domingo, junho 29, 2003

Contra os Mexias deste mundo

O camarada de luta Ernesto antecipou-me as ideias e, com o seu verbo fácil, tornou-me difícil expressar uma opinião sobre os Mexias deste mundo.
Sou jornalista (pelo menos, até ver) e escrevo aqui sob o nome de Elcablogue, apesar de todos os meus amigos saberem quem sou. E irritam-me solenemente (faz-me comichão como uma urtiga) os Mexias deste mundo, que se arrogam de jornalistas quando não o são (o que até acaba por lhes ser favorável).
Sou jornalista e nunca assinei nenhum artigo de opinião em nenhum órgão de comunicação, além dos blogues. E não é isso que me faz ser menos jornalista (se calhar é o contrário). Transmito factos (ou aquilo que entendo como tal) com o mesmo prazer que um funcionário das finanças carimba impressos de IRS. De quando em quando, tenho uma “estória” engraçada e trabalho-a com algum gozo pessoal que, em muitos casos, compensa o esforço diário de uma profissão sem rosto e sem horário.
Por isso, detesto quem se assume como jornalista quando o mais perto que está dessa profissão é proporcional aos metros que medeiam entre a sua secretária e a do repórter do órgão onde colabora. Ser crítico de arte não quer dizer necessariamente que se é um jornalista, nem o contrário é verdade. Lembra-me a história da Catarina Furtado dizer que queria ser jornalista apenas porque aparecia na televisão e os apresentadores de concursos que garantiam ter uma deontologia. Prova disso, são os cursos de comunicação, repletos de pseudos-estrelas embriagadas com fotografias cor-de-rosa e sonhos de big brother.
Só assim se compreende que tantos falem numa oposição jornalismo/blogosfera. Um blogue é um blogue. Quando tentar ser sério e rigoroso no acompanhamento da realidade deixa de ser blogue, passando a ser um jornal on-line. É que ser jornalista ( sim, isto é para vocês que assinam coluninhas em suplementozinhos cuidados com fotografia e fazem entrevistas a gajos - ou gajas - giros e interessantes) não é apenas fazer aquilo que se gosta. Na maioria dos casos, é fazer aquilo que menos gostamos, desde um comunicado de um sindicato ao relato da morte de uma criança de oito anos, vítima de atropelamento, passando pelas declrarações de algum cromo que diz "prognósticos só no final do jogo". No entanto, de quando em vez, temos algum prazer com aquilo que escrevemos.
Um jornal, ao contrário do que podem ser os blogues, não é para os amigos ou para os pare,s mas para todos (um máximo denominador comum que não é possível calcular com muita certeza mas que os especialistas apontam para um universo de cem mil gajos que têm dinheiro para comprar um pasquim e sabem conjugar um verbo composto) e para permitir que aqueles que não estiveram num determinado local saibam aquilo que se passou (embora de acordo com a visão do jornalista e o estatuto editorial da publicação).
Isto não quer dizer que não gosto do Mexia e dos seus escritos. Gosto e penso que até tem algum jeito para a poda. Não concordo com o Ernesto que gaba o MEC sobre todos os escriturários de direita. Penso que há alguns outros que estão ao nível e nem sequer se repetem tanto, como o PM ou o gajo que manda na Maxmen. É claro que o Vasco Pulido Valente está acima de todas estas questões frugais, como um vorlon sobrevoa os centauri, quando retira aquela armadura ridícula (isto é para quem acompanha o Babylon 5).

PS: Assino Elcablogue e não com o nome verídico (sim, posso ter aspecto de cavalo, mas não sou personagem de ficção) pela súmula das razões que expus. Sou jornalista e tenho um nome profissional que me obriga a lidar, da mesma forma rigorosa e imparcial, com tudo aquilo que gosto e não gosto. Nesse sentido, decidi recorrer a algo que está consagrado no estatuto do jornalista: o anonimato da fonte.

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