segunda-feira, maio 31, 2004

Mexia põe-se a mexer

O Mexia despediu-se da blogosfera. Em todo o lado se chora o seu desaparecimento, o desaparecimento do amigo Mexia. É um dia triste também para o ND, que tinha nele o seu mais estimulante saco de pancada. É certo que ficam os outros cromos da pandilha, os mexiazinhos (para quem não sabe, são gajos tímidos, sexualmente inábeis, que vivem com os pais até tarde e que só falam de livros e filmes e da Spectator e dos DVD que encomendam na Amazon, e que gostam muito de frases idiomáticas inglesas). Mas não é a mesma coisa. O Mexia dava-nos luta e audiência. E embora não escrevesse tão bem como o Lomba e usasse por vezes um estilo rebuscado, é verdade que estava acima da média, e que melhorou muito depois do ND lhe passar a vigiar a ortografia.

Quem nos relatará agora, com aquele entusiasmo tão infantil, as loucas saídas ao Lux ou outras experiências igualmente singulares e super-emocionantes do tipo jantar ao lado de raparigas de umbigo à mostra e piercing no sobrolho? Quem nos relatará agora, com a mesma ousadia, a aventura da masturbação?

Por isso, é com sincera comoção que digo: Adeus Mexia, boa sorte.

A malta ainda fica por aqui, que não há meio de aparecer alguém que nos queira publicar esta merda.

sexta-feira, maio 28, 2004

Gil e o celular



Acabado de chegar de viagem, fui directo para o Hotel D. Pedro (Lisboa), onde Gilberto Gil, o agora ministro da Cultura brasileiro, iria dar uma conferência de imprensa a propósito do Rock in Rio. O protocolo decorria normalmente, quando tocou o telemóvel do cantor, que embaraçado recusa a chamada, apertando num botão que cala o aparelho.

Ninguém pareceu se incomodar e a conferência retomou o seu rumo normalmente, mas eis que escassos momentos depois "TILILILILILI...". O celular do politicantor não o deixava em paz. Desta vez, a risota foi geral com o ar atrapalhado do ministro que desafia a moda ministerial, confrontando o fato e gravata com o seu penteado rasta abaianado.

Para gáudio geral, o telefone voltou a tocar. O burburinho bem disposto dos jornalistas - muitos deles brasileiros - culminou com um pedido em coro:

- Atende aí!
- Será que é o Lula? - especulava um em voz alta, ajudando o ministro a decidir tomar uma atitude:
- Só vendo... - disse enquanto tocou noutro botão, desta vez para atender a chamada - Alô! Olha, agora não vou poder falar com você. Estou aqui no meio de uma conferência de imprensa. Me liga mais tarde...
Os olhares curiosos dos jornalistas pediam uma explicação, que não tardou em vir, sempre com o jeito simpático do músico, assim que desligou o telemóvel:
- Não era o Lula, não. Era um secretário do meu ministério...
Algo que nunca esquecerei



Julguei que aquela noite de 1987 em Viena nunca seria superada na minha memória de adepto como o mais glorioso momento do meu clube. Enganava-me. Se, por um lado, o Bayern de Munique que o calcanhar de Madjer derrotou talvez fosse um adversário relativamente mais forte que o Mónaco da última quarta-feira, a verdade é que todo o percurso que o FC Porto fez nesta edição da Liga dos Campeões em nada fica a dever ao da equipa de Frasco, Juary, Inácio, Futre e Madjer. Os comandados de Mourinho jogaram sempre como uma máquina bem oleada, tal como os pupilos de Artur Jorge - o segundo golo, de Deco, é uma jogada soberba de futebol objectivo. O 3-0 desta final parecia vir do fundo das entranhas, um bradar a toda a Europa: NÓS SOMOS OS CAMPEÕES!!!

Por pura coincidência, parti na manhã seguinte para Nice, a trabalho. À noite, tive a oportunidade de dar um saltinho até ao Mónaco. As pessoas com quem contactei e que me disseram ter torcido pelos monegascos não se incomodaram com o meu indisfarçável sorriso de campeão. Deram-me os parabéns pela forma indiscutível como o Porto conquistou o troféu.
João Miguel Tavares

A cultura em Portugal é uma quintinha, onde convivem promiscuamente artistas e jornalistas. E isto exterioriza-se sobretudo nas páginas dos jornais: nas críticas, nas entrevistas, nas avaliações estrelares, etc. Ora, é preciso dizer que há excepções. Há jornalistas que trabalham na área da cultura que conseguem manter a lucidez e a independência apesar da exiguidade da referida quinta e dos riscos que essa atitude representa. São poucos, mas existem. Um deles, porventura o mais brilhante, é João Miguel Tavares (e eu andava com esta atravessada porque, sem conhecer suficientemente o seu trabalho, há tempos, numa referência fugaz, inclui-o num grupo menos capaz. Penitencio-me por isso agora). A entrevista que fez a Pedro Ayres Magalhães (Madredeus), e a crítica do seu disco mais recente, publicadas no DNA de há duas ou três semanas, por exemplo, são duas peças notáveis. Não há rasgo poético capaz de exaltar o Prado Coelho (embora ele seja homem para isso), mas há integridade e há jornalismo de alto nível.

quinta-feira, maio 27, 2004

Escutas do Núcleo

Laranja Mecânica: Uma das ambições do Mourinho é treinar o Benfica e levá-lo a campeão
Ernesto (benfiquista): No dia em isso acontecer, eu mudo-me para o Porto
Porto

Um dos sinais do domínio portista é o facto de Lisboa estar cheia de gajos que hoje se passeiam ufanamente com cachequóis do Porto nos ombros. Em vez de serem apupados, são cumprimentados e vistos como um sinal do orgulho nacional. Longe vão os tempos do "nós só queremos ver lisbos a arder, lisboa a arder, lisboa a arder". Agora, "esta merda é toda nossa olé olé e ista merda é toda nossa olé olé".

Em jeito de homenagem, recordo o pensamento de João Pinto quando, em 87, pegou no caneco e quis fugir com ele pelo Prater afora.

- Um gajo cumu eu cum uma coisa daquelas nas mauns

Isto é lindo. Jogadores com este querer e humildade já vão sendo raros. O mesmo João Pinto que disse

- Prognósticos só no fim do jogo

disse ontem na RTP outra frase memorável, ligando-se de novo aos êxitos do FCP.
Entrevistador: Os jogadores mais velhos e com muitos anos de clube são cruciais?
João Pinto: Saun cruciais e até mesmo muito importantes para o resultado final

terça-feira, maio 25, 2004

Escutado

Carcaça, se eu fosse a ti, a partir de agora, tinha muito cuidado quando falasse ao telefone.
Carcaça, o profeta da desgraça


Recupero de um antigo diário um pequeno texto escrito no dia 21 de Janeiro de 96, era eu um estudante de Coimbra cheio de livros na cabeça. Lendo-o à luz de hoje, fiquei surpreendido com o facto de ter previsto, sem o saber, o 11 de Setembro de 2001 e outros eventos do género Certamente fui influenciado por algum ensaio que andava a ler. Já não me recordo qual seria, mas era bom. Embora considere o tom demasiado idealista, típico de um gajo que andava a descobrir por interpostas pessoas o Maio de 68 ("o sonho está quase irremediavelmente perdido": que raio queria eu dizer com isto?), mantenho a essência do que escrevi há oito anos. Na minha opinião, a civilização que o poder americano promove (ajudado por outros) É A CULPADA E OS TERRORISTAS SÃO A CONSEQUÊNCIA, como se conclui disto:


1 ? É certo que as sociedades medievais e do Antigo Regime viviam numa espécie de mitologia que se baseava no poder da Igreja e na sua ignorância.

2 ? Mas, por paradoxo, numa sociedade moderna, de informação, em que predomina o consumo e a sua ideologia, o mito continua a ser necessário. A tentativa de dessacralizar a vida, substituindo o mito pelo discurso científico falhou redondamente.
Hoje, os mitos giram à volta de personagens mediatizadas, como as estrelas de cinema ou da música. Assim, é introduzida a lógica do espectáculo, da performance. Muitas vezes aliada à do ruído, da confusão e da estupidificação geral.
Os projectos totalitários de Lei & Ordem, fundamentados na submissão do Homem a uma lógica de Estado, apostaram no mito conservador do corpo (gregos), tradição (família) e disciplina (Estado). Quem não queria participar nesta ordem redutora era, pura e simplesmente, eliminado.
Hoje, abolidos todos os projectos sistemáticos, enfraquecida definitivamente a religião, surge um ruído poderoso e aniquilador. O dinheiro é o sustentáculo da civilização capitalista. O projecto é o do sucesso individual a todo o custo. Ter é ser. As relações são deturpadas pelo poder do dinheiro, pelas hierarquias e pela marginalização. Os meios acabam por ser os fins, porque não se considera nada para além, nada que não seja mensurável ou visível. O sonho está quase irremediavelmente perdido, tudo o que é interior e profundo morto, ou só permitido a meia dúzia de artistas que funcionam como símbolos vivos duma contra-cultura que, no fundo, não passa de mais uma instituição espectacular.
A arte, a verdadeira arte, é hoje o suicídio ou a misantropia. Mataram os mitos, consideraram loucos os seus profetas. Reduziram tudo o que era "inferior" ou "primitivo" a espectáculo televisivo.
Hoje, o ruído submerge tudo o resto e os homens odeiam-se. Esta competição desenfreada é bem capaz de acabar em sangue. Se calhar, um dia, sem pretexto aparente, hordas de bárbaros virão destruir as nossas cidades. Aliás, isso já está a acontecer... [aqui penso que me referia aos saques de Los Angeles, que aconteceram mais ou menos nessa altura]

segunda-feira, maio 24, 2004

A primeira anedota do alargamento



Um polaco vai ao oftalmologista.
- Ora, então veja lá se consegue ler esta linha - diz o médico enquanto aponta para um quadro onde se vêm as letras C Z W S C K M T S.
- Se eu consigo ler? Eu até conheço o gajo!
O dilema da agenda

Tenho sempre esta sensação à segunda-feira. Um gajo não sabe o que é que deve - tem que - fazer. Chego aqui e a secretária está um caos maior do que a minha cabeça. Um dia destes vou ter mesmo que arranjar uma merda duma agenda ou uma dessas maquinetas electrónicas que os yuppies usam. Só ainda não avancei porque sei que muita coisa vai mudar a partir daí.

Um homem com agenda tem a vida tramada porque arranja sempre tempo para tudo. Um homem sem agenda, por outro lado, acha sempre, sinceramente, que está cheio de trabalho, e não há forma de provar o contrário. Um homem com agenda diz: "Epá, na manhã de quinta-feira vai ser difícil. Tenho reunião às 9h00, entrevista às 10h15, conversa às 12h25. Só se for entre as 11h12 e as 11h22" Um homem sem agenda é muito mais taxativamente vago: "Epá, estava aqui a olhar para os meus post its... Pois pá, tenho uma data de post its, o meu computador parece um canário. Para mim esta quinta-feira é impossível. Vou ter uma semana lixada."

Eu não sei. Eu funciono com a cena dos post its e também aponto em cadernos, em vários cadernos. Mas um gajo acaba por não ter uma cronologia. E depois um gajo esquece-se. Inclusive de comprar a agenda.
Escutas do Núcleo

[debate na TVI após o casamento real em Espanha. Os convidados vão comentando imagens]

Júlia Pinheiro: Aqui estamos a ver os convidados portugueses. O que é que acha do vestido da primeira-dama?
Estilista: Pois...parece-me de algum mau gosto.
Tia: Sim, também me parece
Júlia: E aqui Pedro Espírito Santo e a Pité
Tia: Sim, está muito bem, por acaso vim com ela no avião ontem e conversámos.
Estilista: O vestido é bastante próprio para a ocasião, aliás como o de todas as convidadas portuguesas, com excepção da esposa de Sampaio.
Júlia: Estamos a ver o momento em que Felipe beija Letzia na varanda. Foi um beijo muito recatado, nem sequer chegou a ser na boca...sim, confirma-se, não foi na boca, foi...
Estilista: Quase no pescoço [risos]
Júlia: Exacto, e aqui vemos um pormenor interessante, que é o facto de o príncipe usar o relógio e também a aliança na mão direita, o que não é vulgar. Isto tem alguma explicação?
Pseudo-nobre: Bom, não sei, será provavelmente uma tradição bourbónica, mas desconheço.
Tia: Como é que vê estes últimos casamentos todos com plebeias?
Pseudo-nobre: Se derem resultado, não tenho nada a dizer. Só desejo é que sejam felizes para sempre, é o meu voto.
Tia: È uma monarquia moderna...
Pseudo-nobre: Sem dúvida, a monarquia perdeu aquele carácter mítico e quase sacral que tinha...
Júlia: Mas essa é a questão, essa é a questão. É que se perde o lugar mítico e sacralizado, faz sentido continuar?
Pseudo-nobre: Evidente, porque o mecanismo em si da independência, da perenidade que o rei instila na comunidade permanece. Aquela independência dele em relação à origem da escolha, que lhe dá uma posição superior a todos os partidos e independente em relação a eles
Júlia: Eis um momento em que há de novo troca de olhares, não, não há troca de olhares, há Letizia no momento da assinatura também. Estas imagens são em diferido, neste momento o almoço da boda deste estar prestes a terminar, os autocarros para levar os convidados estão a alinhar-se aqui à nossa frente, aliás. Podemos agora vê-los na imagem e também as movimentações da polícia. Ouvem-se com frequência aviões a cruzarem os céus, ouvimos a polícia a chamar os carros dos monarcas que vão sair, é de qualquer das formas singular ouvir alguém dizer el carro de rei [risinho] del... ahn... é curioso de qualquer das formas. Cá está então a rainha a assinar. Os bourbons, os bourbons são uma família com uma vastíssima história
Pseudo-nobre: Sim, e especialmente apta, pelo menos eles sustentam esse ponto de vista, para reinar. Juan Carlos várias vezes salientou que a profissão deles é reinar, não apenas em França, mas também em Espanha, visto que após o casamento de uma das rainhas de Espanha com um Bourbon, no séc. XVIII, a varonia da casa real passou a ser Bourbon.
Júlia: Em que grau o nosso D.Duarte é primo desta família?
Pseudo-nobre: É primo por vários lados, mas pelo menos pela mulher de D. João VI, Dona Carlota Joaquina, que era filha de Carlos IV, antepassado dos reis de Espanha. Também é primo pelo lado Bourbon Duas Sicílias pela condessa de Barcelona, avó do principie das Astúrias.
Júlia: Aliás, alguém aqui comentava há pouco que quando falavam em casamento, Filipe dava como exemplo o primo Duarte...
Pseudo-nobre: O primo Duarte, é
Júlia: Que só se casou aos 50 anos. Portanto, ainda tinha algum tempo pela frente. [risos] Ora aqui temos a família Ortiz, que esteve muito bem, a mãe da noiva esteve muito bem. Imagino que tiveram uma espécie de estágio para conseguirem cumprir sem nenhuma falha todos os requisitos de uma cerimónia tão formal. De facto, o chapéu da senhora Ortiz é muito bonito.
Tia: Lindíssimo
Júlia: Chamativo e não destoa de todo, pois não Mário?
Estilista: Não, de todo. Antes pelo contrário. Uma tónica deste casamento é que havia muitos chapéus e muito originais. Muito mais do que as toiletes.
Júlia: E porquê? Os chapéus estão na moda?
Estilista: São adereços de moda em voga e a discrição desta hora impunha que as pessoas não usassem toiletes muito espampanantes
Membro do Núcleo infiltrado: Fodilhões.
Júlia: Ouvi um ruído...mas julgo que já está tudo bem. Aqui vemos a noiva a entrar na catedral, não a pé, como estava previsto, mas levada por um automóvel. Ela agora vai olhar para os jornalistas e aqui nota-se uma velha camaradagem [risos]
Tia: Aliás, ela deve conhecer vários
Júia: Naturalmente, tirando aqueles que ela terá convidado para o casamento e que estarão lá dentro. Mas aqui então ela muito simpática a cumprimentar os ex-colegas. Isto é muito bonito!

sexta-feira, maio 21, 2004

Portugal Negativo

Este artigo sobre o VPV e a campanha Portugal Positivo é impagável. O VPV tirou-me as palavras da boca. O título do texto até merece ir em letras grandes:

"Se Há Alguma Coisa de Que Nós Precisamos É de Menos Auto-estima"

Ora nem mais! Leiam o resto do texto que a coisa é gira. Eu pela minha parte lanço aqui a campanha PORTUGAL NEGATIVO. O objectivo da campanha é baixar a auto-estima nacional através do reconhecimento dos seguintes factos:

*A culpa (do atraso, da crise, da tristeza, etc.) não é dos políticos
*A culpa não é dos árbitros
*A culpa não é dos jornais
*A culpa não é dos espanhóis
*A culpa não é dos americanos
*A culpa não é do sistema
*A culpa não é do Salazar
*A culpa não é da SIC
*A culpa não é dos imigrantes

*A culpa... é nossa!

quinta-feira, maio 20, 2004

Escutas do Núcleo
Filosofia de Ponta

Um quarentão e um jovem nos urinóis de uma das casas de banho do grupo editorial Impala (que publica a Focus, Nova Gente, Maria e outras revistas).

Quarentão: - Então, já cá temos o Verão...
Jovem: - Eh, pá nem me fales. Tenho um problema com o Verão!...
- Ai, sim?
- Eu e o Verão temos um problema que está para durar por muuuitos anos.
- Atão?
- Eh, pá. É que eu ponho-me a pensar ao que o homem chegou nos dias de hoje, após séculos de evolução, como é que insiste em trabalhar no Verão!?...
- (!?) Ah, hehe...
- É um problema existencial o meu, tá a ver?
Santo Champalimaud

Parece-me que ele tem razão, comme d'habitude
Glória Fácil vs Pide vs Pacheco Pereira vs LS

Surgiu recentemente uma polémica entre Pacheco Pereira e alguns jornalistas do Público que tem como pano de fundo as torturas infligidas por soldados americanos no Iraque. Em linhas gerais, Pacheco Pereira acha que o acontecimento está a ser aproveitado politicamente para desacreditar a "coligação" e invocou um relatório produzido em 1976 onde são denunciadas torturas praticadas após o 25 de Abril por forças militares aliadas à extrema esquerda. O que pensa a esquerda actual sobre essas torturas que se desenrolaram quando em Portugal já não havia ditadura, perguntou o político. A certa altura, o nome da Pide surgiu na polémica. Pacheco Pereira apelidou os jornalistas de ignorantes por imputarem à Pide torturas que aquela polícia não praticava, de acordo com os documentos conhecidos e o "quadro mental dos agentes". Não contesto o rigor do autor do Abrupto, que é um estudioso da matéria. Mas atrevo-me a opinar: talvez a Pide não fosse assim tão branda. Alguns dos seus agentes eram particularmente brutais. Tenho um conhecido cujo pai (já falecido) foi agente da Pide. Essa pessoa está a escrever uma espécie de romance autobiográfico (disponível na net), onde relata algumas das suas memórias da infância passada em Angola. E há excertos como estes:

"Por vezes fazia deslocações num jipe com um grupo da Pide. Costumavam ir até umas sanzalas nas redondezas onde obtinham todo o tipo de alimentos gratuitamente. Mal os negros os avistavam prontificavam-se de forma azafamada a apresentar o que de melhor tinham: cabritos, galinhas, frutas, hortaliças. Ofereciam tudo como se estivessem na presença de deuses, tal era o receio das represálias. Todos aqueles negros mantinham um sorriso entre os lábios, sabe deus com que dificuldade, enquanto eram saqueados civilizadamente.
No regresso a casa quando avistavam uma negra à beira da estrada paravam o jipe e um ou outro elemento prestava-se ao amor que a negra tinha para lhe dar. Por mais do que uma vez o pai de Alex pediu que os colegas levassem a mulher para uma distância considerável, pois estava ali o filho.
Estes actos não eram apenas perpetrados pelos pides - com frequência militares e pides juntavam-se na paródia.

As formas de agressões e humilhações a que os negros estavam sujeitos eram imensuráveis. Alex lembra-se, como se hoje fosse, de um espancamento em pleno prédio residencial. Tinha ido visitar uma amiga com a mãe. Ao subir as escadas do prédio começou a ouvir gritos de profundo desespero. A certa altura sentiu na mãe o impasse, como se não soubesse qual a direcção que tomar. Os gritos continuavam a soar estridentemente. Num dos pátios de um apartamento pôde ver dois militares a fustigar com os cintos um negro todo nu. Todo ele escorria sangue, tal era a violência dos golpes feitos pelas fivelas do cinto. A mãe de Alex gritou para que parassem, alegando que aquilo era um acto de covardia e desumanidade. Os militares mandaram-na calar e que seguisse o seu caminho pois aquilo não tinha nada a ver com ela. O negro implorou: "Ajude patroa, me ajude por favor patroa!"; Para pouco depois desfalecer pelo chão tingido de vermelho. Alex vê os seus olhos perderam a capacidade de ver devido às mãos da mãe no seu rosto. O seu coração batia descompassadamente. Batia o descompasso da incompreensão e do terror. "

(...)

"A casa para onde vão habitar possui as características de um forte. Paredes com a espessura de um metro e portas blindadas com uns quinze centímetros de espessura, por três metros de altura e um metro e meio de largura. As janelas eram gradeadas com barras de ferro. Era algo colossal. Um posto estratégico da Pide, no qual se instruíam soldados denominados "flechas". Sua função era prevenir actos terroristas e fazer reconhecimentos de zonas em conflito. Num vasto descoberto realizavam as operações que consistiam em tiros ao alvo, manuseamento de granadas, técnicas de lançamento, desminagem - as minas eram as peças de artilharia mais temidas, todo o cuidado era pouco. Numa das operações um dos chefes dos flechas ficou sem as pernas. Tudo porque teve a ingenuidade/distracção de apanhar uma caneta do chão.
À noite, após os treinos intensivos, o pai de Alex reunia-se com um capitão e mais alguns superiores dos flechas, para conversarem sobre os desempenhos dos "soldados" e aperfeiçoar os esquemas de estratégia. Durante essas conversas, que iam pela noite adentro, pôde ouvir algumas histórias. Nunca conseguiu saber toda a sua essência, todo o seu teor, porque o pai ia deitá-lo por volta das dez da noite, mas ouviu-o relatar situações sobre comportamentos de colegas em relação a alguns reclusos. Três ficaram-lhe na ideia. Numa dessas descrições o protagonista era um tal de Guimarães.
Guimarães era um dos indivíduos mais temidos pelos presos, um homem sem escrúpulos e de uma frieza ímpar, a qual, adicionada à violência que o caracterizava, tornava-o abominável. Tinha o hábito de requisitar presos detidos pela organização e transportá-los em botes de borracha para lugares remotos ao longo da costa angolana. Lá chegando mandava os detidos correr, dizendo-lhes que se chegassem à floresta obteriam a liberdade. Da praia à vegetação seriam precisos transpor cerca de trezentos metros, para estarem a salvo. Guimarães prometia que não dispararia, só o fazendo quando estes entrassem nas imediações da floresta. Pedia-lhes que reparassem bem na proposta que lhes fazia, pois esta continha muitas probabilidades de fuga.
Os reclusos começavam, então, o que seria o caminho da absolvição. Porém, não estariam a mais de setenta metros e eram simplesmente fuzilados sem dó nem piedade com rajadas de G3. Pareciam tordos a cair. Outra característica cruel daquele homem impiedoso era fazer com que a vítima escavasse um buraco, cujas dimensões ele saberia ver quando estivessem, no que ele dizia de ideais. O "desgraçado" começava a cavar o que viria a ser a sua sepultura. Assim que a cova alcançava a dimensão adequada, que consistia na altura do preso, ordenava que este se metesse lá dentro, depois de lhe ter voltado a algemar as mãos atrás das costas. Enchia-o de areia até ao pescoço e abandonava-o à sua sorte.
Outro dos indivíduos temidos era um tal de Fernandes, alentejano de gema, que tinha um método algo frustrante. Seu "tratamento" para fazer falar os detidos - e é de salientar, por se tornar relevante, que só estava autorizado a exercer o tratamento a reclusos com mais de cinquenta anos -, consistia em pô-los com alguns familiares à frente, jovens de catorze anos e menos, e mantendo-os algemados e agarrados por três ou quatro guardas, socava-os a nível do estômago até que cuspissem sangue, tivessem ou não já dito a verdade.
De todos o mais cínico era o método utilizado por um tal de Santos. Era quase impensável o que este indivíduo era capaz de fazer. Quando um preso se apresentava à sua guarda, depois de ter preenchido um formulário e ser devidamente fotografado, Santos conduzia-o ao que iria ser o seu novo lar. O que os infelizes não adivinhavam era o que lhes estava prestes a suceder. Santos tinha uma maneira simpática de abordar os reclusos. Perguntava-lhes o nome, o que é que haviam feito, como se não soubesse, num tom de voz de compaixão ? deixava transparecer ao preso que estava perante um amigo que velava pela sua integridade. Ao chegar à cela abria-a e mostrava o que viria a ser os novos aposentos do recluso. Porém, o que Santos mais parecia estar interessado em mostrar ao novo inquilino era o quarto de banho/latrina. Havia algo na sua expressão que se adulterava com o convite e a proximidade do recinto. Como os reclusos nada podiam fazer, seguiam-no. Lá chegando mostrava-lhes alguns escritos nas paredes ? recordações de outros que por lá transitaram. Depois, sem querer, deixava cair um porta-chaves no buraco da cagadeira e, mostrando-se admirado com a distracção, pedia-lhes amavelmente que fizessem o favor de o apanhar. Assim que os infelizes colocavam a mão, e parte do braço, dentro do buraco, na tentativa de reaver o chaveiro, dava-lhes um tremendo pontapé ? podia ouvir-se o som dos ossos a fracturar. Não se ficava por aqui! Desferia-lhes dois, três, quatro pontapés quebrando-lhes o braço em várias partes. O que não é menos de salientar, é que só teriam direito a "assistência médica" na manhã seguinte? muitos desmaiavam durante a noite."


terça-feira, maio 18, 2004

A questão do mérito



Tirando a questão da desculpabilização dos técnicos em relação ao que dizem após os jogos por estarem nervosinhos, com a qual não concordo - acho que a hipocrisia desses pacóvios é uma indesculpável falta de respeito para com os colegas, adversários, adeptos, etc. - não há verdadeira matéria para discussão entre mim e o Zizou.

A análise do merecimento da vitória por esta ou aquela equipa é tão subjectiva quanto discutir se a maçã é melhor que a banana. O melhor exemplo de que me lembro para demonstrar isto reporta-nos a um Argentina-Brasil do Mundial de 1990. A selecção "canarinha" passou o jogo inteiro ao ataque. Careca e Alemão deram um festival de bolas nos ferros e o frangueiro argentino Goycoechea fez defesas impossíveis. Até que a uns escassos minutos do fim, num brilhante lance de contra-ataque, Maradona ofereceu a bola a Caniggia, que com uma frieza letal matou a eliminatória.

Contra a opinião da maioria das pessoas, acho que a Argentina não só mereceu a vitória como mostrou a grande magia do futebol: a esperança que qualquer equipa pode ter no golo redentor, a hipótese de o David derrotar o Golias. Que seca seria a modalidade se as vitórias fossem decididas por um júri que desse nota artística e técnica às equipas!
Ó Vostradeis, Vostradeis...

Claro que não foi pelo árbitro, mas por culpas próprias, que o Porto perdeu a Taça, mas a rábula do Mourinho é compreensível ? o homem estava frustrado e nervoso e ninguém lhe pode levar a mal alguns excessos. Mas há que reconhecer que a arbitragem esteve longe de ser perfeita, embora os erros tenham sido repartidos.
Mas o que me surpreende é que digas que, «ao contrário do que disse José Mourinho, foi merecida a derrota do FC Porto na Taça de Portugal». Merecida?! Como pode alguém dizer semelhante barbaridade, depois de 100 minutos de clara supremacia do Porto contra 20 minutos de superioridade do Benfica? O que fez o Benfica para merecer ganhar? A «paciência», «concentração» e «humildade» de que falas não são atributos suficientes para justificar uma vitória. Então e a enorme disparidade na qualidade de jogo, a diferença nas oportunidades criadas, o domínio do adversário mesmo com 10 jogadores...? O Benfica ganhou porque teve sorte e o resto é conversa!
Mourinho e o desperdício



Ao contrário do que disse José Mourinho, foi merecida a derrota do FC Porto na Taça de Portugal, diante de um Benfica que compensou com paciência e concentração o que lhe faltou em futebol e bateu claramente o adversário em humildade. Lamentável a reacção do treinador portista em relação à arbitragem, que esteve à altura do jogo. Mourinho voltou a mostrar que a este nível não é melhor que qualquer representante da "geração bigode" de treinadores portugueses, que semana após semana repetem a mesma choradeira do penalti mal marcado e do fora-de-jogo mal assinalado. E sem necessidade. Um treinador de sucesso como ele inegavelmente é teria mais valor se não fosse pedante.

Na final do Jamor, o FC Porto teve o jogo na mão. Marcou primeiro mas não soube gerir. O Benfica empatou sobretudo com mérito próprio, numa bela jogada. Faltou então paciência aos "dragões", que na segunda parte poderiam facilmente impor o seu melhor futebol. Jorge Costa foi infantil, pra não dizer burro, no lance em que viu o vermelho. Mourinho podia ter falado disso, reconhecido o mérito do adversário e mais nada. Como um homem. Preferiu ser mais uma menina nervosa. Um grande treinador que desperdiça uma boa oportunidade de ser também um grande senhor. Uma pena.

segunda-feira, maio 17, 2004

Regressos

Gostaste do regresso do Cristóvão, foi. Então e qual era o jogo?
Escutas do Núcleo


[um diálogo entre três cinquentonas, sentadas num banco de jardim. Os nomes destas matronas são fictícios]

Maria: Mas olha que eu também não tenho pena nenhuma deles, eu conheço aquela raça, já convivi com eles. Aquilo é como os burros, só vêm lá o alá ou o alé ou lá o que é e querem impor aquilo a toda a gente. Depois rebentam-se e acreditam que estão à espera deles no céu sete virgens...
Luísa: Se eles nem vivos conseguiam dar conta desse recado, quanto mais mortos [risos]
Maria: Ò filha, entre aquela gente e os americanos o diabo que escolha e ficava bem servido... Então não viste o que eles fizeram àquele americano, cortaram-lhe a cabeça ali num instante? Era um inocente, um civil que só foi para lá à procura de trabalho, foi para ganhar a vida. Então e àqueles quatro que eles arrastaram pelo chão e depois penduraram em cima de uma ponte. Aquela gente é má.
Júlia: O que me admira é que aquilo andam para lá a morrer aos milhares e a gente continua a ver na televisão aquelas multidões, parecem formigas...
Maria: Aquilo são mais que às mães. Aquela raça é como os pretos, nascem de debaixo da terra...
Luísa: Qualquer dia ainda começam a vir para aqui, isto que já está tão atafulhado de gente.
Júlia: Eu só tenho pena das crianças e dos idosos, que não têm culpa de nada e levam por tabela
Maria: Ò querida, eu já vi tanta coisa neste mundo que estou calejada. Já não me faz pena. Então aquelas crianças têm dois anos e já andam com metralhadoras na mão. Aquilo são bombas relógio. Eu só vos digo uma coisa. Não sei o que é que as tropas portuguesas andam lá a fazer. Se eu tivesse algum familiar próximo que fosse morto lá por causa dos que o mandaram para lá, o primeiro-ministro era o primeiro a morrer. Só se eu não pudesse, só se eu não pudesse...

[um instrutor da tropa a discursar para os recrutas]

Sei que muitos de vocês estão aqui contrariados. Andam para aí a dizer que a tropa não serve para nada, a questionar a utilidade desta instituição. Mas eu digo-vos uma coisa: no dia em que os espanhóis, ou os árabes ou o caralho entrarem por aqui adentro, eu quero ver o que é que essa gente diz!


domingo, maio 16, 2004

Grande regresso!

Estou eu a ouvir o relato da Taça, e cá está o grande Ribeiro Cristovão a fazer o relato na Renascença! Grande notícia: desde que me lembro de existir que ouço a bola na Renascença, já tenho saudades de ouvir as vozes do Cristovão e do Pedro Azevedo.

Mas o homem não era deputado agora? Então um tipo pode ir da Assembleia para o Jamor fazer relatos?

sábado, maio 15, 2004

Major Tom III

Para os vários milhões de fãs do David Bowie que seguem o Núcleo: não é que o homem se tenha tornado numa criatura embaraçosa com a idade (tipo o Paul McCartney ou o Michael Jackson), mas acho que o melhor que ele fez foi tudo até ao final dos anos 70.

Nos anos 90, os melhores discos do David Bowie não foram feitos por ele. Foram feitos pelos Suede (embora os Suede também roubem descaradamente aos T-Rex) e, por muito esquisito que pareça, pelo Marilyn Manson (este disco é metade "Space Oddity", metade "Ziggy Stardust"). Ouçam esses discos, que eles provocam muitos "momentos Zizou".

sexta-feira, maio 14, 2004

Major Tom II

É curioso, Tiberius, que tenho andado a ouvir essa música, que está incluída num CD pirateado onde gravei várias velharias do Bowie. Se bem me lembro fui repescar isso por causa de um post antigo do Zizou, no mesmo sentido. E, de facto, meu deus, que música! Arrepio-me todo quando o gajo diz "tell my wife i love her very much she knoooooows".

É uma história belíssima, simples, épica, e tem um som que vem lá da lua. Quando venho para o trabalho e ponho aquela merda a bombar, até parece que o caralho do Corsa ganha asas. Uma das melhores músicas de sempre!

Ground Control to Major Tom

Ao Zizou é que costumam acontecer destas epifanias, mas há bocado também tive um "momento Zizou". Estava a ouvir "Space Oddity" do David Bowie e a pensar que há obras de arte perfeitas e que o conceito de um tipo ser imortalizado por uma coisa que ele escreveu não é assim tão piroso como isso.

"Space Oddity" (é aquela do "Ground Control to Major Tom") é uma música perfeita, até no sotaque cockney que o homem tinha há trinta e tal anos. Foi a primeira canção do Bowie a tornar-se conhecida, e embora ele tenha feito outras coisas giras, nunca mais fez nada tão bom.


For here am I sitting in a tin can
Far above the world
Planet Earth is blue
And there's nothing I can do


Um gajo pode passar a vida toda sem fazer nada de jeito, mas se tiver escrito alguma coisa como "Space Oddity" a existência dele já teve significado.


This is Major Tom to Ground Control
I'm stepping through the door
And I'm floating in a most peculiar way
And the stars look very different today


O mais giro é que eu nem tenho certeza se percebo o que o homem está a dizer. Se calhar a música não tem nada a ver com um astronauta sozinho no espaço e é uma metáfora para as experiências alucionogénicas ou para as aventuras homossexuais do Bowie, mas não interessa. É uma música bestial na mesma. Ide ouvi-la.

P.S: E também gosto muito do "Starman".
Um grande livro, apesar da advertência do cosmos

Como estou de folga e está sol e calor, fui até à Costa Nova, onde me instalei numa esplanada quase deserta (Atlândida, pastéis de nata do melhor, sempre quentes e com um frasco de canela à disposição). Abri um livro que ando a ler; folheadas umas páginas, oiço um som discreto e abafado: algo tinha-se vindo abater numa das páginas. A princípio pareceu-me o cadáver de um insecto que calculou mal a trajectória do voo; depois? bem, depois percebi que um pássaro estúpido me tinha cagado o livro.
Poderia interpretar o incidente como uma advertência celestial sobre a qualidade do livro, uma mensagem tipo «esse livro é uma bela merda». Acontece que «A epopeia da expedição amarela», de um sujeito chamado Jacques Wolgensinger, é cativante e merece ser lido.
Já cheira a caneco!



Estou a contar os dias para a final da Liga dos Campeões. Depois do que o FC Porto já fez na edição deste ano, ia saber a morte na praia perder com o Mónaco, embora reconheça que os franceses também estão a jogar bem e aquele Morientes é um perigo!

Por falar nisso, apetece-me deixar aqui uma nota sobre a meia-final com o Corunha. Sei que já passou algum tempo, mas ao menos ninguém me pode acusar de dizer as coisas a quente. O mesmo já não se pode dizer da reacção da imprensa espanhola ao desfecho da eliminatória. Acusaram os "dragões" de antijogo e dureza e até criticaram uma arbitragem limpinha do Collina (muito pior esteve o árbitro da primeira mão, nas Antas). Enfim, não digo que os portugueses não fizessem o mesmo se o resultado tivesse sido favorável aos galegos, mas o que se viu em Espanha, como diria Jaime Pacheco, pode ser resumido numa palavra: Mau perder.

Em homenagem à grande esquadra mourinha, aqui fica um belo conto dos Irmãos Grüne:

A lêndea de Gelsenkirchen

Diz a lêndea, com o consentimento do piolho, que a cidade de Gelsenkirchen, muito antes de assim se chamar, era um povoado florido e perfumado, onde a sofisticada civilização dos visigodos se dedicava à jardinagem, à meditação e às belas artes. Até que um dia vieram as invasões cristãs e os habitantes da aldeia assistiram à construção de uma catedral gótica, que o povo, que mal tinha para comer, teve de pagar à custa grande sacrifício. A dieta de um cidadão era baseada sobretudo em centeio e couve branca, o que vulgarizou uma prática intestinal geralmente tida como rude: o flato.

Os párocos que celebravam as missas, assim como a generalidade da população, não se continham nem durante os serviços religiosos e cedo a terra foi baptizada de Gelsenkirchen (do germânico gels - gás - e kirchen - igreja). O povo assumiu sem complexos as suas ventosidades e não demorou para que toda a nomenclatura clerical fosse adaptada. O padre passou a ser o "peidre", indivíduo que conseguia dizer um "Padre Nosso" todo num único arroto, ao mesmo tempo em que "se abria", peidorristicamente falando. A sacristia foi substituída pela "traquistia". Ali era preparada uma feijoadola que servia para acompanhar a "bóstia" - uma bolachinha de centeio que era tomada no final da missa perante as palavras do peidre: "O cocó de Cristo".

Muito antes da invenção do futebol, havia um anfiteatro romano, no local do actual estádio do Shalke 04, onde eram disputadas as Olimpeidas, os campeonatos locais de piroflato, uma modalidade que consiste na libertação de bufas contra um fósforo aceso. O autor da maior labareda era sagrado vencedor.

É sobre este terreno cheio de história e tradição que o FC Porto irá espalhar o perfume do seu futebol. A quipa portuguesa já está certamente a sentir o cheiro do troféu. Eperemos que entre a todo o gás.

terça-feira, maio 11, 2004

Beyoncé ou Kelis

A questão é complexa. Beyoncé ou Kelis? É difícil escolher. A Beyoncé tem aquele quadril, aquelas pernas enormes e parece-me imbatível no golpe de anca. Em princípio seria a vencedora. Mas acabo de ver a Kelis naquele teledisco que está a passar na MTV e fiquei na dúvida. As maminhas a saltar, o ritmo "nasty", a sexualidade da própria música (muito boa por sinal, o que não surpreende), a forma despudorada ("the blowjob eyes") com que olha a câmara, a intelectualização da animalidade, a animalização da intelectualidade. Não sei, não sei...
É por isto que se deve ler o Nuno Ferreira:

Parabéns Gonçalo!
Ontem, o Gonçalo, o meu filho mais novo, fez 13 anos. Sim, passámos o dia a ouvir Avril Lavigne, a comer pizza e a beber Ice Tea Lipton. A mãe estava no estrangeiro por isso tirei uma folga para ficar com ele. À tarde, fomos gastar uns euros no salão de jogos da Rua dos Pescadores, na Costa da Caparica. Aos dias da semana, a costa enevoada e fria, parece ainda mais desolada. Mas temos o salão todo por nossa conta. As máquinas sorveram-nos uns euros. A mim, a dar conta dos recordes do Trivial Pursuit e a ele, nos quizzs de futebol. Mas o pior foi à noite. O Pedro, o mais velho, não sabia a letra toda do Parabéns a Você. Eu também não. A parte final foi arrrastada e murmurada. Depois, O Gonçalo levou uma eternidade a apagar as velas do bolo. Soprava, ria, soprava, ria mais e assim sucessivamente. Mas eu acho que ele gostou que eu deixasse que ele faltasse às aulas da parte da tarde. "Hmmmm, estou a sentir-me mais relaxado", disse-me no salão de jogos, "já vou poder encarar as aulas amanhã de outra forma..."


Já que estamos em maré de elogios, parabéns ao Mar Salgado, que fez anos. Os durões aqui do Núcleo, que completaram um ano e nem deram conta, deviam pôr os olhos nesta rapaziada, imbatível na assiduidade.

PS1: Oh Carcaça, Carcaça, CARCAÇAAAAAA!!!!!!!!! Pára de carregar na merda da tecla que diz Publish!

Sábado

O Núcleo saúda o surgimento de mais uma "newsmagazine", que se vem juntar às já existentes Visão, Focus e Tempo. O primeiro número deixa antever uma publicação muito contaminada pelo discurso televisivo e mais dada à imagem do que ao conteúdo. Parece-me que vou continuar a comprar a Visão...
Estes primeiros números têm sempre graça. Quer-se dar a ideia que toda a revista foi "imaginada e arquitectada com muita antecedência" e que se fizeram sucessivos números zeros para aprimorar todos os pormenores. Mas, se virmos as páginas reproduzidas em pequeno na edição de apresentação - por entre fotografias de directores e redactores compenetrados -, constatamos que há textos deste teor:

Título: Rock 50 anos
Lead: Para muitos de nós a música é algo que está dentro dos nossos ouvidos e dos nossos pais, amigos e outros. Olha que este texto é simulação. Não estejas a ver e a ler com olhos de mas sim com olhos de a música é algo que está dentro dos nossos ouvidos e dos nossos pais, amigos e outros

Título: Conheci Tom Cruise
Lead: As principais actividades económicas no perímetro do Parque à sua volta são a agricultura a pastorícia e a pecuária. As aldeias situam-se principalmente em chãs (pequenos planaltos) possibilitando assim a agricultura. Quando isso não sucede, então recorre-se à plantação em socalcos 288

Título: Hospitalizado
Lead: Durão Barroso, primeiro-ministro da Zâmbia, com o prémio Príncipe de Gales pelo trabalho científico que desenvolveu ao longo dos últimos dez anos no Governo. A obra vendeu três discos na rua onde vive.

Título: Até quanto?
Lead: Este pode ser mais um dos detidos em todo este processo infindável de militantes pedófilos ao abrigo da lei dos esburacados

Título: Alargamento da Europa dos 15
Lead: As principais actividades económicas no perímetro do Parque à sua volta são a agricultura a pastorícia e a pecuária. As aldeias situam-se principalmente em chãs (pequenos planaltos) possibilitando assim a agricultura. Quando isso não sucede, então recorre-se à plantação em socalcos 288
Frases Usadas

"Com o major em Gondomar e o PSD no Governo, imaginem o que isto seria!"
Durão Barroso, na campanha para as legislativas de 2002

segunda-feira, maio 10, 2004

quinta-feira, maio 06, 2004

Escutas do Núcleo

[um universitário a beber cervejas com colegas]

«Classe! Classe! A classe é uma coisa para apresentar aos pais da namorada, não é para aqui. Aqui eu quero que se lixe a classe! Quero arrotar e peidar-me à vontade!»
Noites do parque

Tens razão, Vostradeis. Já lá vai o tempo em que as noites do parque (ou lá como é que aquilo agora se chama) de Coimbra tinham cartazes interessantes. Foi no início dos anos 90, quando não tinha eclodido ainda o fenómeno dos festivais de Verão, com os seus ricos cartazes. Nessa altura, Coimbra era o melhor festival de pop rock do país. Para além de todas as grandes bandas nacionais, passaram por lá Iggy Pop, Jesus and Mary Chain, Heroes del Silêncio, La Frontera, Loyd Cole, dEUS, Smoke City, Manic Street Preachers, entre outros. Mais recentemente estiveram lá os Thindersticks, John Spencer Blues Explosion e os Divine Comedy. Na latada houve concertos inesquecíveis de nomes como Morphine e Violent Femmes.
Quem olha para o programa deste ano não pode deixar de notar uma pobreza confrangedora. Só há bandas portuguesas, algumas de segunda linha, outras já vistas 500 mil vezes (Xutos, Rui Veloso, Jorge Palma...). O único concerto interessante do palco principal é o dos Clã, que apresentam um novo álbum. Felizmente ainda há os tipos da Rádio Universidade na organização do palco dois. Em resumo, a festa tornou-se maior, mais comercial e deixou de se apostar num bom cartaz de bandas. Suponho que os organizadores pensem que a audiência vai lá essencialmente para "se divertir" e para os copos, estando-se a borrifar nas bandas. Os últimos anos deram-lhes razão. Cartazes mais fracos não significaram menos afluência de gente, pelo contrário. Eles estão lá batidos na mesma. Mas "no meu tempo" era mais giro. Para além de apanharmos espantosas bebedeiras, eu e os meus amigos desfrutávamos de grandes momentos musicais antes de, exaustos, cairmos na relva do jardim (e não na lama do mal amanhado "queimódromo")

terça-feira, maio 04, 2004

Nuno Ferreira

Chegou à blogosfera um dos melhores repórteres portugueses e o mais vibrante crítico de música "country" (eu sei, parece um contra-senso...) que conheço. Nuno Ferreira, jornalista do Público, doente benfiquista, é o homem das estradas perdidas que levam à América profunda, à crónica marginal e à reportagem crua. Obrigatório.

segunda-feira, maio 03, 2004

Muito fraco



O programa da Queima das Fitas deste ano arrisca-se a ser o pior de sempre. Denota uma aposta cada vez maior no mercado nacional, o que já de si indica a merda que é. Tirando Da Weasel, que mesmo assim também já esteve melhor, o resto dos cabeças-de-cartaz é uma merda: Blind Zero, DJ Vibe e os fossilizados Rui Veloso, Luís Represas, Quim Barreiros, Xutos e Pontapés e Jorge Palma (OK, este ainda tem uma ou outra).

Aquele que já foi o maior festival musical do país, no tempo em que vinham a Coimbra nomes como Violent Femmes, Tindersticks ou Deus, aparenta estar em franca decadência. Mais, o calendário contribui para a guetização do público: Luís Represas toca na mesma noite que Mafalda Veiga, há uma em que os "artistas" são Iran Costa, Mónica Sintra e Quim Barreiros, etc...

Isso é como se a estudantada passasse a beber Trinaranjus nas Noites do Parque. No meu tempo, a Queima era a festa que tinha o recorde nacional do consumo de cerveja.
Revelo em primeira mão esta malha que surgirá no próximo álbum dos Pão & Circo. Reparem no refrão...

A bem da polícia

Sentados nas esquadras
verilhas urticantes
heróis da criançada
terror dos traficantes

Oh, Senhor Agente,
a gente é do Senhor!
Bandidos vão à frente
do chui enrabador

No meio da correria
deu um tiro no refém
Mas é gente de bem
que sa foda a pontaria!

Polícia dá na tola
Polícia mata e esfola
Polícia só não vai à bola
Com os manos de Angola


Polícia, polícia, polícia!

Polícia dá na tola
Polícia mata e esfola
Polícia pisa com a sola
Os putos que cheiram cola


Polícia, polícia, polícia!

É gente de bem,
é gente de bem,
é gente de bem!

[Letra: Vostradeis / Música: Ernesto]
Fotos Iraque

As fotos de soldados americanos a torturarem e a abusarem sexualmente iraquianos são revoltantes, mas não de todo inesperadas. O mais ridículo é a pose infantil dos soldados, de polegar erguido ao lado dos prisioneiros torturados, como se posassem ao lado do rato mickey na disneylândia.
Não são inesperadas porquê? Porque sempre foi assim nas guerras, onde não há bons nem maus Por exemplo, no fim da II Guerra Mundial os soldados russos que libertaram Berlim violaram e saquearam indiscriminadamente. Os soldados portugueses também cometeram muitas atrocidades em África. A guerra é a barbárie, o que não desculpa tais comportamentos. É quando um homem pode dispor em absoluto do destino de outro que se vê a sua qualidade. A velha máxima "não faças ao outro o que não gostarias que te fizessem a ti" raramente é seguida.
"Domingo sem Deus", do Quinteto Tati:

"Todo o dia e sem parar, ele ouvia uma mesma voz que dizia: ´"Foge para o mar! Aqui estão todos sós!"`Quando a peste da solidão se abateu sobre o seu olhar, recusou e disse que não: Que era o medo de amar. E fugiu, voltou para casa sem um pio, sem um som, engoliu a madrugada e dormiu e sonhou, já o dia gritava: ´"Vem, vem! E gasta essa esperança, seu filho da mãe! Esquece essa coisa do mal e do bem! E gasta-te todo e a tudo o que tens!"` E acordou, acordou sem cedo ou tarde: Murmurou, tropeçou, pela casa, pelo carro, e avançou pelo cais, já as águas chamavam: "`Vem, vem! E gasta essa esperança seu filho da mãe! Esquece essa coisa do mal e do bem! E gasta-te todo e a tudo o que tens!"`
J.P. Simões
Escutas do Núcleo

[dois tipos alcoólicos em tarde de ressaca, ambos com vozes roucas e aspecto negligenciado, tomando um café em Lisboa. A conversa decorre no dia 1 de Maio, data do alargamento da União Europeia]

Isto é um filme chungoso, mas é a realidade. Andam para aí a mandar foguetes não sei para quê, nós estamos ainda mais lixados. Então não é evidente? Esses tipos de Leste já estão todos aqui, são trabalhadores qualificados e trabalham por metade do preço! Por metade do preço! Elas no ataque e eles na estiva... Mas não é só o facto de já cá estarem. Eles agora nem precisam de sair de lá. O investimento vai ter com eles, vai todo para Leste! Com aqueles salários, regimes fiscais e subsídios da UE é claro que as empresas vão começar a deslocalizar para lá. Então se eles são muito mais qualificados do que nós! Isso também quer dizer que potencialmente trabalham melhor, está mais do que visto! Nós aqui fomos mantidos no analfabetismo durante muito tempo, não foi só com o Salazar. Agora são as novelas e o futebol, mas no fundo é a mesma chungaria. Isto qualquer dia a solução é vender os Açores e a Madeira aos alemães e aos ingleses, ou mesmo aos espanhóis.

Para mim música são os Pink Floyd. Pink Floyd e Génesis.

[Conversa entre dois guionistas, um deles em momento de inspiração]

- Isto está bom, está simples...
- Achas? Pois, isto na escrita de guiões a... a simplicidade é a flor do segredo.

[conversa de velhotes à esquina de uma rua. Falam do Sporting-Benfica de ontem]

Sabe, isto estádios sem redes é o que dá. É para gente civilizada. Agora aquilo é mau perder. As claques são ordinárias. Depois de um golo daqueles, que é um hino ao futebol, poêm-se a invadir o campo. Tristeza...