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NÚCLEO DURO

 

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A política é a arte de fazer alianças. É só derreter os fios de ouro roubados...







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quinta-feira, setembro 30, 2004

SAL-GUEI-ROS!



Sem que eu desse por ela, o Salgueiros foi ter à II Divisão B, o que na prática quer dizer terceira divisão, o que quer dizer que o Salgueiral anda muito por baixo.

Isso deixa-me triste. Não é que seja salgueirista; o meu clube, evidentemente, é este:



Mas ver o Salgueiros em baixo é mau.

Há a ideia de que o Porto se divide assim em clubes: a maioria é portista, os ricos da Boavista são boavisteiros, e os pobres são salgueiristas. O Salgueiros seria assim o clube do povo.

Isto não é bem assim. O clube do povo é mesmo o Porto. Na verdade, os ricos, os pobres, os remediados e os outros são quase todos portistas.

Uns 90 por cento da cidade é do FCP. Há meia dúzia de lagartos, meia dúzia de lampos, duas ou três famílias de boavisteiros e uns quantos salgueiristas.

O Salgueiral é no entanto o segundo clube de quase toda a gente. Os salgueiristas puros e duros não costumam gostar do FCP, mas a gente não se chateia, até porque eles costumavam perder sempre nos jogos com o Porto (e às vezes ganhavam aos lampos e aos lagartos).

E sendo poucos, os salgueiristas reflectem uma parte importante da alma da cidade. Não, não é a história da alma salgueirista; isso foi inventado nos anos 80 pelas claques.

Mas o Salgueiros representa mesmo assim uma parte da alma do Porto. Do Porto à maneira antiga, proletário, macambúzio, que escarra para o chão e diz caralhadas.

Eu que nasci no meio disto gosto muito desse Porto. Também gosto de ir ao Vidal Pinheiro; um gajo empilhar-se com mais umas centenas de desgraçados numa bancadas decrépitas, com os fanáticos a ameaçar de morte o árbitro e a trepar a vedação para cuspir nos fiscais de linha.

Nenhum clube tem um grito de guerra melhor que o Salgueiros. A maneira correcta de torcer pelo Salgueiros é ver o jogo com uma tromba danada, a resmungar para o vizinho e, a propósito de nada, no meio da jogada mais inócua possível (um lançamento de linha lateral, uma substituição, um pontapé de baliza), gritar, com tanta força que se ouça no hospital de S. João -

SAL-GUEI-ROS!

E depois um gajo senta-se outra vez.

Enfim, a decadência do Salgueiral (aparentemente tem a ver com tramóias de dirigentes, falta de dinheiro, e despromoções administrativas) reflecte também a morte do Porto antigo.

Nos últimos anos, a cidade feia, suja, escura e ferozmente independente mudou. Quando lá volto, já não encontro o espírito do antigamente.

Isso é o progresso; quando um gajo se põe a refilar por as coisas já não serem como eram, normalmente está-se a ter nostalgia do atraso. O Porto está mais moderno, mais cosmopolita, mais evoluído.

Hélas, o custo do progresso é que a cidade também ficou mais incaracterística. As grandes instituições da cidade - o comércio da Baixa, o Bolhão, o JN, os traficantes da Sé, os putos mafiosos das Fontaínhas, o Salgueiral - ou estão em decadência ou modernizaram-se.

A vida moderna está a tirar ao Porto a sua personalidade. O Porto está a aburguesar-se, a ficar como outra cidade europeia qualquer - está a ficar, Deus nos livre, como Lisboa.

Enfim, um dia destes até o Salgueiral entra no século XXI, constroem-lhe um estádio novo, ele sobe de divisão outra vez, e as peixeiras e os reformados deixam de aparecer nas bancadas, ou vão lá mas deixam de mandar caralhadas e cuspir para o campo.

Por enquanto, desconfio que o Salgueiral ainda está como antigamente. Na terça-feira, joga em casa com o Nazarenos para a Taça. Não vou ao estádio, mas hei-de lá estar em espírito. À hora do jogo, vou sair à rua e vou gritar com força:

SAL-GUEI-ROS!


Bom, talvez não grite, talvez diga só baixinho. E depois volto para casa.

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