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NÚCLEO DURO

 

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A política é a arte de fazer alianças. É só derreter os fios de ouro roubados...







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sexta-feira, maio 26, 2006

Em homenagem ao Tiberiusinho, junto seguem dois momentos de paternidade:

O primeiro banho.

Esse é um dos momentos de realização última de qualquer pai. Dias depois de nascer e da mãe já lhe ter ministrado os necessários cuidados de higiene, coube-me a mim dar-lhe o primeiro banho na minúscula casa de banho do meu minúsculo apartamento. Ficou tudo registado on tape pelo que as memórias são regularmente avivadas. Eu era mais magro mas mais desconfiado dessa coisa de garotos. A expectativa era imensa e o volume de visitas ao meu estabelecimento faziam inveja à rua do DIAP em tempo da Casa Pia ou à assistência do Vasco da Gama de Boleiros (que subiu este ano de divisão). Perante a assistência peguei no meu pequeno rebento (porra, como ele era pequeno) e tentei agarrá-lo com o indicador e o polegar pelas costas, como li numa edição golden da ?Pais e Filhos?.

Sem sucesso, reconheço. O puto escorregou das minhas mãos como se de uma pista de ski se tratasse e mergulhou na água tépida com detergente antibacteriano próprio para a sua pele. Assustado tentei agarrá-lo mas a película suave e hidratante da água cobria-o e após o agarrar pelo calcanhar, como Tetis fez com Aquiles, deixei-o cair de novo com estrondo. Após algumas tentativas de desesperado e perante os gemidos de incómodo que ele manifestava lá o consegui segurar com os dois braços e o queixo, como uma tenaz fixa.

Farto de não o conseguir lavar, decidi colocá-lo sobre o fraldário para o começar a vestir. Brinquei com ele, limpei-o e pus-lhe um outro creme, hidratando-o tanto que ele poderia passar pelo ralo da banheira sem qualquer fricção. Virei-me de costas para ir buscar a fralda (as melhores são as Dodot, ouviste tiberius?) e ele sorria como um inocente. Quando me viro, sinto um calor no peito anormal e pensei que, por causa da tensão, estava a ter algum tipo de enfarte. Mas, ao sentir que o calor não subia até à cabeça mas escorria até ao abdómen, percebi que não era um problema cardíaco mas sim urinário. E do meu filho que sorria contente, olhando para a minha figura.


O meu primeiro choro.

As primeiras noites foram santas. O puto mamava à 01:00, depois acordava ás 06:00 e o mundo era bom, seguindo o seu curso na Era Quaternária. No entanto, numa dada madrugada, a criança (consequência de algum espermatozóide mais noctívago, daqueles que não saíram para os lençóis quando eu tinha 13 anos) decidiu abrir os pulmões e cá vai disto. Não eram dentes, não era fome, não eram cólicas (bendita groselha em tubos que os médicos receitame lhe calam essas dores), nem sequer fralda suja. Era apenas a vontade de gritar, associada a algum jetleg mal feito desde o útero da mãe. O desespero apossou-se de mim, que tinha de acompanhar uma visita do Gugu (Guterres) um pouco mais tarde nessa madrugada.

Peguei na criança, sacudi-a violentamente enquanto tentava berrar mais alto do que ele. ?O QUE É QUE QUERES? CALA-TE MERDA! AINDA TAMANDO PELA JANELA!? Depois, olhei para o espelho do quarto e vi-me, aterrorizado, qual Nosferatu sem a cara pintada. Eu era um criminoso, um Anthony Hopkins (mas sem papar a Jodie Foster), um Vítor Jorge das Almuinhas. Dei a criança à mãe e fugi. Fugi de casa e de carro pela cidade às 05 da manhã, como um lobo acossado. Parei somente numa barraca de bifanas à porta de uma discoteca para comer uma sande de carne assada e beber uma bejeca.

Agora, mais recomposto, decidi dormir no carro à porta de casa, aguardando pelo momento em que iria enfrentar o primeiro-ministro da nação, na ressaca do primera tentativa de pensamento de homicídio qualificado do meu filho.

11 Comments:

Anonymous professor de literatura da faculdade de letras de lisboa said...

Mais um texto antológico. Alguém consegue parar o ElCablogue na sua ascensão como romancista de primeira água? Parece-me difícil. Uma revelação. Para quando o original, mande-mo se faz favor para a secretaria da faculdade. Eu tratarei de fazer com que seja publicado.

26 maio, 2006 16:30  
Blogger ElCablogue said...

vai pó... Ó Vostra

26 maio, 2006 16:51  
Anonymous professor de literatura na faculdade de letras de lisboa said...

e irrascível, só como os grandes auteurs são...
Gosto de si, parece-me um escritor genuinamente português

26 maio, 2006 16:59  
Blogger Tiberius said...

Peguei na criança, sacudi-a violentamente enquanto tentava berrar mais alto do que ele. ?O QUE É QUE QUERES? CALA-TE MERDA! AINDA TAMANDO PELA JANELA!?

Oh Cablogue, tempera lá essa verve. A gente bem sabe que tu não és o Michael Jackson, que a criancinha nunca esteve em perigo, mas nunca se sabe. Faz como o Vostra e reescreve o post, muda para "sacudi-a docemente", "cala-te carambinhas" e "ainda tadeito fora o DVD do Noddy".

É que isto está cheio de esbirros nojentos (Coff, Ernesto, coff) que ainda te denunciam à Pêjota por maus tratos.

Por outro lado, ouvi dizer que agora há uns tipos simpáticos a ganhar fortunas no gabinete do Provador da Justiça, pode ser que eles te safem.

26 maio, 2006 17:04  
Blogger ElCablogue said...

O provedor de justiça deve ser o cargo mais anódino da democracia portuguesa. Mas enfim, sempre é melhor do que porta-voz do Conselho Superior da Magistratura. Será que aquele que nós sabemos que vai esse lugar também vai ter de usar gravata? Isso era a conversão total do esquerdinha do Calhabé aos alvores do Corte Ingles e da Zara capitalista

26 maio, 2006 17:25  
Blogger ElCablogue said...

Ó tiberius, tu ainda não foste pai.
Quando o fores falamos porque há momentos em que a loucura toma conta de nós e uma queda da varanda nem parece uma coisa muito grave.

26 maio, 2006 17:27  
Blogger Vostradeis said...

Foda-se! Achas que eu escrevo "irrascível, só como os grandes auteurs são"???? Não reconheces um Carcaça quando vês um?

PS: Coitado do puto. Devias ser preso. Carcaça, não movas os teus pauzinhos para o defender...

27 maio, 2006 17:32  
Anonymous Anónimo said...

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01 julho, 2006 01:03  
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24 julho, 2006 05:09  

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