da província mais meridional do país, o suficiente para confundir quem quer que tentasse adivinhar a minha origem.

Isso foi posto à prova com êxito em Coimbra, durante os quatro anos do curso de Jornalismo, anos vividos com muita intensidade, em que me formei profissionalmente, em que conheci aqueles que são hoje os meus melhores amigos, em que encontrei o maior amor da minha vida. Voltar à "Lusa Atenas" terá sempre para mim um sabor muito especial.

Algo semelhante sinto ao voltar à Finlândia, onde estudei um ano no programa Erasmus, experiência também muito intensa, que me ensinou muito sobre o ser humano, e onde aprendi que a comunicação por vezes se realiza por formas inesperadas, que transcendem a língua, e percebi que a minha pátria pode ser qualquer uma que me aceite como cidadão e me dê condições de vida justas. Ali conheci um povo fascinante, que se organiza na base do respeito mútuo e da honestidade, um modelo de país no qual sonho viver um dia.

Hoje estou em Lisboa, onde me iniciei profissionalmente há já quatro anos, e onde tenho conhecido pessoas extraordinárias (e outras "extra ordinárias") e alguns verdadeiros amigos. É aqui que me estou, aos poucos, a estabelecer e, num certo sentido, já me sinto também um pouco lisboeta.

Dada a importância que esses sítios tiveram para fazer de mim aquilo que sou hoje, acho que a única maneira de responder de forma honesta e abrangente à pergunta do início deste texto é: "sou desses lugares todos e de todos aqueles por que irei passar".

"As Identidades Assassinas"

A respeito disto, Amin Maalouf, escritor francês nascido no Líbano, autor do livro "As Identidades Assassinas", explica de forma muito aproximada aquilo que gostaria de dizer sempre que me perguntam o que sou:

«Desde que deixei o Líbano, em 1976, para me instalar em França, perguntam-me inúmeras vezes, com as melhores intenções do mundo, se me sinto "mais francês" ou "mais libanês". Respondo invariavelmente: "um e outro!" Não por qualquer desejo de equilíbrio ou equidade, mas porque, se respondesse de outro modo, estaria a mentir. Aquilo que faz que eu seja eu e não outrem é o facto de me encontrar na ombreira de dois países, de duas ou três línguas, de várias tradições culturais. É isso precisamente que define a minha identidade. Tornar-me-ia mais autêntico se amputasse uma parte de mim mesmo?

(...) Metade francês e metade libanês? De modo algum! A identidade não se compartimenta, não se reparte em metades, nem em terços, nem se delimita em margens fechadas. Não tenho várias identidades, tenho apenas uma, feita de todos os elementos que a moldaram, segundo uma "dosagem" particular que nunca é a mesma de pessoa para pessoa.

(...) Quando perguntam o que sou "bem no fundo de mim mesmo", isso pressupõe que existe "bem no fundo" de cada um de nós, uma única pertença que conta, uma espécie de "verdade profunda" de cada um, a sua "essência", determinada de uma vez por todas à nascença e que nunca se alterará; como se o resto, todo o resto - a sua trajectória de homem livre, as convicções adquiridas, a sua sensibilidade própria, as suas afinidades, a sua vida, em suma -, não contasse para nada.
»

Nesse livro, Maalouf parte do seu caso particular para elaborar um brilhante ensaio, em que ridiculariza a loucura colectiva que, todos os dias, e por todo o mundo, leva os homens a matarem-se em nome da sua "identidade". «Quando se incita os nossos contemporâneos a "afirmarem a sua identidade", como tão frequentemente se faz hoje em dia, o que se lhes diz desse modo é que devem reencontrar no seu íntimo essa pretendida pertença fundamental, muitas vezes religiosa ou nacional, racial ou étnica, e brandi-la orgulhosamente na cara dos outros. (...) por toda a parte se faz sentir a necessidade de uma reflexão serena e global sobre a melhor maneira de domesticar a besta identitária».

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