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NÚCLEO DURO

 

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A política é a arte de fazer alianças. É só derreter os fios de ouro roubados...







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sábado, julho 03, 2004

Os senegaleses da Ilha do Sal



O calçadão que separa a zona dos hotéis do areal é o território dos senegaleses, proibidos pela polícia de importunar os turistas na praia. Homens de pele muito escura, destinguem-se facilmente dos achocolatados cabo-verdianos. E são os piores vendedores e os seres mais chatos que alguma vez conheci.

O primeiro que vimos foi uma mulher gorda, com um vestido largo e berrante, que tentou fazer trancinhas à minha namorada, por 20 euros. Pareciamos então compreender os avisos do empregado do hotel: "Cuidado com os senegaleses! Não falem com eles." Mas a coisa ainda ia piorar. Com os seus sacos cheios de tartaruguinhas e máscaras de madeira, caem sobre os turistas como moscas sobre vacas. E não há rabo que as consiga sacudir. A táctica é sempre igual e parecem ter todos andado na mesma escola. "Ciao!", tentam primeiro, desejando que os destinatários sejam italianos. "Po'tuguez?", continuam a tactear.

Se não forem absolutamente ignorados, como se simplesmente não existissem, são capazes de acompanhar os turistas durante quilómetros, na tentativa sôfrega de vender uma bugiganga qualquer por 10 euros. Um simples "olá" e dificilmente o europeu se livrará de ouvir toda a história mentirosa do senegalês, que no seu crioulo com sotaque francês, contará com olhos de cãozinho abandonado que é um artesão, que veio da Praia ou do Mindelo, e que ainda não vendeu nada hoje. "Po' favô', tenho fome."

A dada altura desta visita à Ilha do Sal, após a vitória de Portugal sobre a Rússia (2-0) para o Euro 2004, que vimos em directo pela televisão com os comentários de um animado locutor cabo-verdiano, decidimos percorrer o calçadão até à vila de Santa Maria. Um batalhão de snipers das tartaruguinhas foram-nos bombardeando durante todo o passeio. Já na aldeia, o assédio não foi mais suave. Os próprios locais, pareciam seguir o exemplo dos senegaleses. Deparámos com um pequenito, aos saltos, que ainda se iniciava na arte da chateação:

- Olha, compra-me esta tartaruga. Ajudem que tenho fome. Anda. Não vendi nada hoje. Compra, compra, compra. Pa eu cume uma sande. Vá, compra. Eh, vocês não ajudam!...

E dizendo isto, afastou-se. Mais tarde, preparávamos o espírito para enfrentar novamente o calçadão ao voltar para o hotel, quando vimos o mesmo puto na areia, a brincar com um amiguinho. No mesmo instante, aborda-nos um adulto, já muito mais aperfeiçoado na lábia, embora visivelmente tocado por qualquer coisa etílica:

- Ora, muito boas noites. Então, a nossa selecção ganhou!? Hoje é tudo mais barato. Tenham a bondade. Permitam apenas que lhes mostre...

Dizia isto sem conseguir deter a nossa marcha, quando foi interrompido pelo nosso amiguinho:

- Eh, não vale a pena! Esses aí não gostam de ajudar!

A última coisa que ouvimos foi o som de um tabefe paternal que parecia entregar na nuca do pirralho a mensagem: "Seu burro! Acabaste de me estragar o negócio."

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