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NÚCLEO DURO

 

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A política é a arte de fazer alianças. É só derreter os fios de ouro roubados...







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terça-feira, julho 13, 2004

Euro post-mortem 4 * Pão & Circo

Achei muito perturbadora a tendência durante o Euro de dizer mal de Pão & Circo. Lá vinham os chatos do costume a resmungar que isto da mania da bola era embrutecer o povo, que era o Pão & Circo como no tempo dos romanos, que o futebol é o ópio do povo, etc.

E eu pergunto: qual é o mal de Pão & Circo? Eu gosto. Os intelectuais anti-bola querem que um gajo se alegre com o quê? Com as obras de Marx e Engels? Com a poesia encadernada da Natália Correia? Com música de câmara?

Fiquei muito surpreendido com a atitude da nação sobre o Euro. Estava à espera que se prolongasse o argumentário idiota do "tanto dinheiro para estádios que podia gastar-se doutra maneira". Mas quase toda a gente percebeu que o Euro foi bestial.

Eu por mim desde o início que achava que o Euro era uma ideia magnífica. Primeiro, porque felicidade não tem preço: se custou 600 milhões de euros ter um mês de animação e alegria genuína, o dinheiro foi bem gasto.

Depois, porque a ideia de que o dinheiro que custaram os estádios e o resto da festa podia ter sido usado para tirar o país do seu atraso crónico é falaciosa. Não é por construir mais escolas que se melhora a educação, não é por haver mais hospitais que a saúde fica mais saudável; nem tudo se resolve com obras de betão, com o Estado a atirar dinheiro para os problemas.

Sobretudo, nós temos obrigações para com o resto do mundo. Da mesma forma que mandamos os nossos marretas para as festas organizadas pelos outros (os Euros, os Mundiais, os Olímpicos), também nós já tínhamos obrigação de organizar a nossa festa para os estrangeiros; já não somos assim tão pobrezinhos.

A imagem do país no estrangeiro melhorou incomensuravelmente com o Euro. Organizar um torneio destes de uma forma impecável vale prestígio; imaginam um Euro na Roménia, ou na Albânia? Para quem se importe com a imagem da nação lá fora, o Euro é uma coisa inestimável.

E até para a nossa vida cívica o Euro foi bom. É o efeito Expo; quem tenha ido a um dos novos estádios já nunca mais se satisfaz com coisas feias e feitas em cima do joelho. O Euro aumentou o nível de exigência, e não só para o futebol; quem foi aos estádios já não aceita tão facilmente mamarrachos horríveis ou serviços incompetentes.

Mesmo assim houve os conselheiros Acácios habituais. Admito que também me irritaram as bandeirinhas e os locutores de televisão com cachecóis (esta irritação parece que está na moda). Achei que os portugueses passaram ao lado do que era realmente bom no Euro por causa da obsessão com a selecção.

Mas as pessoas ficaram genuinamente contentes com a selecção, e dava-lhes real felicidade pôr a bandeirinha. Eu, que me estou bem nas tintas para a selecção, não partilhei muito dessa alegria, mas também não olho de alto para os que ficaram alegres.

Para parte da nossa classe intelectual, que detesta o país que tem, isso causou comichão ? porque é que este povo burro fica tão contente com isto da bola, eles não percebem como nós iluminados que isto da bola é só Circo? Ora porra, Pão é bom e Circo também, deixem-nos estar contentes em paz.

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