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NÚCLEO DURO

 

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quarta-feira, outubro 15, 2003

Alta Arte
A arrogância de Von Trier



Por norma, procuro olhar numa primeira instância para as obras de arte afastando-as do seu autor e daquilo que conheço dele. Convenci-me de que só assim posso desfrutar da obra na sua essência. Defecando naquilo que ela representa para quem a fez, posso, com mais proveito, retirar-lhe aquilo que representa para mim só pelo que ela é. Dizer também que nunca leio as críticas aos filmes antes de os ver (e raramente o faço depois) - se me estou nas tintas para a visão do próprio realizador, imagina o que penso da de um mero espectador. (Arrogante, eu?)

Isto para dizer que, como é hábito, nada procurei saber sobre o filme "Dogville", de Lars von Trier, antes de o ter ido ver na noite passada. Já tinha os bilhetes comprados quando a amiga que ia comigo me avisou, com base no que tinha lido, que o filme era uma espécie de peça de teatro transposta para o cinema. Isso explicava em parte o porquê de quase todos os amigos que convidei para essa sessão se terem "cortado", mas procurei não ligar à ligeira preocupação que o alerta me causou.

Começou o filme e a legenda informava que se tratava da história da aldeia de Dogville, contada em nove episódios que se seguiriam ao prólogo que então teve lugar. Cenário de teatro, com iluminação de teatro, casas de paredes invisíveis e maçanetas imaginárias que abriam e fechavam portas sonoplásticas. Senti-me logrado à partida. Quando essa carência de uma das coisas que mais aprecio no cinema - a possibilidade de retratar lugares de forma realista e variada - se apresentou associada à câmara tremida que já conhecia de outros filmes do realizador, apoderou-se de mim uma certa náusea e comecei a lamentar o dinheiro gasto no bilhete.

No entanto, a história - única coisa que era capaz de poder salvar o que já parecia perdido - mostrou-se, desde o prólogo, quebastosamente digna de dedicar ao resto um mínimo de atenção. Estava lançado o engodo e, qual a minha surpresa, quando ao fim do segundo capítulo já estava de tal forma fisgado pela narrativa e pelas bravíssimas actuações de um grupo formidável de actores, que deixei de reparar como tudo se passava em torno de paredes de ar e esqueci-me completamente da tremeliqueira da câmara.

Ao longo dos vários episódios, assiste-se a uma inquietante metamorfose da natureza pura e bondosa de um povo pacato na animalidade egoísta que encerra o espírito humano, capaz de cometer as maiores atrocidades, justificando-as sofregamente numa moral postiça e hipócrita. As cenas em que Grace (Nicole Kidman) é abusada sexualmente por alguns dos personagens são atordoantes. Genial a forma como Von Trier faz a desconstrução de personagens doces, que nos vinham cativando desde o início do filme, para culminar num holocáustico desfecho em que o espectador não consegue evitar sentir um certo sadismo redentor.

Durante o genérico final, em que belas fotos do interior dos Estados Unidos (a maior parte reportando à Grande Depressão) nos devolvem ao mundo real, apetece bater palmas à arrogância do senhor Von Trier, que se prestou a fazer um filme nestes moldes, com pelo menos esse resultado: mostrou que era possível. Chegada a hora de olhar para o que o realizador fez anteriormente - sem tentar averiguar se este último "faz sentido" no conjunto da sua obra, porque isso é que não faz sentido nenhum - lembro-me de que foi ele quem dirigiu, entre outros bons filmes, o único musical de que gostei até hoje, "Dancer in the Dark", que, à imagem de "Dogville", também vai transformando um "handicap" - o de ser um musical - numa virtude, e acaba por surpreender.

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