terça-feira, junho 17, 2003

Manual do suicida amador



Saiu no “Público” de ontem (caderno Local Lisboa) uma breve sobre a história montypythiana de um rapaz que se tentou matar saltando da Ponte Vasco da Gama. Alegadamente alvo de perseguições, o jovem chegou ao ponto desesperante de querer acabar com tudo... mas tratava-se de um amador do suicídio! Foi encontrado quatro horas depois pela Polícia Marítima em cima de um mouchão. Perguntam-me vocêses: o que é um mouchão? Ora bem, segundo diz o Dicionário da Texto Editora (e nós acreditamos), mouchão é "s.m., terreno arborizado nas lezírias, ou ilhota arborizada que se forma no meio de um rio ou à beira-mar". Tão a ver? O gajo, acagaçado, saltou de olhos fechados. Mas a história continua e o mais engraçado ainda está para vir. "Pouco depois de ser recolhido, o jovem voltou a atirar-se à água, após o que foi manietado pelos agentes, para não voltar a fazer o mesmo – até porque já tinha feridas nos pulsos, que tentara cortar com cascas de mariscos". Faz lembrar aquela história de um indivíduo que tentou decepar a própria cabeça com um corta-unhas. Fica-se na dúvida: será que o gajo estava mesmo a tentar matar-se mas era burro demais para o fazer, ou estaria apenas a tentar chamar a atenção, o que conseguiu de forma brilhante? Porque se ele queria mesmo matar-se, mais valia ter comido o marisco do Tejo, em vez de usar as cascas para cortar os pulsos...

segunda-feira, junho 16, 2003

Os Donos do Garfo



Nome: O Cometa
Designação: café-restaurante
Localização: Porto
Preço: pode comer-se por 5 euros
Pontuação: 5,5 (de 0 a 10)

Chega-se de comboio a São Bento. Uns passos à frente, a câmara municipal aparece no topo da Avenida dos Aliados. Umas centenas (poucas) de metros adiante, numa rua cujo nome desconheço, fica O Cometa, o restaurante onde almocei da última vez que fui ao Porto. Não tem nada de especial que o recomende, apenas os preços, muito em conta.
A cozinha é tudo menos sofisticada: os pratos do dia são os habituais - o bife, o rojão, o peixinho grelhado… - e o restante menu também não apresenta surpresas - o bife, o rojão, o peixinho grelhado... Pedi, como quase sempre que vou ao Porto, uma francesinha, com um cacho de batatas fritas a acompanhar. O bicho estava apetitoso, sem demasiada cerveja no molho. A batata frita era batata e era frita. O serviço é rápido e eficiente. Os empregados parecem lavadinhos, têm ar de quem toma banho todos os dias e de quem não mexe nos pratos sem lavar as mãos depois de fazer chichi.
Conclusão: é um café igual a tantos outros, com a vantagem de estar localizado no coração do Porto, de servir depressa, de ser barato e de os empregados não nos despejarem a bebida no copo, e com o inconveniente de se chamar O Cometa.
Tudo outra vez!!! :)

Queridos blogadores. O nosso último servidor de comentários tinha uma incompatibilidade com o nosso servidor de estatística, o que nos obrigou a mudar para um outro menos problemático (fazer figas!). Infelizmente, os nossos últimos comentários foram à vida. Por outro lado, o novo servidor de comentários tem a vantagem de ser em português (OK, brasileiro. Não se pode ter tudo...). Agora é que é, caralho. Bora dar aí com força!
A pretexto da final da Taça de Portugal, de que só viu 20 minutos, Ernesto destila um ódio doentio e completamente irracional ao Porto. Ernestinho, não penses que não te compreendo: eu sou portista e também não gosto do Benfica; como tu, espumaria de raiva e inveja se o Benfica ganhasse o que o Porto ganhou este ano, e da forma como o fez: com enorme classe e demonstrando uma superioridade esmagadora sobre os rivais.

Todo esse ressentimento, além de nos deixar – a nós, portistas – muito orgulhosos e vaidosos, leva-te a dizer as mais despropositadas asneiras. Dizes: “O Leiria tentava jogar, via-se que estava a dar tudo por tudo, mas os jogadores do Porto conseguiram que a bola não estivesse muito tempo em jogo, demorando eternidades na marcação das bolas paradas, atirando a bola para longe, atrasando o reinício do jogo, inventando lesões (veja-se o Baía...). Tudo nas barbas do árbitro”. Para quem só viu 20 de 90 minutos, diga-se que é muita presunção tua tirar essas conclusões, como se os 70 minutos anteriores não fossem importantes para fazer uma apreciação justa ao que se passou durante o jogo.

“Quanto tempo efectivo o Leiria teve para poder mostrar que também sabe jogar (e sabe)”, dizes, sem saberes que o Leiria jogou uma final da Taça, a que apenas chega uma vez em 50 anos, para empatar 0-0, com uma multidão de defesas e trincos no seu meio campo e o Maciel a correr sozinho atrás das bolas despejadas pelo Silas para junto da área do Porto. Se alguém mereceu ganhar a Taça foi o Porto, que foi quem o tentou fazer logo desde o início, sem querer esperar pelos penalties.

“O Porto é uma equipa da arruaça, da arruaça portuguesa mais criminosa e sofisticada, educada (há muitos anos) segundo a filosofia do vale tudo” - não percebo por que dizes isso, sobretudo este ano: o Porto ganhou o que havia para ganhar com uma limpeza imaculada, sem favores de árbitros (houve até um jogo, no estádio do teu querido Sporting, em que foi espoliado de 4 penalties), sendo a equipa com mais golos marcados, menos sofridos e a jogar um futebol de ataque e de qualidade como nenhuma outra o fez. Os jogadores mandam bocas durante os jogos, inclusive aos árbitros? Mandam. Simulam lesões? Simulam (mas não tanto como outras equipas). Fazem-se ao penalty? Fazem (mas não tanto como o vergonhoso João Pinto). Mas não venhas dizer que os jogadores do Porto são os únicos a fazê-lo e que os do Benfica ou Sporting não o fazem, porque aí teria de deixar de te levar completamente a sério.

Por fim: o Mourinho é tudo o que tu quiseres, desde que continue no Porto a ganhar títulos. De resto, as tuas críticas são injustas: o Mourinho é arrogante, usa gel no cabelo..., mas tem aquilo que muitos treinadores (sobretudo os portugueses) não têm ou não são – é inteligente como poucos, sabe articular ideias, tem espírito de conquista, tem a experiência de trabalhar no estrangeiro...
“Rezo para que fuja daqui depressa”, dizes, beatificamente, a propósito do Deco: és tu, os restantes seis milhões de benfiquistas e os dirigentes e treinadores de várias equipas espanholas ou italianas...
Esperas que o Postiga não seja convocado para a selecção – és tu e todos aqueles que querem ver repetida a vergonha do último Mundial. A geração dos Figos e Ruis Costas teve várias oportunidades para ganhar competições e nunca o fez nem andou lá perto. É tempo de dar lugar aos outros: aliás, penso que a nova geração de jogadores é melhor que a geração anterior – agora sim, Portugal pode ambicionar a ter uma excelente equipa, com jogadores como o Quaresma, o Ronaldo, o Ricardo Carvalho, o Jorge Andrade, o Paulo Ferreira, o Tiago, o Ricardo, o Hugo Viana... e, lamento dizer-to, o Deco e o Postiga.
Não vos parece... eeh... que... eeeeeeh... o estilo Sena Santos é um pouco... eeeeh... irritante?

quinta-feira, junho 12, 2003

Pastéis de vento
pérolas da sabedoria zen

Não procure seguir as pegadas dos mestres. Procure o que eles procuram. Na mais próspera mina em Serra Pelada, no Brasil, ali encontrarás, agarrada à maior pepita de ouro, Fátima Felgueiras.

quarta-feira, junho 11, 2003

Os Donos do Garfo



Nome: Vino Tinto
Designação: restaurante grill espanholado e pós-moderno
Localização: Cais de Gaia, Porto
Página na Internet: não tem
Preço médio: 18 euros
Classificação: 7 (de 0 a 10)

Não é só em Lisboa que surgem como cogumelos casas de restauração que puxam pelo bolso do cliente. A febre do negócio chegou ao Porto, cidade onde um dia se comeu umas maravilhosas tripas em quantidades enfartabrúticas por uns míseros 500 paus. Não que isso hoje seja impossível, mas a tendência actual é claramente outra, como Os Donos do Garfo teve a oportunidade de comprovar ontem à noite, numa incursão pelo Cais de Gaia.
Numa zona animada, feita à medida do turista, em meio a uma arquitectura estandardizada e envidraçada de escuro, que atribui a mesma dignidade exterior às “Pizza Huts” e a uma série de outros festefudes, restaurantes e bares, encontrámos o “Vino Tinto”, uma casa de qualidade – atestada pela fila de gente à espera de lugar para sentar – travestida de espanhola, mas longe da perfeição.
O atendimento baloiça entre a beleza das duas lindas moças – muito bem empacotadas, que também se come com os olhos – que serviam a sua simpatia enfeitada com uma boa demão de maquilhagem, a dar para o exagero, mas sem lhes tirar o ar apetitoso; e o pouco cuidado de um senhor de bigodes capaz de trazer um dos pratos principais antes de terem vindo todas as entradas.
A comida em si é boa, bem preparada, com destaque justamente para los entrantes. Recomendamos vivamente o Queijo Provolone (derretido e com especiarias) e a Tortilla de Bacalhau. Dos main courses, pouco a comentar. A especialidade resume-se claramente aos grelhados, numa ementa em que se destaca pelo preço um Chuletón a 22,50 euros. A carta de vinhos oferece alguns tintos espanhóis de qualidade. As sobremesas são talvez o ponto mais fraco do “Vino Tinto”. Nada caseiro. Tudo industrial.
País na merda

O nível de desenvolvimento de um país pode medir-se de diversas formas: a produtividade, as exportações, o emprego, a literacia, etc. Mas há coisas que não são propriamente mensuráveis mas que são sinais claros do grau de civilização de um povo. A limpeza e asseio dos locais públicos é uma delas.
Uma das coisas que mais impressão me faz é ver os passeios cheios de merda de cão. Claro que há os cães vadios, que ninguém pessoalmente controla – e que deviam ser capturados e abatidos pelas autoridades se ninguém os reclamasse ou acolhesse ao fim de alguns dias. Mas também há os cães daquelas pessoas que os levam a defecar na rua. O resultado é deprimente: passeios completamente borrados de merda e mijo, em todo o lado, em todas as esquinas, junto aos canteiros, junto aos degraus dos prédios, junto aos pneus dos carros... A conclusão é só uma: o português é uma raça de gente porca e selvagem, que mantém hábitos da idade média sem o menor escrúpulo ou pudor. Gente que gosta de viver na imundíce e de chafurdar no chiqueiro. A única esperança é que uma espécie de justiça cósmica actue sobre os donos do estúpidos animais e os faça ser eles a pisar a merda.

terça-feira, junho 10, 2003

Compulsivamente

No fim de semana estive a lavar o carro. É um acto religioso para muitos. Para mim, é apenas uma tarefa mecânica e estúpida. Apetrecho-me de de sprays e sparayzinhos como nomes alemães, retiro o lixo acumulado de quatro semanas de dentro do carro e coloco-me na fila da auto-lavagem. Ali, naqueles longos minutos de espera, leio o Record e oiço o Carlos Magno enquanto, um a um, os companheiros de jornada lavam, polem e limpam os seus veículos. Depois, quando chega a minha vez, gasto dois euros em água limpadora, abrilhantadora e enxaguadora e tento limitar os danos causados por moscas e lama agarrada à fibra de vidro. Numa ou noutra ocasião, percebo que existe um risco e grito por dentro como uma criança enquanto tento disfarçar a cicatriz do golpe.
Após este acto cerimonial, retiro os tapetes e lavo-os numa maquineta velha enquanto aguardo pelo sacrossanto aspirador das impurezas. Então, armado com spray contra nódoas e uma escova dos dentes velha luto contra manchas, restos de iogurte e de chocolate espalhados pelos estofos. Nesses lentos e pesados minutos, desespero por um grão de lama agarrado ao rebordo da borracha e vocifero contra o resto de sumo que manchou o tapete.
No final, satisfeito como Hércules perante um dos trabalhos que teve de sofrer, vou beber um café e uma água com um sorriso nos lábios de triunfo. Sigo para casa, recolho a mulher e o miúdo para ir comer fora com o ar e o peito satisfeito do trabalho cumprido. Com o carro estacionado à beira da entrada da casa, ajudo o miúdo a subir. Cai-lhe a bolacha com manteiga que levava sobre o banco enquanto tenta empoleirar-se na cadeira. Antes que eu me aperceba, pisa-a no momento de saltar para o banco e fico siderado de terror.
Em choque, encosto-me à porta do carro enquanto a mulher arruma as coisas na bagageira. Antes de conseguir balbuciar palavra, passa um carro por uma poça de água e asperge com lama os vidros que eu lavei com tanto custo.
Não me ocorre mais nada que não chorar.
Compulsivamente.

segunda-feira, junho 09, 2003

Pastéis de vento
pérolas da sabedoria zen

Sentando-se quieto, sem fazer nada, vem a Primavera, e a relva cresce sozinha. Eu apoio a implantação da sesta!

sábado, junho 07, 2003

Crónicas daquilo que não gosto

Pseudos

Claramente não suporto os pseudos. Portugal é um país de pseudos, se calhar é até um pseudo-país. Uma corja de convencidos e de anafados sentados num baloiço à espera que o mundo lhe preste vassalagem, agradecendo-lhes por terem descoberto mei-mundo (não existe esta palavra mas é gira) para depois serem errabados alegremente, com pimenta e açafrão no cu que é para sentirem melhor. Quando penso nisso, sorrio com prazer e recordo-me do João da Ega (atenção, esta citação sucede apenas porque diz respeito aos Maias, um livro que fui obrigado a ler no secundário. Não pretendo com isto arrogar-me de um pretenciosismo bacoco semelhante aos blogues tugas). Esta choldra não mudou e todos lutam por cinco minutos de sucesso na voragem dos dias. Como se ser um cromo conhecido em Portugal fosse difícil, num país tão pequeno como um T0 sem kitchnette. Na América, na China, no Brasil (vejam o caso do Deco que teve de sair de lá para ter sucesso) ou na Índia. Aí sim, ter sucesso é ter realmente sucesso. Aqui é apenas dar um espirro mais forte e o ranho colar-se à sola dos sapatos de alguém que vai queixar-se ao Vidas Reais.
Até o emplastro teve os seus cinco minutos de fama (justos, diga-se) e foi um case study como havia sido, no passado, o Tino de Rans. Se abóboras loiras como a Teresinha ou cogumelos saltitantes como o Baião são estrelas tudo é permitido.
E os pseudos pululam como adenovírus em toda a parte. Parecem larvas a descobrir que algumas borboletas já foram como elas. E assaltam a pirâmide do poder antes de saberem se têm asas para voar.
São as Pinto Correia, os La Ferias, as Motas Ribeiro, Claudisabeis, Tois, Sarmentos, Mouras Guedes, os PM, MEC, MST, PSL, PP (acho piada aos gajos que se identificam por siglas. É o minimalismo levado ao extremo em contraposição ao ego ferido de tanto ser coçado). Tudo gente que parece mais do que realmente é. Como se fosse esse o desporto-rei português.
Fazendo bem as contas, Portugal terá meia-dúzia de gajos bons em meia-dúzia de áreas. Se fôssemos tão bons como nos julgamos, o JPP era o líder do PPE, o Carlos Lisboa tinha jogado na NBA e o Damásio (o António não o Manuel) já havia ganho o Nobel da Medicina. O Saramago só ganhou o da Literatura porque escreve frases graaaaaaaaaandes como os franceses, com pontuação cirílica e está a viver em Espanha. Caso contrário, não passaria de um miúdo de chupa-chupa na boca na fila de espera para sentar-se ao colo de alguns dos verdadeiros bons escritores e pedir um autógrafo.
Na realidade, não passamos de uns parolos a lambermos o cu de uns na esperança de também sermos lambidos em retribuição.

Porque raio é que o Miguel de Vasconcelos caiu da varanda em 1640? Éramos todos mais felizes e com uma selecção de futebol para fazer inveja.

sexta-feira, junho 06, 2003

Crónicas daquilo que eu não gosto

Lisboa

Estou farto de Lisboa, dos lisboetas, dos lisboinhas e de tudo quanto reuna na mesma palavra Lis e Boa. Cansa-me o som desses fonemas e irrita-me solenemente a arrogância a que estão associados. Tudo gira em torno de Lisboa e do Cais do Sodré. Se o espermatozóide Marquês não tivesse furado o óvulo da mãe talvez ninguém tivesse tido a ideia de reconstruir a Baixa e Portugal seria um país mais feliz. Com uma capital em Santarém ou na Guarda.
Não tenho paciência para a sobranceria com que todos os lisboinhas olham para o resto do país como se não passasse de uma bainha mal alinhavada que têm de suportar. Para eles, Portugal deveria resumir-se à capital e à Quarteira, com um grande viaduto (um pouco maior que o Duarte Pacheco) sobre Tróia e o Alentejo.
E, depois, a intelligentzia da nação segue à justa este pacóvio modelo de desenvolvimento, ignorando o resto do mundo. Os políticos (aqueles que são bem vistos) são de Lisboa e vão à província para serem eleitos cabeças-de-lista dos seus partidos, os intelectualóides são paridos entre conversas cheias de maconha e de whiskey (tem que ser o irlandês porque é mais fino, só os parolos – os pobres – bebem o escocês), os apresentadores são eleitos entre o Liceu Francês e o Colégio Alemão. Enfim, é tudo escolhido nos quarteirões que vão de Alvalade a Monsanto, permitindo, de quando em vez, a entrada de algum saloio nortenho.
A comunicação social, essa nem vale a pena falar. Uma notícia do Santana vale mais do que todas as Câmaras do país juntas e um peido de um paneleiro no Parque é mais importante que um colóquio de uma povoação em A-do-Freixo (excepto se tiver algum lisboinha a falar).
Por outro lado, irrita-me as consequências desta visão deturpada. O resto do país só aparece quando há mortos, facadas ou violações. O interesse de 80 por cento dos portugueses só é levado em linha de conta quando algum crime horrendo impõe-se na agenda e pode, quem sabe, entrara como sexta notícia no alinhamento de algum jornal televisivo, ou uma chamada no canto da primeira página.
Mas pior que os lisboinhas originais são os lisboinhas importados, que se deslumbram por verem um prédio com mais de cinco andares e têm orgasmos (múltiplos) ao verem uma estrela (da K7 ou da rádio pirata) a beber um café na esplanada que frequentam. E fazem manifestações por tudo e por nada como se as únicas causas sociais estivessem à sombra do castelo de São Jorge.


Repito o que disse anteriormente: Quero emigrar.
Descobri que sou burro...

Depois de alguns dias remetido ao silêncio pelo muito trabalho que me invadiu como o ataque dos japoneses a Pearl Harbour, regresso a estas lides cibernáuticas, revelando que tive uma visão. Não daquelas que os místicos e os Pastorinhos têm, mas uma mais simples: sou burro.
Leio os textos dos nossos colegas bloguistas e fico siderado. Desde o Maltez ao JPP, passando pelos Mexia e Lomba, Marretas, Esquerdas, Gato é tudo um fartar de citações e de termos inusados. Nem nas aulas de algumas figuras distintas da nossa literatura tive tantos autores reunidos numa única frase como se citando os outros mostrasse que sabemos ler melhor. E todos com ideias bonitas e bem construídas. Todos a bater umas punhetas uns aos outros sem sequer lavarem as mãos. Parece que os blogues tornaram-se numa feirazinha de vaidadezinhas. É que isto em Portugal é tudo muito medido com inhos para não ferir susceptibilidades.

FODA-SE, quero emigrar. Salva-se o Pipi e o Scolari
Os Donos do Garfo



Nome: Os Carcavelos
Designação: tasca à velha antiga portuguesa
Localização: Aveiro
Página na Internet: não queriam mais nada!
Classificação: 7,5 (de 0 a 10)

Não é um primor de asseio e limpeza, nem tem quadrinhos nas paredes, as toalhas são de papel, o proprietário e o empregado têm unhas compridas com sarro por baixo e vertem metade da sopa ao trazerem-nos os pratos para a mesa... É tudo menos um sítio asséptico, asseado, sofisticado. Lá não se come fillet-mignon, nem ór-dâvrre (não sei como se escreve em francês, por isso aportuguesei). O vinho não é de castas ou colheitas especiais, os talheres e os pratos são lavados com um simples chuveiro de água. As cadeiras estão semi-destruídas e as mesas cheias de lascas.
É assim Os Carcavelos, uma tasca em Aveiro, junto ao Canal de São Roque. Hoje comi uma bela alheira (com a pele ligeiramente queimada, é verdade, mas nada é perfeito nesta casa), com batatas fritas acabadas de fritar, arroz de nabiças e um ovo a cavalo. No início, uma sopa de nabiças (sim, o arroz também era de nabiças: esta gente deve ter frequentado as cantinas de Coimbra), broa da melhor e azeitonas. Para acompanhar, uma 7up com muito gelo (quem quiser tem vinho à discrição, branco ou tinto). O preço é sempre 4,5 euros, com direito a tv sempre ligada no Praça da Alegria.
No final de tudo, uma violentíssima jogatana de matrecos, com os pelos do sovacame a nadar em suor. A mesa é das antigas – daquelas que podem levar com marteladas em cima que não se desconjuntam –, a 20 cêntimos cada nove bolas.
Pastéis de vento
pérolas da sabedoria zen

Uma pessoa pode parecer tola e, apesar disso, não o ser. Pode apenas estar a guardar a sua sabedoria com muito cuidado. Quando os cristais da última geada forem atravessados pelos raios da alvorada primaveril, quando chegar a altura certa, e só então, Scolari convocará o Baía.

quinta-feira, junho 05, 2003

Este gajo tem crónicas hilariantes. Há uma sobre os Rolling Stones de partir a moca a rir.
Este post é só para informar que o presidente do grupo PT fez esperar vários jornalistas durante quase duas horas. Duas horas. E ainda por cima durante a hora de almoço.

«Carteiro feliz é aquele que gosta de sê-lo...»
Pastéis de vento
pérolas da sabedoria zen

Olhe sempre para o sol, assim as sombras ficarão para trás. Tal como acontece com alguns ministros-sombra, que gostam de ficar por trás de quem olha para o sol.

quarta-feira, junho 04, 2003

Pode um texto ser traduzido de várias maneiras? Pode. Eis um exemplo:

“As poucas estrelas acima de nós lançavam uma luz fraca apenas sobre o navio, sem qualquer cintilação na água, como um poço de luz separado que perfurasse uma atmosfera transformada em fuligem. Era qualquer coisa que nunca tinha visto antes; não havia qualquer sinal da direcção onde se alcançaria uma possível mudança: uma ameaça que nos comprimia de todos os lados”.

“As poucas estrelas, ao alto de nós, difundiam uma vaga claridade que se limitava ao navio, sem o menor reflexo no mar, como emanações de luz isoladas repassando uma atmosfera mudada em fuligem. Era uma coisa como eu nunca vira outras, que não apresentava o menor sinal de poder vir a evoluir, como a aproximação de uma ameaça que irrompia por todos os lados”.

O bizarro é que estas duas traduções do mesmo excerto da obra A Linha de Sombra, de Joseph Conrad, aparecem ambas no livro que o Público lançou na colecção Mil Folhas: a primeira versão surge na parte de trás da sobrecapa e a segunda nas páginas 132 e 133. Como é que isto pode ser explicado?
De qualquer maneira, parece óbvio que um dos tradutores, ou ambos, usaram de certa liberdade criativa no processo de traduzir o texto para português, uma vez que as versões são bastante diferentes entre si. Por exemplo: um usa “poço de luz” e o outro “emanações de luz”; um usa os dois pontos no final do parágrafo, o outro não. Até que ponto é que a emancipação do tradutor em relação ao texto original é legítima?


A cultura do emplastro

Em Portugal, aparecer na televisão é mais do que motivo de orgulho. Pode, por vezes, tornar-se um objectivo de vida. Desde o jovem que sonha com a fama e acha justo que ela venha a troco de viver meses confinado numa casa cheia de semelhantes dispostos a mostrar a bunda em directo para todo o país, até os grunhos que se amontoam em torno dos repórteres em dia de jogo, ou à multidão em frente do tribunal para ver o Herman. O homenzinho desdentado com um sinal na cara não é mais que uma caricatura de 80 por cento (números do INE – Instituto Nacional de Especulação) das pessoas que vemos na televisão todos os dias. É fácil relacionar esse fenómeno com a carência de literacia do povo – gente mais educada tem mais facilidade em perceber a futilidade de alguns comportamentos. A verdade é que o fenómeno também acontece noutros países, alguns até mais evoluídos do que o nosso. Como explicar então o que leva alguém a saltar para a frente das câmaras, telemóvel em acção, a anunciar para a família e os amigos “Ponham na SIC! Estou na SIC!...”? Não sei. Não interessa. O que interessa é que é foleiro. Não o façam.
Is there anybody out there?

terça-feira, junho 03, 2003

Ao ver na internet uma fotografia do Herman José a sair do DIAP, há uns dias, lembrei-me que nas imagens em directo que as tv’s transmitiram na altura se podiam observar dezenas de pessoas de plantão à porta das instalações. Os portugueses – muitos portugueses, pelo menos – têm comportamentos inacreditáveis: ficar horas à espera da saída do Herman José, ou ir aos calabouços da PJ para ver os familiares dos detidos, é um sinal da decadência do país. Esta gente vadia não tem nada melhor para fazer? Para mim, é a prova do carácter pervertido e estragado da maioria dos portugueses. É o mesmo traço de personalidade que leva os condutores a abrandar os carros ao menor sinal de acidente na estrada, para ver o sangue e os ossos partidos mais de perto.
Ontem fui à Feira do Livro e comprei o novo album do Quino, “Quanta Bondade”. Quino continua subversivo, devido ao desapontamento pela crueldade que ele adivinha no mundo em que vive e ao desconforto que sente pela suposta profusão de sinais de injustiça e desigualdade. E nota-se até uma grande incomodidade pelo domínio do tecnológico, não pelos utensílios em si mas pela barreira que segundo ele constituem à comunicação directa e à proximidade entre as pessoas – um exemplo são as muitas tiras do livro em que são diminuídas as personagens com telemóveis. Mas a piada já não é a mesma, o que se sente sobretudo por quem leu a Mafalda. A qualidade do desenhos é a mesma, algumas ideias são excelentes, mas parece que o humor se esgotou.

segunda-feira, junho 02, 2003

Pastéis de vento
pérolas da sabedoria zen

Com a idade, os cabelos vão ficando brancos, os dedos fraquejando, mas a mente, essa fica cada vez mais clara, mais sábia. Passa-se a saber apreciar e tirar partido das pequenas coisas da vida. Perguntem ao Herman...